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segunda-feira, 3 de junho de 2013

Rotinas & Rituais

A maior parte dos nossos dias tem uma cadência previsível. Com muitas possíveis variações, essa cadência inclui sono e vigília, comer e tomar banho, trabalho e repouso. A rotina é alvo frequente de queixume geral - diz que abafa a criatividade, mina a espontaneidade, arrefece a paixão e até causa indigestão se ousamos experimentar algum pitéu mais arrojado. 

Mas se o ter rotinas é algo tão vulgar no comportamento humano, é porque elas são absolutamente necessárias. Em primeiro lugar, há algo de profundamente reconfortante em tudo o que é previsível e ritualístico. Por um lado, sabemos quando e como vai ocorrer aquele pedacinho do nosso dia (é previsível). Depois, estamos lá nós a assistir ao pedacinho, ou a fazer acontecê-lo. É uma espécie de ordem premeditada que nos torna produtivos e eficientes.

E não é por acaso. Qualquer organismo vivo se constroi sobre rotinas. A das reacções bioquímicas ao nível da célula, da multiplicação e morte das células, dos órgãos em perfeita sintonia de funções uns com os outros... Pois se até o batimento cardíaco obedece à rotina de um ritmo...! Em termos estritamente biológicos, a vida não é possível sem uma grande dose de previsibilidade - afinal, o que são as células cancerígenas senão entidades demasiado "espontâneas"...? 

Astrologicamente, a nossa relação com a rotina pode ser analisada a partir da casa VI do mapa astrológico. O signo onde começa esta casa e os planetas que aí estão mostram o grau de rigidez das nossas rotinas, de que modo nos organizamos e como funcionamos em organizações hierarquizadas (principalmente o local de trabalho). Com afinidade natural pelo signo de Virgem, a casa VI reflecte também o relacionamento que temos com a saúde, com o bom ritmo das rotinas do nosso organismo. E de uma forma mais abrangente indica como aperfeiçoamos a nossa capacidade de actuar com eficácia e utilidade no mundo real - ou seja, o nosso trabalho.

Foi Carl Jung quem há muito tempo argumento que o mundo da matéria (Terra) estaria naturalmente oposto ao mundo da intuição (Fogo) - ou pelo menos a nossa percepção humana assim os colocaria, em extremos opostos. A velha discussão entre rotina e criatividade é um bom exemplo deste aparente conflito. Afinal, qualquer pessoa sentirá que quanto mais sobrecarregada é a sua rotina, quanto mais se vê forçada a cumprir horários e tarefas, menos disponibilidade mental e emocional tem para expressar o seu lado criativo, intuitivo, espiritual. 

E assim passamos pesados dias a fio, como se o fardo das nossas responsabilidades quase nos enterrasse a cada passo que damos no fiel cumprimento das rotinas que atribuimos a nós mesmos. Alguns sentirão mais do que outros a falta de espaço/tempo para ser espontâneo, para não ter de seguir nenhum roteiro predefinido e obedecer apenas ao impulso do momento. Mas parece-me que, consciente ou inconscientemente, todos sentimos falta disso, nem que seja uma vez por dia.

É nessa altura que, desviando-nos do que quer que estávamos a fazer, acabamos por ir parar ao e-mail, ao Facebook ou ao YouTube, ou em frente à TV a ver uma ficção qualquer. A nossa sede de criatividade leva-nos a fugir de rotinas demasiado sobrecarregadas. Não que os nossos destinos de escape sejam fonte de esfusiante êxtase, antes pelo contrário. Adormecem, anestesiam, fazem com que a rotina se torne um pouco menos penosa, um pouco mais suportável. 

Nada de mal nisso. Mas porque não conciliar rotina e criatividade? Afinal, sem rotina não há como tornar real o impulso criativo, e sem criatividade a rotina torna-se estéril, auto-limitada. Olhando mais profundamente o signo de Virgem, encontramos o conceito de "ritual", e ritual não é apenas uma coisa que se faz repetidamente, previsivelmente. Não é mais uma rotina. Ritual é qualquer coisa de sagrado. São gestos simples que trazem a nossa consciência para o momento presente, resgatando-a de arrependimentos passados (ai que me esqueci de ir à lavandaria!) ou de preocupações futuras (ai que ainda tenho de passar no supermercado!). 

