segunda-feira, 22 de abril de 2013

Astrologia do Coração Partido: Trânsitos de Neptuno

Os trânsitos de Neptuno são, por definição... confusos. Qualquer que seja o planeta natal ou a casa astrológica "afectados", Neptuno traz uma grande indefinição até mesmo ao mais resoluto dos mortais. 

Na esfera dos relacionamentos, Neptuno pode ser responsável por etapas de grande inspiração: ... e de repente vemos noutra pessoa a nossa Alma Gémea! Pode ser alguém com quem nos relacionamos há muito tempo, ou pode ser um desconhecido com quem trocámos olhares no autocarro. O que acontece é que o contacto de Neptuno com um dos nossos planetas pessoais vem trazer à nossa humilde condição humana um pouco do amor divino, aquele sentimento sobrenatural de total imersão no Amor Absoluto do Cosmos. Este é o êxtase que tantos religiosos procuram em longas horas de meditação, em laboriosos períodos de jejum e penitência. E no entanto aqui está ele, perfeitamente focalizado noutro ser humano, como se esse outro ser humano fosse capaz de nos conduzir à salvação da alma (ou à condenação eterna).

Por mais irresistível que pareça a promessa romântica de muitos trânsitos de Neptuno, cedo ou tarde ela se revela impossível. Não porque a outra pessoa seja comprometida, ou porque vá em breve partir definitivamente para longe, por exemplo. Podem ser estas as circunstâncias, mas os motivos do impossível neptuniano são mais profundos. É que o êxtase da comunhão espiritual não cabe num relacionamento a dois. Não por muito tempo, pelo menos. Confundir amor divino com amor humano é o drama de todo o romântico incurável, um drama que artistas de todas as épocas bem souberam retratar nas suas obras. Romeu e Julieta, Tristão e Isolda. Amores demasiado grandes para serem vividos por meros mortais. Que teria acontecido a estes famosos pares românticos se não fosse a Morte? O tédio? Talvez não. Mas a magia do amor romântico, o amor das ilusões, não é compatível com a rotina diária, com o confronto de egos, desejos e necessidades que está sempre presente numa relação, por mais harmoniosa que seja. 

Nesse sentido, e voltando a Neptuno, os seus trânsitos vêm muitas vezes trazer ilusão e desilusão. A miragem do amor perfeito que depois se esfuma, mais cedo ou mais tarde, por conta de um qualquer motivo racionalmente plausível mas emocionalmente devastador. Algumas pessoas tentarão (re)encontrar uma e outra vez a mesma sensação de união a algo maior. Talvez no sexo, nas drogas, ou noutra qualquer forma de escape. Porque Neptuno é isso, é querer que a nossa pele se dissolva para nos tornarmos um só com tudo o resto, escapando à nossa condição humana de inevitável solidão. 

Noutros casos, os trânsitos de Neptuno mergulham-nos em situações dúbias, difíceis de entender, em que algo inevitavelmente nos escapa - ainda que não saibamos explicar o quê. Ou somos nós que nos colocamos no papel de ilusionista, dissimulando a verdade para servir propósitos menos honrosos. Mas como diz o velho ditado (?):

Podes enganar algumas pessoas o tempo toda, e todas as pessoas durante algum tempo, mas não podes enganar todas as pessoas o tempo todo.

Olhando Neptuno de uma forma mais construtiva, os seus trânsitos podem servir para honrar um ideal maior que nós, e assim tornamo-nos capazes de co-criar melhores relacionamentos. Quem foi que disse que duas pessoas que se amam não devem olhar uma para a outra, mas olhar na mesma direcção? Talvez Neptuno possa ajudar a apontar essa direcção, estimulando a imaginação e a vontade de dar corpo e voz a uma causa maior. Porque não envolverem-se nessa causa maior, a dois? Arte, filantropia, assistência humanitária... Não ficará mais rica a vossa relação se dela forem capazes de extrair algo mais do que apenas o vosso bem-estar? 


