quinta-feira, 19 de maio de 2011

Like a snowflake

Há canções tão perfeitas que parece que foram feitas para nós. E então é como se nos apaixonássemos secretamente: ouvimo-las na nossa cabeça onde quer que vamos, vemos o seu rasto imaginário por todo o lado... Esta é uma delas.



Fleet Foxes - Helplessness Blues

I was raised up believing I was somehow unique
Like a snowflake distinct among snowflakes, 
unique in each way you can see

And now after some thinking, I'd say I'd rather be
A functioning cog in some great machinery 
serving something beyond me

But I don't, I don't know what that will be
I'll get back to you someday soon you will see

What's my name, what's my station, oh, just tell me what I should do
I don't need to be kind to the armies of night 
that would do such injustice to you
Or bow down and be grateful 
and say "sure, take all that you see"
To the men who move only in dimly-lit halls 
and determine my future for me

And I don't, I don't know who to believe
I'll get back to you someday soon you will see

If I know only one thing, it's that everything that I see
Of the world outside is so inconceivable 
often I barely can speak
Yeah I'm tongue-tied and dizzy and I can't keep it to myself
What good is it to sing helplessness blues, 
why should I wait for anyone else?

And I know, I know you will keep me on the shelf
I'll come back to you someday soon myself

If I had an orchard, I'd work till I'm raw
If I had an orchard, I'd work till I'm sore
And you would wait tables and soon run the store

Gold hair in the sunlight, my light in the dawn
If I had an orchard, I'd work till I'm sore
If I had an orchard, I'd work till I'm sore

Someday I'll be like the man on the screen 

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Os Elementos: Fogo, Optimismo e Pensamento Positivo

Recebi por mail o anúncio de um “curso de pensamento positivo” que será na verdade uma introdução ao Raja Yoga. Bem mais interessante o que realmente é do que pretende ser, não? A expressão “pensamento positivo” deriva do conceito de que o pensamento humano pode alterar a realidade exterior sem recurso à acção directa sobre essa realidade. As origens deste conceito remontam a Platão, e ao longo dos tempos muitos filósofos, escritores e místicos deambularam sobre o tema (aqui fica um link para as obras mais influentes dedicadas ao assunto).

Nietzsche (filósofo alemão, 1844-1900) defendeu ideias muito interessantes a respeito do poder da vontade, e utilizou uma interpretação invulgar (ainda que perfeitamente lógica) do mito de Pandora para ilustrá-las. Na mitologia grega, Pandora foi a primeira mulher, criada em co-autoria por vários deuses. A certa altura, Zeus encarregou-a de um “frasco” (no original não seria uma “caixa”) onde estavam guardados todos os males do mundo e que nunca deveria ser aberto. Mas a curiosidade de Pandora levou a melhor, o jarro foi aberto, e toda a espécie de males libertada sobre a Humanidade. No fundo do jarro terá ficado, apenas, a esperança. Nietzsche defende então que a esperança é uma miragem e o maior problema da Humanidade, e que por isso permaneceu dentro do jarro: é a única desgraça que não se propaga “voando” de pessoa em pessoa, mas insinuando-se e penetrando profundamente na mente humano.


As críticas de Nietzsche ao carácter pernicioso da esperança assumem especial pertinência quando se trata de observar, tão racionalmente quanto possível, o movimento do “pensamento positivo” que está hoje por todo o lado. O problema básico com ambos os conceitos é o mesmo: ao acreditar que algo terá um desfecho positivo, corremos sérios riscos de nos demitirmos da responsabilidade de agir para que esse desfecho positivo de facto se concretize. Nesse sentido, o pensamento positivo é ainda mais tóxico: quando as coisas correm mal, o falhanço é atribuído pelo indivíduo à falta de capacidade para gerar pensamentos positivos eficazes. Saem assim reforçados os sentimentos de inépcia e de fracasso pessoal que deprimem e sustentam a dependência emocional de soluções fáceis para a dificuldade em lidar com a frustração.

A literatura de auto-ajuda à la carte, que teve o seu auge (espero eu!) com a publicação d’O Segredo, mais não fez do que distorcer algumas leis herméticas para dar à generalidade do público (leiam-se “consumidores”) um pacote apetecível de crença na ideia de que tudo lhes é possível, bastando quererem muito muito e colocarem nesse querer todos os seus recursos emocionais/mentais/espirituais. E então porque é que isso não há-de funcionar, se tudo no Universo é Mental (1º Princípio Hermético)?


