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domingo, 16 de junho de 2013

Que Inferno é o seu?

Às vezes temos a certeza de que o Inferno existe mesmo. Não como um lugar mítico para onde se exilam as almas pesadas de tanto pecar, ou como algum conceito teológico utilizado como arma contra a falta de fé num Deus institucional. O Inferno existe em muitos infernos e inferninhos, aqui mesmo na Terra, e está abundantemente disperso por todo o lado.

A minha definição de Inferno seria a de uma experiência ou estado de espírito envolvendo grande sofrimento, e do qual aparentemente não somos capazes de sair. A parte do "sem fuga possível" é importante, pois se fosse fácil escapar não seria o Inferno, apenas uma  inconveniência temporária. Quanto ao conceito de "grande sofrimento", cada cabeça sua sentença. Ficar preso no trânsito é o inferno dos impacientes, ser rejeitado o inferno dos apaixonados, perder para a Morte alguém que se ama o inferno de todo o ser humano em alguns momentos da sua vida.

Outros infernos não são situações ou circunstâncias, mas antes emoções e pensamentos em circuito fechado que povoam muita da nossa atenção consciente. O não saber perdoar, não conseguir esquecer, não parar de enciumar, não vencer a inveja, não deixar o rancor. Estes são infernos muito pessoais, partilhados apenas com quem nos está mais próximo e cuja compreensão nos possa oferecer algum tipo de alívio, ainda que temporário. 

No fundo, até sabemos que a entrega às labaredas da auto-comiseração é voluntária. Mas sejamos francos: as emoções negativas podem ser tão viciantes como as positivas. E quando esse vício se torna verdadeiramente incontrolável, não resistimos a propagá-lo. Como sereias malévolas ou demónios da encruzilhada (escolha você a mitologia que prefere ;-), atraimos todos os que apanhamos no nosso raio de acção para connosco multiplicarem o inferno em que vivemos. Controlamos, manipulamos, torturamos psicologica e emocionalmente. Nascem assim os infernos a dois, a três ou a mais.

E quando os infernos interiores são tão intensos no sofrimento que provocam e na capacidade de contágio que têm, apoderam-se de lugares reais. Encontramo-los em casas de família e em locais de trabalho. Fogueiras colectivas onde a mente e o coração dos incautos é aprisionado - muitas vezes por inconsciência, mas sempre com o seu consentimento.


O mapa astrológico mostra-nos a natureza das nossas maiores aprendizagens e em que áreas da vida surgirão mais oportunidades de aprender. Às vezes essa slições serão agradáveis, até extasiantes. Mas noutras alturas só mesmo um inferno ou dois farão desenvolver em nós a força e a resiliência necessárias para dar um significativo salto em frente. Porque só encarando o Inferno poderemos discernir nas suas labaredas os ecos dos nossos conflitos interiores, e quem sabe (com um pouco de lucidez) encontrar a melhor forma de ultrapassar esses conflitos.  
Aprendizagens difíceis, mas necessárias. Primeira etapa: Reconhecer que o inferno em que estamos há-de servir para alguma coisa - encontrar um propósito. Segunda etapa: Perceber o que aquele inferno em particular nos diz sobre quem somos - discernir um fio condutor no meio do caos emocional. Terceira etapa: Decidir sobre a continuidade do inferno - seguir o fio condutor sem receio do que nos espera no final, ou permanecer impávido e impotente, agrilhoado por vontade própria.

Ah, quando conseguimos fugir de um inferno... Não há sensação comparável. É mais do que alívio, é libertação. Chega dessa aula interminável (e inflamável!), passemos a experiências novas, não importa se boas ou más! Dedicamos um pouco de compaixão pelos que ainda lá ficaram, pelos que ainda não descobriram que podem fugir, mas nada mais podemos fazer. Não nos compete definir, rotular ou julgar os infernos dos outros, muito menos ditar sentenças de quem deve salvar-se e quando. A cada um, o seu inferno, a sua aprendizagem, a sua responsabilidade por ficar ou partir.

"Se estiveres a passar pelo Inferno, continua a andar."
Sir Winston Churchill

terça-feira, 11 de junho de 2013

E hoje, já escutou os "muitos" que você é?

Quando fala de si mesm@ num contexto social, como se apresenta?

Normalmente somos apresentados a novas pessoas pelo nosso nome próprio e pela nossa profissão, mesmo quando não estamos em contexto profissional. Numa conversa mais alargada, podemos dizer que somos pais/mães, tenistas amadores ou membros da associação recreativa lá do bairro. Este tipo de informação faz parte não só do cartão de visita que mostramos ao mundo, mas também do rótulo que aplicamos a nós mesmos: um rótulo com informação diversificada, mas ainda assim um rótulo único, indivisível, minimamente coerente.