Enquanto vivemos apenas o momento presente, assistimos à presença de qualquer coisa transcendente no plano material. Escovar os dentes não é apenas escovar os dentes: é sentir a escova nas gengivas, o sabor do dentífrico nas papilas gustativas, a mão que segura a escova e os músculos do braço que se contraem para realizar os movimentos necessários à escovagem. Que milagre, existir tal coisa como papilas gustativas, e músculos, e gel dentífrico. E que eficiência todo este ritual demonstra em obter dentes mais limpos. Mais sãos. 

Se o Universo tende a gerar caos (interpretação criativa da 2ª Lei da Termodinâmica ;-), nada existe de banal no acto de criar ordem, muito pelo contrário. Rotina, saúde, organização, trabalho... são tudo expressões de um ritual muito especial, que é o de trazer ao plano material os inspirados impulsos que nos dá a nossa criatividade. Dar-lhes forma, estrutura, ordem. À nossa maneira (leia-se "escala") somos todos como pequenos deuses, intervindo em cada instante para aperfeiçoar aquilo que já existe ao mesmo tempo que criamos algo de novo. 

Experimente então transformar algumas das suas tarefas diárias em momentos solenes. Só por um instante, concentre-se apenas no que está a fazer. Ligue os seus cinco sentidos à finalidade da tarefa (este gesto de escovar os dentes vai tornar o meu corpo mais limpo, mais saudável). E no final, sinta-se grato por ter dedicado o seu esforço a um Universo mais ordenado. O Universo, certamente, agradece-lhe. 

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Jung e as Ovelhas Negras

"O maior fardo que uma criança tem de carregar é a vida não vivida dos seus pais".

Carl G. Jung, Psiquiatra e Psicoterapeuta Suiço (1875-1961)


Não sei se existirá alguma família que não tenha pelo menos uma ovelha negra. Em certas famílias, a ovelha negra estará talvez melhor camuflada do que noutras - afinal, o que vão as pessoas pensar....? E no entanto estes rebeldes (com ou sem causa) desempenham um papel essencial no desenvolvimento psicológico e espiritual da sua linhagem. Não são apenas desordeiros gerando o caos na sua família de Hoje, mas sim herdeiros de uma importante tarefa: a de prosseguir, no caminho dos seus antepassados, a busca pela integração plena.

E que é isso de integração plena? É o preenchermos as partes de nós que sentimos incompletas. Numa família, isso significa desenvolver os talentos, as competências, as características que foram sendo negligenciadas ao longo do tempo, às vezes durante muitas gerações.

Será ovelha negra o contabilista que nasce no seio de uma família de músicos, ou o jardineiro numa família de advogados. A expressão de uma vocação profissional é talvez a forma mais visível que uma ovelha negra tem de se manifestar. Mas há muito mais em jogo do que isso. 

Astrologicamente, observa-se com facilidade a transmissão de certos padrões astrológicos dentro da mesma família. Certos signos que se repetem, ou certos aspectos (sobretudo entre planetas pessoais e um dos mais lentos). Estes padrões mostram recursos preciosos para o desenvolvimento individual e familiar, permitem que cada pessoa construa algo de significativo durante a sua vida e que esse "algo" se torna numa parte importante do legado da sua família. Um elo precioso numa longa cadeia de elos, geração após geração.

Mas por mais "afortunado" que possa parecer um legado astrológico, há sempre uma sombra que aprendemos, com a nossa família, a ignorar. A família de músicos pode ter uma dificuldade tremenda em gerir os seus bens (dirão "mas que importa o dinheiro, se acima de tudo está a arte...?"); a família de advogados despreza todo e qualquer tipo de trabalho manual ("sujar as mãos, eu? nem pensar nisso!"). 


Música exige técnica, técnica exige dedicação, esforço e dextreza. E o despertar dos sentidos, claro. Tudo isto são dons de Terra, tal como o é a capacidade para lidar com questões materiais. Posses, objectos, dinheiro. Terra plenamente integrada é tudo isto, desde o belíssimo timbre de um Stradivarius ao barulhinho dos trocos que levamos no bolso. E depois de muitas gerações de músicos brilhantes de inspiração, eis que surge um contabilista nato. O que ele gosta mesmo é dos números, das contas, do dever e do haver. 