Porque não dar amor ao mundo, tal como dão um ao outro? Pois que essa é talvez uma das maiores lições de Neptuno: Amor é Amor, e não vale a pena centrá-lo apenas numa outra pessoa - e dar-lhe o pomposo título de "Alma Gémea" - pois que o verdadeiro Amor está em todos e em toda a parte. Basta saber olhar.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Astrologia do Coração Partido: Trânsitos de Urano

Há relacionamentos que vão terminando lentamente. São as discussões cada vez mais frequentes ou o desgaste silencioso da rotina diária que transformam um casal outrora cúmplice numa dupla de perfeitos desconhecidos. A certa altura, já a situação está tão degradada que ambos têm noção de que o final está perto. Outras vezes, tudo parece quase perfeito até que uma das pessoas termina tudo abruptamente, para choque do outro e espanto geral.

Nestes casos estão normalmente envolvidos trânsitos de Urano, especialmente a Vénus ou ao eixo Ascendente/Descendente. Urano traz consigo a ruptura com o que está desactualizado, em nome de um ideal de vida e de relacionamento em maior sintonia com os nossos desejos presentes. Enquanto os trânsitos de Saturno inspiram muitas vezes a solidificação do relacionamento (através do casamento, ou do início informal de uma vida em comum), os trânsitos de Urano exigem mudança radical. Quem nunca teve uma relação séria deseja subitamente comprometer-se com alguém, mas a manifestação mais comum da influência de Urano é a ânsia por algum tipo de libertação. Livremo-nos da responsabilidade, do compromisso, das expectativas bolorentas da sociedade, até da monogamia! 

Urano exige espaço para respirar, e muitos relacionamentos não conseguem adaptar-se a tamanha mudança. Para que um sentimento de união sobreviva a isso, é necessária grande flexibilidade de parte a parte, pois que nesta etapa não há cedências à nostalgia dos bons tempos vividos no Passado. Apenas o Aqui e o Agora interessam.

Como em tudo o que é Astrologia, muitas vezes compete ao Outro realizar aquilo que não somos capazes de fazer, ou que não temos consciência de que tem que ser feito para nosso próprio bem. Aquelas pessoas que mais resistem à mudança terão grande dificuldade em lidar com um trânsito de Urano, e por isso sucede muitas vezes sucede que seja a outra pessoa a terminar inesperadamente o relacionamento. "Ah, aquele canalha insensível, como pode ele terminar assim uma relação de tanto tempo...?" Por mais difícil que seja de entendê-lo (sobretudo quando as emoções estão ainda à flor da pele), importa adquirir distanciamento suficiente para perceber que, tratando-se de um trânsito de Urano NOSSO, é nosso o desejo de libertação - o "canalha insensível" apenas agiu como uma parte de nós gostaria de ter agido, se lhe tivéssemos dado ouvidos.

Ai, a projecção, a projecção. Nunca deixa de me surpreender, o modo como as pessoas da nossa vida nos devolvem, com o seu comportamento, aquilo que não estamos dispostos a reconhecer em nós mesmos. Para quê enredarmo-nos na habitual teia de culpas mútuas, se com um bocadinho de honestidade conseguimos ir muito mais longe no porquê do fim de um relacionamento?

E é isso mesmo que Urano vem propôr, quando transita em algum ponto sensível do nosso mapa astrológico. Sejamos mais autênticos connosco mesmos e com os outros, pois qualquer que seja o preço emocional a pagar valerá a pena se servir para nos tornarmos mais NÓS MESMOS e menos aquilo que os outros esperam que sejamos.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Astrologia do Coração Partido: Trânsitos de Saturno

A esfera dos relacionamentos é talvez o conjunto das experiências mais marcantes na vida de qualquer pessoa. E relacionamentos existem em todos os formatos e conteúdos: a família que não se escolhe, os amigos que se vai (des)fazendo pelo caminho, os amores platónicos e atómicos, possíveis e impossíveis, tépidos e escaldantes... Todo o tipo de emoções nasce e morre à medida que vamos encontrando e conectando com novas pessoas enquanto outras vão desaparecendo do nosso percurso de vida.

O estudo astrológico pode ser especialmente útil quando tentamos compreender os relacionamentos, sobretudo os de natureza romântica - por serem muitas vezes inesperados, por ocuparem tanto tempo do nosso foco mental e emocional, por povoarem o imaginário colectivo actual como condição essencial à felicidade de cada um de nós. Afinal, o que determina o nível de atracção entre duas pessoas? A sua compatibilidade intelectual, cultural...? A "química" inexplicável que as torna irresistivelmente inseparáveis...? Estes são temas complexos que merecem muitos muitos posts, mas desta vez analisemos o final de um relacionamento amoroso.