Na verdade, a coerência que nos esforçamos por ostentar não reflecte, nem de perto nem de longe, a realidade do que somos. Frases como "chamo-me Zé e prefiro preguiçar ao fim-de-semana em vez de ajudar com as compras da casa" não são aceitáveis como rótulo próprio nem causam boa impressão (mesmo em contexto de flirt pouco eficaz!). Mas nem por isso deixam de reflectir uma parte do que somos.

Nas palavras de Fernando Pessoa, "Eu sou Muitos". 

Se observarmos com alguma distância o nosso próprio comportamento, rapidamente chegamos à conclusão que esses "Muitos" se vão alternando ao longo do dia. Às 7h da manhã, sou quem adora preguiçar e se pudesse não trabalharia nem mais um dia...! Às 10h da manhã, sou profissional super-eficiente. À hora do almoço, sou expressiva e cativante num encontro de negócios. Ao final da tarde, sou eremita que anseia por regressar à "caverna". E assim por diante... 

Pelo meio, surgem outros "Muitos" aqui e ali. Sou a colega invejosa que detestou saber da promoção de outro. Sou a empregada submissa que não foi capaz de dizer não ao pedido absurdo do chefe. Sou a mulher insegura que liga para o escritório do marido quando este diz que vai trabalhar até mais tarde. E muitos outros "Muitos" que a maioria de nós prefere varrer para debaixo do tapete. (Imagine-se o ridículo a que estes "cartões de visita" nos exporiam...!)

E no entanto cada um de nós é mesmo Muitos, sem hipótese de a eles fugir. Como um espelho que estivesse partido em vários pedaços. Alguns fragmentos são maiores, ocupam o "lugar do condutor" do nosso ego durante mais tempo. Outros são mais pequenos, representam aqueles rasgos imprevisíveis que lá muito de vez em quando nos assaltam ("Chiça! Nem parecias tu!"). Mas a distinção mais importante será a que fazemos quanto ao reflexo que nos devolve cada fragmento: algumas partes do espelho são luminosas, mostram-nos como gostaríamos de ser o tempo todo; outras partes são escuras e sujas, nelas vemo-nos feios e esquisitos, preferíamos que não existissem. Então colamos os fragmentos de que mais gostamos (os maiores e mais luminosos), e tentamos esquecer que os restantes existem.
Astrologicamente, encontramos os diferentes "pedaços" de quem nascemos para ser representados nos planetas do nosso mapa de nascimento. Imagine que cada pedaço-planeta era uma pessoa, e que todas estas pessoas estão reunidas em permanência, algures dentro de si, para determinar os seus objectivos, as suas emoções, os seus recursos..., e como você se vai comportar em cada segundo que passa. 
O Sol é o moderador da reunião, a Lua a anfitriã, Mercúrio o estratega, Vénus a diplomata, Marte o lutador, Júpiter o empreendedor, Saturno o velho do restelo, Quíron o transgressor ferido, Urano o génio excêntrico, Neptuno o romântico sonhador e Plutão o poderoso obscuro. 
O signo em que cada planeta se encontra mostra como ele desempenha o seu papel: Mercúrio em Virgem é um estratega que se preocupa com os detalhes, Mercúrio em Sagitário será um estratega que olha em primeiro lugar para o significado maior do plano. E os aspectos entre os planetas (os ângulos entre as suas posições) reflectem a natureza da sua interacção. Marte pode ser um excelente braço-direito do Sol, ou um rufia que tenta impor-se na reunião desafiando a autoridade do moderador.

E assim a análise de uma mapa astrológico ganha vida, e assiste-se em cada pessoa a uma peça de teatro original, complexa, interminável. Começa-se a compreender os Muitos de que é feita aquela pessoa, como esses Muitos interagem entre si e de que forma seria possível tornar as suas reuniões mais harmoniosas, mais produtivas. Afinal, quem quer ter um planeta amuado dentro de si, conspirando e sabotando porque foi rejeitado e não sabe de que outro modo actuar para ser escutado e integrado...? 

Porque o espelho de quem somos buscará sempre o retorno à forma integral, completa. Para que isso aconteça, todos os pedaços devem ser incluídos - mesmo aqueles que à partida parecem "estragar" a nossa auto-imagem. Os Muitos que somos - e os planetas que os representam - anseiam por uma espécie de esquizofrenia democrática em que todos têm voz, todos oferecem algo ao debate, e o produto final reflecte o consenso da maioria sem abafar as legítimas necessidades de ninguém. 

Se somos Muitos, tenhamos a autenticidade de os sermos Todos.