A família horroriza-se, ou talvez fique apenas decepcionada. Na melhor das hipóteses, encara este inédito talento como uma lufada de ar fresco. Um astrólogo traça o seu mapa et voilà, nada de extraordinariamente diferente do resto da família. Este poderia até ser o mais artístico dos filhos, o mais famoso dos netos. E no entanto algo nele o fez seguir o seu percurso astrológico de um modo inteiramente diferente dos seus familiares, desenvolvendo os seus talentos terrenos de forma inédita. 

O quê? Não sei, precisaria dar uma olhadela mais atenta ao mapa fictício deste contabilista imaginário. Mas, como defendia jung, é provável que nada tenha um efeito tão significativo no desenvolvimento de uma pessoa do que a vida não vivida dos seus pais. E nesta "vida não vivida" cabem muitas coisas. Desde logo os sonhos deixados para trás, por se terem revelado "irrealistas" ou "perigosos". Os relacionamentos não vividos, os talentos por explorar, tudo isto é esqueleto no armário dos nossos pais. Alguns esqueletos serão mais ao menos conscientes, talvez até olhados com uma certa nostalgia conformada (ah, o que eu queria mesmo ter sido era piloto/actor/político....). Outros esqueletos vivem sempre na obscuridade do Inconsciente. Reflectirão não tanto as vocações não seguidas mas as necessidades profundas que estão na origem de qualquer vocação. O desejo de ser amado, odiado ou invejado, de inspirar multidões, de viver saltitando entre continentes, de traçar novos caminhos em território inexplorado, ou teorias pioneiras que domestiquem o medo racionalizando o caos....

Algures no Tempo estas necessidades tornaram-se tabu. "Sim, que nesta família não se fala em tontices dessas, isso é para os parvos que perdem tempo acreditando que tais coisas são aceitáveis/possíveis/úteis, não é para nós". E o tabu vai criando raízes, geração após geração. Já ninguém o questiona. Nascem músicos, vivem músicos, morrem músicos. Até ao dia em que aquele que nasceu músico decide que afinal gosta mesmo mesmo é de contabilidade.



Ninguém escolhe ser ovelha negra só pra chatear, ou porque sim, ou porque faz-parte-da-juventude-o-ser-rebelde-e-isso-depois-acaba-por-passar-com-o-tempo. Todos temos o primordial dever de sermos autênticos. E acredito que só assim conseguiremos de facto, com a nossa vida inteira, honrar o legado dos nossos antepassados e dar um passo em frente no sentido da integração plena, do completo usufruto de todos os recursos e talentos intrínsecos à nossa linhagem. 

Talvez os espíritos dos que já partiram e dos que ainda nos hão-de suceder - onde quer que eles estejam - olhem com um misto de admiração e benevolência as bravas ovelhas negras que diariamente se recusam a ser só mais um entre a carneirada. Somos muito mais do que a mera soma das expectativas dos nossos antepassados, o balanço dos seus sucessos e fracassos. E continuamos a prová-lo! - mesmo que isso implique estudar Contabilidade ;-)

P.S. As profissões mencionadas neste post são apenas exemplos utilizados para efeito metafórico, não sugerem qualquer tipo de preconceito nem pretendem reflectir qualquer situação ou pessoa em concreto.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Astrologia do Coração Partido: Trânsitos de Saturno

A esfera dos relacionamentos é talvez o conjunto das experiências mais marcantes na vida de qualquer pessoa. E relacionamentos existem em todos os formatos e conteúdos: a família que não se escolhe, os amigos que se vai (des)fazendo pelo caminho, os amores platónicos e atómicos, possíveis e impossíveis, tépidos e escaldantes... Todo o tipo de emoções nasce e morre à medida que vamos encontrando e conectando com novas pessoas enquanto outras vão desaparecendo do nosso percurso de vida.

O estudo astrológico pode ser especialmente útil quando tentamos compreender os relacionamentos, sobretudo os de natureza romântica - por serem muitas vezes inesperados, por ocuparem tanto tempo do nosso foco mental e emocional, por povoarem o imaginário colectivo actual como condição essencial à felicidade de cada um de nós. Afinal, o que determina o nível de atracção entre duas pessoas? A sua compatibilidade intelectual, cultural...? A "química" inexplicável que as torna irresistivelmente inseparáveis...? Estes são temas complexos que merecem muitos muitos posts, mas desta vez analisemos o final de um relacionamento amoroso.