Toda a gente passa por diferentes fases na sua vida. Algumas fases serão consideradas "boas" (sucesso profissional, estabilidade familiar, boa energia física e mental,...), outras nem tanto. Porque são feitos de pessoas, os relacionamentos também passam por fases, mudam, evoluem. Mas se nem sempre estamos conscientes das alterações que sucedem dentro de nós próprios, muito menos conscientes estamos de como isso vai afectado os nossos relacionamentos. É que uma só pessoa já é suficientemente difícil de entender (mesmo para si própria), quanto mais duas pessoas + toda a bagagem emocional que transportam para dentro do seu relacionamento.

Em termos astrológicos, as grandes mudanças nos relacionamentos são muitas vezes assinaladas por trânsitos de Saturno, Urano, Neptuno e Plutão aos planetas pessoais natais de uma ou ambas as pessoas, sobretudo ao Sol, à Lua, a Vénus ou a Marte. Trânsitos aos ângulos (Ascendente/Descendente e MC/IC) podem também ter importantes consequências em qualquer relacionamento, pois produzem uma transformação significativa no modo como cada pessoa se relaciona com o mundo no geral.

Os trânsitos de Saturno forçam-nos a assumir responsabilidades por escolhas passadas, por compromissos assumidos perante nós mesmos e perante os outros. Saturno convida (com grande insistência :-) a que reconheçamos e aceitamos os nossos limites, não com um atitude de derrota perante as circunstâncias mas com um espírito de persistência e dedicação àquilo que são os nossos objectivos de vida. Quando os trânsitos de Saturno afectam um relacionamento, é posta em causa a nossa capacidade para nos comprometermos com o Outro, e somos questionados sobre as limitações associadas ao estar com o Outro. 

Muitas vezes a relação "passa" no teste saturnino e sentimos então a necessidade de formalizá-la, de torná-la mais sólida e estruturada aos nossos olhos e aos olhos da sociedade: é por isso que muitos trânsitos de Saturno (sobretudo a Vénus natal ou ao Descendente) estão associados à decisão ou ao acto de casar. Por outro lado, os relacionamentos que se tornaram estáticos e demasiado restritivos acabam por terminar durante um trânsito de Saturno: chega o momento em que somos forçados a admitir que aquela relação que durante algum tempo nos serviu de suporte já não pode mais apoiar o nosso pleno desenvolvimento individual.

Como em qualquer outro trânsito, acontece frequentemente que uma das pessoas não está consciente das forças interiores que apelam a uma mudança concreta, e quando assim é acaba por ser o Outro a agir. Como defendia Jung, aquilo de que não estamos conscientes em nós chega-nos do exterior como se fosse "destino". Por muito doloroso que seja admiti-lo, a separação é tão essencial a quem é "abandonado" como a quem "abandona", pois toda a relação funciona apenas enquanto AMBOS encontram aí uma fonte de desafios positivos para a sua aprendizagem individual. 

Os trânsitos de Saturno podem por isso trazer o final não desejado de uma relação, muitas vezes com um sentimento de grande solidão e a sensação de se não ter sido suficientemente "bom" para a pessoa que nos deixou. Este duro golpe na auto-estima demora tempo a ser ultrapassado - não fosse Saturno o deus do Tempo :-) - mas com um pouco de distanciamento e auto-análise aquilo que parecia uma catástrofe amorosa acaba por se revelar numa oportunidade preciosa para desenvolvermos um sentido de amor próprio mais auto-suficiente, que não depende tanto da validação de quem está ao nosso lado mais mais daquilo que de valioso reconhecemos em nós próprios.

E Urano, que efeitos terá num relacionamento amoroso?... Até ao próximo post!

domingo, 3 de março de 2013

Mudar... mas o quê?

Sem nada aparentemente plausível que o justifique, 
interrogo-me todos os dias com o seguinte: 

"Mas a vida será só isto? Há, seguramente, qualquer coisa que me está a escapar, algo que eu tenho que perceber e ainda não percebi, talvez um conhecimento ainda não disponível ou um dom ainda não descoberto..."

Sinto-me errática, pela vida, sem rumo definido, ainda que aparentemente tudo esteja bastante organizado... a verdade é que ainda não sei quem quero ser quando for grande... parece que as coisas me vão acontecendo como se eu não tivesse grande controlo sobre elas. 
Sinto que deveria, mudar, mudar, mudar... tenho a força para o fazer se soubesse o que mudar...