Se faço estas análises de um modo lasso e casual, não é senão porque assim retrato mais o que sou. 
De uma análise propriamente profunda não só sou incapaz, mas sou também artista demais para a pensar em fazer; pensar em fazê-la seria pensar em dar de mim a ideia de que sou uma criatura disciplinada e coerente, quando o que sou é um analisador disperso e subtilmente desconcentrado. 
A minha arte é ser eu. Eu sou muitos. Mas, com o ser muitos, sou muitos em fluidez e imprecisão. 
Fernando Pessoa, in 'Reflexões Pessoais (1930)'

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Sonho de um Dia Perfeito

Já imaginou o seu dia perfeito? Se pudesse passar um dia eterno a fazer qualquer coisa, o que seria? Chegar ao topo do Everest? Vencer um Grande Prémio de Fórmula 1? Talvez algo mais simples, como nadar no mar ou desfrutar de um picnic com os amigos numa fantástica tarde de sol...

As hipóteses são muitas, tão individuais como cada pessoa é única, mas comum a todos os "dias perfeitos" seria a emoção de nos sentirmos VIVOS, realizados, profundamente felizes. 

Sou especial e os deuses sorriem-me no meu dia perfeito.
Tudo o que eu tenho de mais autêntico, vibrante e criativo é-me devolvido pelo mundo inteiro no meu dia perfeito. 

O Sol no Tarot
Universal Rider-Waite
Astrologicamente, a ideia de um "dia perfeito" surge associada à casa V, ao signo associado que é Leão e ao respectivo regente, o Sol. Podemos encontrar a nossa Criança Interior na casa V do mapa astrológico, no signo onde essa casa começa e nos planetas que aí possam estar. Para quem tenha filhos ou queira vir a ter, a casa V reflecte o que esse(s) filho(s) representam para nós, como os vemos e nos relacionamos com eles, e de que forma eles nos inspiram a expressar a nossa própria criatividade.

Quem conhece o Tarot sabe que o Arcano Maior do Sol é muitas vezes representado por uma ou duas crianças sorridentes, brincando num jardim resplandescente de luz. Esta é a imagem que sempre associo à casa V, pois esta é a casa da pura diversão, da alegria imensa que há para descobrir num perfeito dia de Sol. 

No dia perfeito que imaginámos, não somos exactamente nós, adultos responsáveis e cheios de coisas para fazer, que lá estão a divertir-se. É a nossa Criança Interior, a criança que um dia fomos e a Criança que sempre seremos. Aquela parte de nós que sabe que é especial, que sabe que é feita da mesma matéria de que são feitas as estrelas e os cometas. Aquela parte de nós que brilha com luz própria, que é inocência e pura alegria ao mesmo tempo. 

É esta parte de nós que se apaixona perdidamente, que é capaz de criar inspirada e inspiradoramente, que traz ao mundo um pouco da centelha divina para que o mundo se admire, e maravilhe, e se torne infinitamente melhor por isso. Esta é a parte de nós que vive o eterno dia perfeito. 

De que serve viver sem paixão? Olhando a casa V podemos (re)descobrir o que nos faz mesmo vibrar, e que incessantemente procuramos (mesmo sem nos darmos conta) nas outras pessoas, ou nas actividades profissionais, ou (frequentemente) nos filhos e sobrinhos em quem projectamos a nossa Criança Interior, e que esperamos que a vivam por nós - já que "ainda" são jovens e ingénuos, que nós já estamos "velhos para certas coisas..."

Criatividade é uma das palavras-chave da casa V, e muitas vezes a expressão mais fiel da nossa Criança Interior surge nos hobbies que nos mantêm ocupados durante horas a fio. Há hobbies muito comuns, outros que pouca gente entenderá (coleccionas latas? com essa idade?). Mas independentemente da sua natureza, os hobbies são como pedaços do nosso dia perfeito que tentamos encaixar num quotidiano mais ou menos desapaixonado. 

E que dizer da paixão à primeira vista (ou à segunda ou à vigésima), que nos tira o chão e nos leva às nuvens sem pedir licença...? Danem-se as convenções sociais, a responsabilidade e até a timidez, pois que se vai esgotar o ar respirável se aquele anjo na Terra por quem perdemos o juízo não nos der um vislumbre do dia perfeito com o seu sorriso....

Por mais que estejamos presos aos deveres da "adultice", todos merecemos viver em pleno a nossa Criança Interior. Deixá-la brincar em liberdade, levá-la a passear pelas coisas que a apaixonam, sentir a profunda alegria de ser imortal por um dia. Durante as horas em que voltamos à infância para brincar aos índios e caubóis com o nosso filho. Durante os minutos em que nos sentimos especiais por mostrarmos aos outros o quão especiais eles são. Durante os breves instantes em que uma ideia genial nos atinge como um raio, e o coração bate furiosamente depressa, mobilizando-nos para dar corpo e alma a uma tela vazia, a um piano silencioso ou a um velho móvel esquecido no sótão.