- Porque para cada coisa há o seu oposto (4ºPrincípio Hermético – não faz muito sentido usar os princípios que nos dão jeito e descartar os que não encaixam assim tão bem na teoria, pois não?). Com cada desejo intenso de ter algo – pessoa, situação, objecto,… - coexiste dentro de nós o medo igualmente intenso de não ter esse algo. Quando afirmamos com todas as forças “Quero isto”, há uma sombra nessa afirmação luminosa que tentamos varrer pra debaixo do tapete da mente consciente: “Receio nunca ter isto”. Ambas as afirmações partem de nós, indissociáveis, e o resultado prático observável será que uma anula a outra. 

Certas correntes do Ocultismo moderno afirmam que para executar verdadeira Magia (=”a ciência e a arte de causar Mudança em conformidade com a Vontade” – Aleister Crowley) é necessário:

1º Atingir um estado de gnose (leia-se "transe") em que a actividade da mente racional é temporariamente suspensa de modo a que se possa emitir um pensamento único, unidireccional, expressão pura de uma só vontade (“Quero isto!”) sem as dúvidas/medos do seu oposto (geralmente produzidos pela mente racional).
2º Abandonar a necessidade que temos de ver a nossa vontade concretizada. Idealmente, esquecer que alguma dia quisemos aquilo. Porque ao regressar ao estado habitual, a mente racional volta a produzir os mesmos pensamentos polarizados (desejo/medo), e isso acabará por interferir com a concretização do pensamento unidireccional anteriormente expresso.

Outra forma de conseguir as coisas poderá ter um interesse místico-metafísico substancialmente inferior, mas ser muitíssimo mais eficaz do que todo o stock da FNAC em livros de auto-ajuda: AGIR. Nesta era de busca incessante pela espiritualidade, muitos de nós tendem a envolver-se demasiado com o domínio das coisas invisíveis e esquecer que aqui estamos em corpos materiais que interagem com o “mundo real” (as pessoas na nossa vida, as contas para pagar, o trabalho e a falta dele, música e arte para nos elevar o espírito!) Nessa interacção ficamos a conhecer os nossos talentos e enfrentamos as nossas dificuldades. C’est la vie, e ainda bem que assim é (digo eu): vir a este mundo, perceber que temos muito trabalho pela frente e choramingarmos por Deus/Universo para que nos tire da caca será um bocadito imaturo em termos espirituais e muitíssimo improdutivo em termos práticos, não?

E para lidar com o mundo material, há uma coisa óptima chamada “optimismo” (passe o pleonasmo). Ser optimista não é a mesma coisa que ter esperança. O optimismo pode fazer parte daquilo que SOMOS, a esperança é algo que podemos TER ou não, consoante dela sintamos necessidade. O esperançoso espera que tudo aconteça de acordo com a sua vontade, crendo e querendo que a realidade se molde às suas expectativas. O optimista adapta-se à realidade, qualquer que ela seja, imbuído de uma auto-confiança que o torna emocionalmente resiliente perante os altos e baixos da vida. O que quer que aconteça, saberei tirar o melhor partido da situação (ou como dizem os ingleses, “every cloud has a silver lining”).

Astrologicamente, a atitude optimista está associada ao elemento Fogo e aos signos por ele inspirados: Carneiro, Leão e Sagitário. As pessoas que no seu mapa astrológico têm planetas em signos de Fogo (com maior ou menor preponderância atendendo às restantes componentes do mapa) tendem a adoptar uma atitude optimista na definição da sua identidade (Sol), na reacção emocional às circunstâncias (Lua), na forma de agir (Marte) ou de seduzir (Vénus), etc. São os entusiastas, os “go-get-it”, os que encontram motivação extra em cada obstáculo que se lhes apresente, aqueles em quem a chama criativa parece nunca esmorecer (ainda que possa mudar de direcção várias vezes por dia ;-). Estas pessoas são generosas nas suas demonstrações de ânimo, e se souberem dosear tanta enegia (porque demasiado Fogo pode ofuscar todo e qualquer outro ego no raio de vários km), podem desenvolver o extraordinário talento de inspirar os outros, fazendo-os sentir especiais e capazes de agir decididamente sobre as suas próprias vidas.