Kátia, Lisboa


Adaptado de Astrodienst
Gosto de abordar cada mapa astrológico como se tivesse uma história para contar. Ou melhor, muitas histórias. E a questão que colocamos ao mapa direciona a nossa mente racional e a nossa intuição para a história que reside nessa questão. 

Numa visão panorâmica, observam-se os quatro ângulos (Ascendente/Descendente e Meio-do-Céu/Fundo-do-Céu) em signos fixos, sugerindo uma postura de continuidade perante a vida.

Os planetas encarregam-se de escrever o parágrafo seguinte. Com Sol, Marte, Júpiter e Saturno em signos mutáveis, há grande capacidade de adaptação às circunstâncias. Sem dúvida que tudo está organizado pois consegue lidar habilmente com o que a vida prática lhe apresenta de bom e de menos bom (Sol e Marte em conjunção em Virgem, Júpiter em Sagitário na casa 2). Mas há qualquer coisa em falta, e o seu espírito profundamente investigativo (o Ascendente Escorpião com Marte em Virgem regendo o mapa, Saturno em quadratura ao Sol, em Gémeos na casa 8) permanece agitado. 

Mas a vida será só isto?  É Júpiter em Sagitário quem faz essa pergunta, o seu filósofo interior (e que dotado que ele é, em trígono ao criativo Mercúrio em Leão...!). E fá-la precisamente aos planetas na casa 9, a casa natural de Júpiter, a casa da busca pelo sentido da Vida. 

Na casa 9 vivem duas senhoras que falam em uníssono (estão em conjunção), ainda que digam coisas um pouco diferentes uma da outra (pois estão em signos diferentes). A Lua personifica a nossa criança interior, mostra o que precisamos para nos sentirmos cuidados e seguros. "Preciso de encontrar o meu lugar no mundo (casa 9), o meu lugar de heroína que fará com que todos me admirem por ser tão especial!" (a Lua está em Leão, assim como o Meio-do-Céu). Enquanto isso, Vénus em Caranguejo anseia por relacionamentos. "Quero viajar, aproveitar os prazeres que lá fora me esperam, quero envolver-me com quem me possa levar nesta viagem, quem me mantenha segura e acarinhada ao longo do caminho, quem comigo queira partilhar um ninho do tamanho do mundo".


E olhando mais atentamente para esta Vénus, parece que é ela o enigma e a solução em simultâneo. Regendo o Descendente Touro, Vénus parece esperar que tomem conta dela. Está ainda em conjunção ao Nodo Descendente, que representa as experiências que assimilámos em vidas passadas e às quais facilmente regredimos quando nos deparamos com qualquer circunstância desconfortável. "Fui tão bem cuidada em vidas passadas.... espero agora continuar a encontrar quem cuide de mim, quem me dê qualquer coisa de reconfortante em que acreditar..." Bem, por esta altura já o filósofo Júpiter perdeu a paciência e foi dedicar-se a procurar novas e estimulantes fontes de rendimento - que é pra isso que ele lá está na casa 2 ;-)

Mas não desisto da Vénus em Caranguejo. Porque Caranguejo não é só o querermos que cuidem de nós. É - e deve ser - a capacidade que temos de cuidar de nós próprios e também de cuidar dos outros. E é esse o percurso sugerido pelos nodos lunares, pois que se o Nodo Descendente sugere o passado distante de onde viemos, o Nodo Ascendente mostra qual o caminho em frente, a direcção que maximiza o potencial de desenvolvimento de cada pessoa. 

E lá está ele em Capricórnio, casa 3. Mensagem: torne-se auto-suficiente nas suas aprendizagens. Não espere que um príncipe encantado a leve a explorar o mundo, mas antes defina objectivos claros para desenvolver os seus conhecimentos. Mais do que isso, o Nodo Ascendente em Capricórnio pede-lhe que seja ambiciosa, que se comprometa com um objectivo e dê tudo de si para o alcançar. Que assuma o controlo das suas circunstâncias e concretize no mundo real os seus maiores talentos, sejam eles quais forem...