Toda a gente passa por diferentes fases na sua vida. Algumas fases serão consideradas "boas" (sucesso profissional, estabilidade familiar, boa energia física e mental,...), outras nem tanto. Porque são feitos de pessoas, os relacionamentos também passam por fases, mudam, evoluem. Mas se nem sempre estamos conscientes das alterações que sucedem dentro de nós próprios, muito menos conscientes estamos de como isso vai afectado os nossos relacionamentos. É que uma só pessoa já é suficientemente difícil de entender (mesmo para si própria), quanto mais duas pessoas + toda a bagagem emocional que transportam para dentro do seu relacionamento.

Em termos astrológicos, as grandes mudanças nos relacionamentos são muitas vezes assinaladas por trânsitos de Saturno, Urano, Neptuno e Plutão aos planetas pessoais natais de uma ou ambas as pessoas, sobretudo ao Sol, à Lua, a Vénus ou a Marte. Trânsitos aos ângulos (Ascendente/Descendente e MC/IC) podem também ter importantes consequências em qualquer relacionamento, pois produzem uma transformação significativa no modo como cada pessoa se relaciona com o mundo no geral.

Os trânsitos de Saturno forçam-nos a assumir responsabilidades por escolhas passadas, por compromissos assumidos perante nós mesmos e perante os outros. Saturno convida (com grande insistência :-) a que reconheçamos e aceitamos os nossos limites, não com um atitude de derrota perante as circunstâncias mas com um espírito de persistência e dedicação àquilo que são os nossos objectivos de vida. Quando os trânsitos de Saturno afectam um relacionamento, é posta em causa a nossa capacidade para nos comprometermos com o Outro, e somos questionados sobre as limitações associadas ao estar com o Outro. 

Muitas vezes a relação "passa" no teste saturnino e sentimos então a necessidade de formalizá-la, de torná-la mais sólida e estruturada aos nossos olhos e aos olhos da sociedade: é por isso que muitos trânsitos de Saturno (sobretudo a Vénus natal ou ao Descendente) estão associados à decisão ou ao acto de casar. Por outro lado, os relacionamentos que se tornaram estáticos e demasiado restritivos acabam por terminar durante um trânsito de Saturno: chega o momento em que somos forçados a admitir que aquela relação que durante algum tempo nos serviu de suporte já não pode mais apoiar o nosso pleno desenvolvimento individual.

Como em qualquer outro trânsito, acontece frequentemente que uma das pessoas não está consciente das forças interiores que apelam a uma mudança concreta, e quando assim é acaba por ser o Outro a agir. Como defendia Jung, aquilo de que não estamos conscientes em nós chega-nos do exterior como se fosse "destino". Por muito doloroso que seja admiti-lo, a separação é tão essencial a quem é "abandonado" como a quem "abandona", pois toda a relação funciona apenas enquanto AMBOS encontram aí uma fonte de desafios positivos para a sua aprendizagem individual. 

Os trânsitos de Saturno podem por isso trazer o final não desejado de uma relação, muitas vezes com um sentimento de grande solidão e a sensação de se não ter sido suficientemente "bom" para a pessoa que nos deixou. Este duro golpe na auto-estima demora tempo a ser ultrapassado - não fosse Saturno o deus do Tempo :-) - mas com um pouco de distanciamento e auto-análise aquilo que parecia uma catástrofe amorosa acaba por se revelar numa oportunidade preciosa para desenvolvermos um sentido de amor próprio mais auto-suficiente, que não depende tanto da validação de quem está ao nosso lado mais mais daquilo que de valioso reconhecemos em nós próprios.

E Urano, que efeitos terá num relacionamento amoroso?... Até ao próximo post!

domingo, 13 de maio de 2007

Eranos - O Banquete de Ideias


ERANOS é um grupo de discussão dedicado ao estudo da Espiritualidade, que se reúne anualmente na Suiça desde 1933. O nome deriva do termo Grego para “banquete”, no sentido de um jantar onde são os convidados, e não o anfitrião, quem fornece a refeição.