Nem todos temos uma boa dose de Fogo, e é mesmo assim: só cá está quem cá faz falta. Se no entanto sentir falta de uma fonte extra de motivação, esqueça os livros de auto-ajuda e procure um bom amigo destes. Não terá grande paciência para ouvir os seus problemas, é certo, mas ajudá-l@-á a encontrar as gargalhadas que dentro de si julgava perdidas.


PS- Este post é dedicado a todos carneiros, leões e sagitários, de Sol ou de outro planeta qualquer, declarados ou encapotados, que por este mundo espalham a sua chama interior sem pudor pela(s) crise(s) de dinheiro e de valores e de existência, como se não houvesse amanhã e hoje fôssemos apenas crianças brincando na praia.



Fonte: Astrotheme.com
PS2- Friederich Nietzsche nasceu em 15 de Outubro de 1844, com o Sol em Balança. O trígono da Lua em Sagitário a Urano em Carneiro ajudam a perceber a sua profunda necessidade (Lua) de lutar por uma causa maior (Sagitário) revoltando-se contra a ideologia dominante da época e defendendo que apenas ao ser humano compete assumir as rédeas do seu próprio destino (Urano em Carneiro). Com Marte em conjunção ao Meio-do-Céu (MC) em Virgem no topo de um yod que envolve Plutão e Neptuno, Nietzsche atingiu grande notoriedade pública (MC) ao exercer um sentido crítico implacável (Marte em Virgem) perante aquilo que considerava ser a mediocridade do pensamento dominante das massas, defendendo sem reservas o poder individual (Plutão em Carneiro) e a libertação do ser humano dos dogmas religiosos que o inferiorizavam perante a existência de um Deus caprichoso (Neptuno em Aquário).

Selo de Qualidade

A talentosa Shin-Tau e o seu Grimoire do Mago acharam por bem voltar a premiar o Nodo Ascendente pelo que aqui se escreve. Não sei se a escassa frequência de posts o tem justificado, pelo que prefiro acreditar que se trata de uma questão de qualidade e não de quantidade ;-) Sensibilizada e orgulhosa da distinção, agradeço-a humildemente e deixo aqui resposta às questões que a acompanham:


Nome: Medusa a.k.a. Raquel


Uma música: Uma para cada momento singular. Neste momento, Helplessness Blues dos Fleet Foxes


Humor: Fleumático, sff.


Uma estação do ano: Todas, uma de cada vez (“Spring passes and one remembers one's innocence. Summer passes and one remembers one's exuberance. Autumn passes and one remembers one's reverence. Winter passes and one remembers one's perseverance.” Yoko Ono)


Como prefere viajar: Com os olhos e a alma bem abertos e os pés confortavelmente calçados.


Uma série: Heroes


Frase ou palavra mais dita: "Se fosse fácil não teria piada."


O que achou do selo: Um presente inesperado, um incentivo a continuar a escrever mais e melhor.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Poema de Natal

por Vinicius de Moraes (1913-1980)




Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.


Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.


Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.


Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Tarot - XV. O Diabo

"E às vezes somos diabos para nós próprios, quando tentamos a fragilidade dos nossos poderes presumindo a sua potência volátil."

William Shakespeare (Dramaturgo inglês, 1564-1616)


"Mas é bem melhor ousar coisas grandiosas, obter triunfos gloriosos ainda que alternados com o fracasso, do que permanecer com os pobres espíritos que não gozam nem sofrem muito, porque estes vivem uma existência cinzenta que não conhece vitória nem derrota."

Theodore Roosevelt (Estadista e presidente norte-americano, 1858-1919)


Símbolos Básicos
Um demónio alado sobre um pedestal negro, duas figuras nuas (mulher e homem) presas por correntes, um pentagrama. Em alguns baralhos, uma montanha surge ao fundo.