É possível que a sua óptima capacidade de adaptação tenha até agora jogado contra si, pois que se vai adaptando facilmente ao que a vida lhe traz e ao mesmo tempo acomodando àquilo que já conhece. Muita energia mutável e fixa neste mapa, mas só a energia cardinal permite traçar um rumo definido, saber o que se quer e partir à sua conquista. Nesse sentido, conta apenas com Vénus e com os nodos lunares, únicos elementos do mapa cuja cardinalidade pode facilmente canalizar para a sua vida. E com Plutão também num signo cardinal (Libra), e em trígono ao Nodo Ascendente em Capricórnio, os passos que der no sentido de desenvolver a sua auto-suficiência vão dar-lhe verdadeiro poder pessoal, o poder para comandar de facto o rumo da sua vida em vez de ficar perdida por muitos caminhos possíveis.

Porque não, a vida não é "só isto". A vida é tanto ou tão pouco quanto estejamos (in)conscientes que ela seja. A vida é tudo o que nos propunhamos fazer, cientes das nossas limitações e ainda assim empenhados em superar-nos a nós próprios. E nem importa a idade, ou as circunstâncias profissionais/ amorosas/ familiares/ financeiras/.... Qualquer dia é um excelente dia para mudar. Desenvolva o seu sentido de responsabildade para consigo própria, assuma a responsabilidade pela sua nutrição emocional, e muito em breve será capaz de traçar um rumo mais definido para a sua vida, se assim o desejar.

PS- Um exercício interessante para quem quer encontrar a sua vocação: Imagine que a partir de amanhã todas as suas necessidades financeiras estavam asseguradas sem que precisasse de um emprego. O que faria com esta nova disponibilidade total?... Ok, o que faria com esta nova disponibilidade total DEPOIS de tirar umas longas férias e fazer umas belíssimas viagens? É que o lazer também farta, não? ;-) 

Pense no que faria apenas pelo prazer de o fazer. E quando finalmente encontrar a resposta através da sua aguçada capacidade de auto-análise (astrologicamente comprovadíssima!), descubra quem esteja disposto a pagar por isso.

domingo, 13 de janeiro de 2013

Profissão convencional, talento original


Desde criança, me sinto impelido a criar coisas novas (sempre desenhei, criei músicas - ainda que sem nenhuma infra-estrutura e sempre auto didata) e no entanto, pela força do destino, atualmente sou servidor público, fiscalizando contratos do Governo - um trabalho que, se não me educo - me destrói. Se possível, gostaria de uma interpretação, ainda que breve, sobre isso.

Eduardo, BA


As questões sobre profissão & vocação são tão frequentes como interessantes. Na grande maioria dos casos encontro pessoas que trilharam até agora um caminho “convencional”, mas que por algum motivo parecem ter despertado para uma inquietação interior que as desafia a explorar os seus recursos escondidos - muitas vezes soterrados pelo peso das expectativas familiares e sociais. 

Um olhar superficial sobre estas questões pode considerá-las banais e indistintas umas das outras, pois que sempre estão envolvidos dilemas de segurança material (devo arriscar e mudar de vida ou manter-me no emprego estável?), de responsabilidade familiar (como vou sustentar a minha família?) e até de reputação (o que é que vão pensar de mim?). Porém cada pessoa é única, inigualável e irrepetível, e portanto cada crise vocacional tem na sua essência motivações e contornos muito específicos. Entender uma questão destas com um mínimo de profundidade requer por isso que se observe o mapa astrológico natal e se compreenda todo o potencial, aspirações e necessidades que nele estejam reflectidas.

Neste caso concreto, o mapa astrológico (omitido a pedido) mostra um ênfase nos signos de Aquário e Capricórnio. Há assim uma grande concentração de energias na área de participação social, através de uma carreira profissional sólida e bem reputada (Capricórnio) mas também da implementação de soluções inovadoras em contexto de cooperação com os outros, para benefício de todos (Aquário). 

Colocada a questão desta forma, não parece existir grande conflito. É certo que Capricórnio prefere trabalhar numa instituição bem organizada e com hierarquias muito definidas (e o funcionalismo público é mais do que apropriado para satisfazer as aspirações capricornianas). E que Aquário gosta de ambientes mais informais, recusa obedecer a autoridades obsoletas que já não sejam eficazes, revolta-se contra as injustiças do Sistema e propõe novas e melhores estruturas. Mas nem por isso estes signos são incompatíveis em termos de escolher uma só profissão, pois podem complementar-se muito bem em qualquer área que exija dedicação e perfeccionismo técnico (Capricórnio) além de inovação e espírito de equipa (Aquário).