Eranos é uma festividade espiritual na qual os associados do evento oferecem algo de si próprios: um discurso, ou uma canção, uma taça de vinho, a mente aberta ao improviso de palavras que contribuam para o simpósio. Rudolf Otto – eminente historiador alemão das religiões - teria este conceito em mente quando o sugeriu a Olga Froebe-Kapteyn, fundadora da associação Távola Redonda, na sua herdade nas margens do Lago Maggiore, perto de Ascona, Suiça. Olga concebeu então uma jornada espiritual e cultural que deveria reunir especialistas de diferentes origens e orientações durante 8 dias, numa verdadeira vivência comunitária. Durante esse período, cada participante deveria contribuir para o verdadeiro “banquete de ideias” com uma palestra de 2 horas, sobre um assunto genérico acordado à partida. No seu ano de estreia, 1933, ERANOS foi subordinado ao tema “Ioga e Meditação no Oriente e no Ocidente. Nessa primeira conferência, C.G. Jung foi um dos especialistas convidados, contribuindo com uma palestra intitulada “A experiência do processo de Individuação”. Jung viria a participar mais de uma dezena de vezes, reconhecendo que Eranos representava a oportunidade para aclarar ideias e aprofundar, nas conversas, o seu próprio conhecimento.


"Eadem Mutata Resurgo: Embora mudado, ressurgirei o mesmo."


Lema de Eranos


Com 74 anos de existência, ERANOS continua a ser hoje um extraordinário encontro de mentes inquietas provenientes das mais variadas áreas: Mitologia, Zen-Budismo, Química, Biologia, Física, Literatura, Filosofia, Ciências Políticas, Misticismo, Neoplatonismo, Gnosticismo. Segundo Olga, aquele que participa em ERANOS deve ser alguém que “deambula por todas as suas visões interiores, e procura retê-las numa forma científica”. A combinação de um pensamento simultaneamente imaginativo-criativo e científico continua a ser a essência de ERANOS, o que talvez explique o contínuo interesse manifestado por pessoas consideradas particularmente inovadoras nas áreas de conhecimento em que se inserem.

Eranos localiza-se na antiga propriedade de Olga Froebe-Kapteyn,
junto a Ascona, nas margens do Lago Maggiore (Suiça)




Que papel para Eranos no mundo actual?

Desde a fundação de Eranos, cresceu muito o interesse geral pelo estudo dos problemas e soluções da mente, corpo e espírito. Basta olhar para os escaparates de qualquer livraria no Ocidente para perceber o quão populares se tornaram as questões espirituais e religiosas, não obstante o modo superficial como normalmente são abordadas. Apesar disso, a escala e diversidade dos problemas sociais parecem ter tendência para aumentar. Tornou-se muito comum a sensação de falta de significado da vida, aumentaram os conflitos intra- e inter-culturais, e é facto adquirido que o cidadão médio de qualquer país moderno poderá vir a sofrer de diversas dependências incluindo o alcoolismo, o vício do trauma, da tecnologia, do fanatismo, etc. Porque subsistem, e até aumentam, estes problemas, se vivemos um tempo em que o “aconselhamento espiritual” e a “cura do corpo, da mente e da alma” estão disponíveis em todas as livrarias? Várias respostas são possíveis. Os cínicos dirão que não há razão para esperarmos viver sem esses problemas. Afinal, sempre houve guerra ao longo da História, a violência e o sofrimento sempre existiram e foram vistos como “factos desagradáveis” para o comum habitante de uma cidade desenvolvida. Mas esta resposta não contempla as dificuldades particulares que a nossa cultura enfrenta na actualidade, e a necessidade de tentar compreender e remediar esses problemas, mesmo que no final eles se revelem de facto insolúveis.

Talvez seja preferível abordar a relação entre a cura individual e a cura social. Não é de todo linear que a cura individual, até de todos os membros da sociedade, conduza à cura dessa sociedade como um todo. Talvez o estudo da cura individual deva ser combinado com o estudo das culturas e das sociedades. Muitas áreas do conhecimento abordam os temas do indivíduo ou da sociedade, e as suas soluções, mas em Eranos pretende-se integrar ambos os temas de um modo pragmático.

Então se falta uma abordagem integrada do estudo da relação entre os problemas individuais/culturais e os problemas sociais, onde entra Eranos? Primeiro, Eranos pode consciente e sistematicamente dirigir-se ao problema de integrar a cura mente-corpo-alma na cura social e cultural. Segundo, a comunidade de Eranos pode proporcionar um ambiente único para a discussão e a compreensão dos assuntos que escolhe abordar. Ao colocar especialistas de variadas disciplinas num ambiente em que se sentem motivados a contactar uns com os outros, é mais provável que consigam atingir uma sinergia útil. Além disso, as redes desenvolvidas entre os participantes podem continuar a encorajar o aparecimento de soluções inter-disciplinares, mesmo depois do final de cada “banquete”. A concepção dos espaços sociais e residenciais de Eranos, que visa essencialmente promover a interacção social entre os participantes, torna-o num potencial centro de reconciliação, cuja reputação de imparcialidade e rigor intelectual permitirá reunir diferentes facções de um conflito numa oportunidade única de diálogo e partilha de informações.