A Viagem do Louco
O Louco segue o seu caminho após o encontro com um Anjo e a sua alquimia dos opostos (Ver Temperança). Surge no horizonte uma enorme montanha negra, governada por uma criatura meio-bode meio-deus. Junto aos seus cascos estão pessoas nuas, presas por correntes ao trono do estranho regente enquanto desfrutam de todos os prazeres terrenos: comida, bebida, sexo, drogas, ouro... A cena ameaça apoderar-se do Louco, que à medida que se aproxima do sopé da montanha sente crescer em si os seus desejos mais mundanos. Luxúria, obsessão, ganância. "Recuso submeter-me a ti!" grita ele para o Deus-Bode, que lhe devolve um olhar curioso respondendo "Limito-me a trazer à superfície aquilo que já existia dentro de ti. Não precisas temer os teus desejos, nem evitá-los ou sentir vergonha deles." O Louco fica ainda mais indignado, e apontando zangado para as pessoas acorrentadas, pergunta: "Como podes dizer isso, quando estes que aí se banqueteiam aos teus pés foram por ti escravizados?" O Deus-Bode imita o gesto do Louco, respondendo-lhe "Observa com mais atenção."


O Louco assim faz, e percebe então que as algemas que prendem homens e mulheres são suficientemente largas para serem removidas sem esforço. "Eles podem ser livres se o desejarem", diz o Deus-Bode. "Mas tens razão. Eu sou o deus dos teus maiores desejos. Estas pessoas foram escravizadas apenas porque se deixaram controlar pelos seus desejos mais básicos." E o Deus-Bode continua, apontando para o cume da montanha: "Não vês aqui aqueles que permitiram que as suas aspirações os levassem ao topo desta montanha. As inibições podem ser tão limitadoras como os excessos. Podem impedir-te de seguir a tua paixão até aos mais elevados objectivos. "


O Louco compreende a verdade das palavras do Deus-Bode, e também o erro de julgamento que cometeu. Esta não é uma criatura maligna, mas um ser com grande poder, do mais elevado e do mais subterrâneo, simultaneamente besta e deus. Como todo o poder, este é assustador, perigoso... mas se bem compreendido e utilizado, pode ser a chave para a liberdade e a transcendência. 



Notas interpretativas

A carta do Diabo é uma das mais incompreendidas entre os Arcanos Maiores do Tarot. Aqui, o “Diabo” não é o Satanás das religiões monoteístas, mas sim os deuses Pã ou Dionísius, com meio corpo de bode, que na Mitologia Antiga brincavam despreocupadamente por entre bosques e riachos, promovendo orgias de sexo e vinho entre humanos e seres mágicos. Pã ou Dionísius são a personificação do abandono aos prazeres da vida, do comportamento selvagem que busca exclusivamente a satisfação dos desejos imediatos. Não é por acaso que um dos símbolos do Diabo é o Pentagrama invertido: a submissão do espírito ao mundo material.

Regida por Capricórnio, a carta do Diabo fala-nos de ambição, mas também de tentação e dependência. A maior parte de nós aprende desde muito cedo que estes são temas a abordar com desconfiança. Ceder à tentação do sexo ou da comida é "mau", depender de álcool ou drogas é "mau", ser demasiado ambicioso é "mau" (“quem tudo quer tudo perde”, etc). A carta do Diabo alerta-nos para tudo isso: em todo o excesso que nos leva a perder o controlo há o risco de nos tornarmos dependentes de algo ou de alguém, de nos tornarmos escravos daquilo que mais desejamos. Ora o excesso de controlo pode também ser fonte de limitação, e por isso este Diabo capricorniano exorta-nos, paradoxalmente, a ceder aos nossos impulsos mais elevados, a não ter receio de investir numa ambição maior que nos leve a escalar montanhas em busca de algo tão extraordinário que não está acessível aos “esforçozinhos de média intensidade”, mas apenas às grandes conquistas.

Quando o Diabo surge numa leitura, o Querente pode estar a personificar um dos extremos do signo de Capricórnio: excessivamente ambicioso (do tipo que não olha a meios para atingir fins), ou excessivamente controlado (do tipo que não se permite viver nada demasiado intenso, demasiado apaixonante… demasiado ambicioso). O Diabo pode também referir-se a uma figura masculina com grande poder financeiro e/ou magnetismo sexual, alguém que é agressivo, controlador, ou simplesmente persuasivo. Não se trata de uma pessoa necessariamente “má”, apenas de alguém a quem é muito difícil resistir... Como na história do Louco, o mais importante com a carta do Diabo é compreender que, se existe algo que nos domina – um chefe, uma ambição, uma obsessão –, fomos nós que consentimos esse domínio. As algemas são suficientemente largas para nos libertarmos. Permanecemos aprisionados enquanto, consciente ou inconscientemente, assim o permitirmos.