Até aqui tudo certo. Não fosse essa necessidade de fazer música, esse escape criativo que o mantém a salvo da “destruição pelo trabalho” ;-) É curioso que fale na “força do destino”, porque de facto com Saturno-Urano em conjunção ao Meio do Céu é natural que sinta que o seu rumo profissional obedeça a um poder superior, que as circunstâncias o levam por um caminho que não pode deixar de percorrer. E aqui mais uma vez o apelo de Capricórnio e Aquário (os respectivos regentes) para que coloque todas as suas capacidades ao serviço do melhoramento da sociedade.

Mas a sua questão não vem do que está no seu mapa. Ela nasceu do que não está no mapa. Quando encontramos uma grande acumulação de planetas em certos signos, casas ou elementos, isso significa que outros signos, casas ou elementos não têm “voz”. E no entanto precisamos de integrar todo o Zodíaco nas nossas vidas para nos sentirmos completos. É por isso que muitas vezes encontramos pessoas absolutamente determinadas a desenvolver aquilo de que o seu mapa astrológico tem falta, pois que sem isso sentem-se sempre por preencher, por cumprir totalmente.

O seu caso demonstra bem isso. A presença de Sol, Lua e Mercúrio em Aquário na casa 11 cria um desequilíbrio em relação à casa 5. Para si é natural a sensação de pertença a algo maior, a identificação com a mentalidade do seu grupo de amigos, ou com as correntes de pensamento que acredita servirem o bem comum. Ainda que possa muitas vezes sentir-se “peixe fora d’água” quando está com outras pessoas (Serei demasiado “estranho” para ser aceite pelos meus colegas?), a sua integração social é fundamental para a construção da sua identidade. E no entanto essa concentração de energias na área do Colectivo deixa um “vazio” no que diz respeito à sua criatividade individual. 

Como pode alguém ser uma voz activa, participativa e útil à sociedade se ainda não descobriu todo o seu potencial criativo individual? Não podemos dar aos outros aquilo que ainda não desenvolvemos em nós. Daí que, ainda que você possa ser super-eficiente na sua vida profissional, há ainda uma grande parte de si que precisa encontrar uma forma de se expressar, e essa parte tem tudo a ver com talento criativo. O mapa mostra que você tem os recursos necessários para que isso aconteça: o Fogo da inspiração está presente na Vénus em conjunção ao Ascendente Áries e também no trígono Júpiter-Marte.

O seu processo criativo será certamente um caminho novo, pois você não tem vocação para seguir as pisadas de ninguém (o facto de ser auto-didacta mostra bem isso :-) Ainda que no momento actual a sua vida profissional possa parecer-lhe demasiado “certinha”, ouça aquela voz interior que o incita a criar algo único e inovador, algo que só você poderia criar pois que tem a sua marca individual e de mais ninguém. É que aquilo que você tem para dar ao mundo - seja música ou ilustração ou outra coisa qualquer - não é só um objectivo pessoal que o fará sentir-se mais realizado, mas também um meio de inspirar as outras pessoas a serem elas próprias mais autênticas. 

Existe ainda uma outra importante motivação para as suas actividades artísticas. O mapa astrológico mostra uma nítida falta do elemento Água, o que sugere que lidar com o mundo das emoções pode ser um dos seus maiores desafios. Expressar-se através da arte é uma forma de canalizar as suas emoções, e quem sabe de compreendê-las e aceitá-las tal como se apresentam, sem tentar analisar ou racionalizar. Partilhar a sua arte com outras pessoas será o passo seguinte (já o fez?), e terá sem dúvida uma importância enorme pois significará mostrar-se vulnerável nas suas emoções. Não se preocupe que é mesmo assim: todos somos humanos emotivos e vulneráveis, simplesmente alguns de nós disfarçam melhor que outros ;-)




Continue por isso a desenvolver os seus talentos, dando mais ouvidos à sua chama criativa do que à necessidade de ser aceite pelos outros. Não precisa de fazer do seu talento artístico uma profissão, nem precisa de continuar num emprego que não o realiza. Nada é definitivo, apenas temos certeza de que tudo está em permanente transformação. Sem pessoas conscientes do seu potencial individual não se constroem sociedades evoluídas. Só depende de você encontrar uma forma de desenvolver a sua criatividade sem sacrificar o seu profissionalismo ou a sua integração social. Garanto que vai valer a pena :-)