Temas a explorar em próximos encontros, de acordo com directivas da Fundação Eranos:

- Fanatismo, nacionalismo, fundamentalismo e tensão inter-religiosa.

- Tecno-dependências

- O poder do Estado sobre a privacidade e a vontade do indivíduo

- O indivíduo nas sociedades urbanas

- Ecologia e o fim do petróleo a baixos custos



Temas das conferências Eranos


1933 – Yoga e Meditação no Oriente e no Ocidente.

1934 – Simbolismo Oriente-Ocidente e Busca Espiritual

1935 – Busca Espiritual no Ocidente-Oriente

1936/37 – Organização da ideia de Libertação no Oriente e no Ocidente I e II

1938 – Forma e Culto da Grande Mãe

1939 – Simbolismo da Ressurreição na concepção religiosa dos Povos e dos Tempos

1940/41 – Trindade, Simbolismo Cristão e Gnose

1942 – O Princípio Hermético na Mitologia, Gnose e Alquimia

1943 – Antigos cultos solares e o Simbolismo da Luz na Gnose e no início do Cristianismo

1944 – Os Mistérios

1945 – O Espírito

1946 – Espírito e Natureza

1947/48 – O Ser Humano I e II

1949 – O Ser Humano e o mundo místico

1950 – O Ser Humano e os rituais

1951 – O Ser Humano e o Tempo

1952 – O Ser Humano e a Energia

1953 – O Ser Humano e a Terra

1954 – O Ser Humano e a Transformação

1955 – O Ser Humano e a Compaixão

1956 – O Ser Humano e a Criatividade

1957 – O Ser Humano e o Significado

1958 – O Ser Humano e a Paz

1959 – A Renovação do Ser Humano

1960 – O Ser Humano e a Forma

1961 – O Ser Humano e o Conflito de Ordens

1962 – O Líder e a Liderança no Local de Trabalho

1963 – Sobre o Significado de Utopia

1964 – O Drama Humano no Mundo das Ideias

1965 – A Forma enquanto tarefa do Espírito

1966 – Criação e Forma

1967 – A Polaridade da Vida

1968 – A Tradição e o Presente

1969 – Significado e Transformação da Imagem da Humanidade

1970 – O Homem e o Verbo

1971 – As Etapas da Vida no processo criativo

1972 – O Reino das Cores

1973 – Correspondências no Ser Humano e no Mundo

1974 – Normas num Mundo em mudança

1975 – A variedade de Mundos

1976 – Unificação e Variedade

1977 – A Sensação de Imperfeição

1978 – O Tempo e as suas fronteiras

1979 – Pensamento e Imagem Mítica

1980 – Extremos e Fronteiras

1981 – Ascensão e Queda

1982 – Os jogos de Seres Humanos e Deuses

1983 – Corpos Matérias e Espirituais

1984 – A Beleza do Mundo

1985 – O curso oculto dos Acontecimentos

1986 – O reflexo do Ser Humano e do Cosmos

1987 – Encruzilhadas

1988 – Concordância ou Coincidência

1989 – (Não se realizou)

1990 – Ressurreição e Imortalidade

1991 – As Estruturas do Caos

1992 – Migrações

1993 – O Poder das Palavras

1994 – Começos

1995 – A Verdade dos Sonhos

1996 – A Culpa

1997 – Culturas de Eros

1998 – A Linguagem das Máscaras

1999 – A Ordenação do Tempo

2000 – Pioneiros, Poetas e Professores: Eranos e o Monte Verità na História da Civilização do Séc.XX

2001 – Profetas e Profecias

2003 - O Ser Humano em Guerra e em Paz com a Natureza

2004 – Religiões – a Experiência Religiosa

2005 – Deus ou Deuses?

2006 – A Cidade: eixo e centro do Mundo




sexta-feira, 13 de abril de 2007

Por falar em Jung - Sincronicidade !

Sincronicidade é a ocorrência simultânea de um certo estado psíquico com um ou mais eventos externos, que aparecem como paralelos significativos do estado subjectivo do momento.

Casual é a ocorrência estatística — isto é, provável — de acontecimentos como a "duplicação de casos", p. ex., conhecida nos hospitais. Grupos desta espécie podem ser constituídos de qualquer número de membros sem sair do âmbito da probabilidade e do racionalmente possível. Assim, pode ocorrer que alguém casualmente tenha a sua atenção despertada pelo número do bilhete do metro ou do trem. Chegando à casa, ele recebe um telefonema e a pessoa do outro lado da linha diz um número igual ao do bilhete. À noite ele compra um bilhete de entrada para o teatro, contendo esse mesmo número. Os três acontecimentos formam um grupo casual que, embora não seja frequente, contudo não excede os limites da probabilidade. […]

O exemplo que vos proponho é o de uma jovem paciente que se mostrava inacessível, psicologicamente falando, apesar das tentativas de parte a parte nesse sentido. A dificuldade residia no facto de ela pretender saber sempre melhor as coisas do que os outros. A sua excelente formação fornecia-lhe uma arma adequada para isto, a saber, um racionalismo cartesiano aguçadíssimo, acompanhado de uma concepção geometricamente impecável da realidade. Após algumas tentativas de atenuar o seu racionalismo com um pensamento mais humano, tive de me limitar à esperança de que algo inesperado e irracional acontecesse, algo que fosse capaz de despedaçar a retorta intelectual em que ela se encerrara. Assim, certo dia, estava eu sentado diante dela, de costas para a janela, a fim de escutar a sua torrente de eloquência. Na noite anterior ela havia tido um sonho impressionante no qual alguém lhe dava um escaravelho de ouro (uma jóia preciosa) de presente. Enquanto ela me contava o sonho, eu ouvi que alguma coisa batia de leve na janela, por trás de mim. Voltei-me e vi que se tratava de um insecto alado de certo tamanho, que chocou contra a vidraça, pelo lado de fora, evidentemente com a intenção de entrar no aposento escuro. Isto pareceu-me estranho. Abri imediatamente a janela e apanhei o animalzinho em pleno vôo, no ar. Era um escarabeídeo, da espécie da Cetonia aurata, o escaravelho rosa "chafer", cuja cor verde-dourada o torna muito semelhante a um escaravelho de ouro. Estendi-lhe o escaravelho, dizendo-lhe: "Está aqui o seu escaravelho". Este acontecimento abriu a brecha desejada no seu racionalismo, e com isto rompeu-se o gelo de sua resistência intelectual. O tratamento pôde então ser conduzido com êxito.

Esta história destina-se apenas a servir de paradigma para os casos inumeráveis de coincidência significativa observados não somente por mim mas por muitos outros, e registados parcialmente em grandes colecções. Eles incluem tudo o que figura sob os nomes de clarividência, telepatia, etc, desde a visão, significativamente atestada, do grande incêndio de Estocolmo, tida por Swedenborg, até os relatos mais recentes do marechal-do-ar Sir Victor Goddard a respeito do sonho de um oficial desconhecido, que previra o desastre subsequente do avião de Goddard. Todos os fenómenos a que me referi podem ser agrupados em três categorias:
1. Coincidência de um estado psíquico do observador com um acontecimento objectivo externo e simultâneo, que corresponde ao estado ou conteúdo psíquico (p. ex., o escaravelho), onde não há nenhuma evidência de uma conexão causal entre o estado psíquico e o acontecimento externo e onde, considerando-se a relativização psíquica do espaço e do tempo, acima constatada, tal conexão é simplesmente inconcebível.

2. Coincidência de um estado psíquico com um acontecimento exterior correspondente (mais ou menos simultâneo), que tem lugar fora do campo de percepção do observador, ou seja, especialmente distante, e só se pode verificar posteriormente (como p. ex. o incêndio de Estocolmo).

3. Coincidência de um estado psíquico com um acontecimento futuro, portanto, distante no tempo e ainda não presente, e que só pode ser verificado também posteriormente.
Nos casos dois e três, os acontecimentos coincidentes ainda não estão presentes no campo de percepção do observador, mas foram antecipados no tempo, na medida em que só podem ser verificados posteriormente. Por este motivo, digo que semelhantes acontecimentos são sincronísticos.

in A Sincronicidade, Carl Gustav Jung, 1951