Sem o sonho de um dia perfeito, a realidade torna-se insuportável. Precisamos de paixão nas nossas vidas - ou pelo menos da promessa de paixão. Porque até a simples promessa, o vislumbre, o sonho, já contêm uma tonelada de paixão avassaladora, temperada com uns pozinhos de centelha divina e pronta a ser libertada no mundo ao mínimo sinal de que o dia será, de facto, perfeito. 

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Rotinas & Rituais

A maior parte dos nossos dias tem uma cadência previsível. Com muitas possíveis variações, essa cadência inclui sono e vigília, comer e tomar banho, trabalho e repouso. A rotina é alvo frequente de queixume geral - diz que abafa a criatividade, mina a espontaneidade, arrefece a paixão e até causa indigestão se ousamos experimentar algum pitéu mais arrojado. 

Mas se o ter rotinas é algo tão vulgar no comportamento humano, é porque elas são absolutamente necessárias. Em primeiro lugar, há algo de profundamente reconfortante em tudo o que é previsível e ritualístico. Por um lado, sabemos quando e como vai ocorrer aquele pedacinho do nosso dia (é previsível). Depois, estamos lá nós a assistir ao pedacinho, ou a fazer acontecê-lo. É uma espécie de ordem premeditada que nos torna produtivos e eficientes.

E não é por acaso. Qualquer organismo vivo se constroi sobre rotinas. A das reacções bioquímicas ao nível da célula, da multiplicação e morte das células, dos órgãos em perfeita sintonia de funções uns com os outros... Pois se até o batimento cardíaco obedece à rotina de um ritmo...! Em termos estritamente biológicos, a vida não é possível sem uma grande dose de previsibilidade - afinal, o que são as células cancerígenas senão entidades demasiado "espontâneas"...? 

Astrologicamente, a nossa relação com a rotina pode ser analisada a partir da casa VI do mapa astrológico. O signo onde começa esta casa e os planetas que aí estão mostram o grau de rigidez das nossas rotinas, de que modo nos organizamos e como funcionamos em organizações hierarquizadas (principalmente o local de trabalho). Com afinidade natural pelo signo de Virgem, a casa VI reflecte também o relacionamento que temos com a saúde, com o bom ritmo das rotinas do nosso organismo. E de uma forma mais abrangente indica como aperfeiçoamos a nossa capacidade de actuar com eficácia e utilidade no mundo real - ou seja, o nosso trabalho.

Foi Carl Jung quem há muito tempo argumento que o mundo da matéria (Terra) estaria naturalmente oposto ao mundo da intuição (Fogo) - ou pelo menos a nossa percepção humana assim os colocaria, em extremos opostos. A velha discussão entre rotina e criatividade é um bom exemplo deste aparente conflito. Afinal, qualquer pessoa sentirá que quanto mais sobrecarregada é a sua rotina, quanto mais se vê forçada a cumprir horários e tarefas, menos disponibilidade mental e emocional tem para expressar o seu lado criativo, intuitivo, espiritual. 

E assim passamos pesados dias a fio, como se o fardo das nossas responsabilidades quase nos enterrasse a cada passo que damos no fiel cumprimento das rotinas que atribuimos a nós mesmos. Alguns sentirão mais do que outros a falta de espaço/tempo para ser espontâneo, para não ter de seguir nenhum roteiro predefinido e obedecer apenas ao impulso do momento. Mas parece-me que, consciente ou inconscientemente, todos sentimos falta disso, nem que seja uma vez por dia.

É nessa altura que, desviando-nos do que quer que estávamos a fazer, acabamos por ir parar ao e-mail, ao Facebook ou ao YouTube, ou em frente à TV a ver uma ficção qualquer. A nossa sede de criatividade leva-nos a fugir de rotinas demasiado sobrecarregadas. Não que os nossos destinos de escape sejam fonte de esfusiante êxtase, antes pelo contrário. Adormecem, anestesiam, fazem com que a rotina se torne um pouco menos penosa, um pouco mais suportável. 

Nada de mal nisso. Mas porque não conciliar rotina e criatividade? Afinal, sem rotina não há como tornar real o impulso criativo, e sem criatividade a rotina torna-se estéril, auto-limitada. Olhando mais profundamente o signo de Virgem, encontramos o conceito de "ritual", e ritual não é apenas uma coisa que se faz repetidamente, previsivelmente. Não é mais uma rotina. Ritual é qualquer coisa de sagrado. São gestos simples que trazem a nossa consciência para o momento presente, resgatando-a de arrependimentos passados (ai que me esqueci de ir à lavandaria!) ou de preocupações futuras (ai que ainda tenho de passar no supermercado!). 

Enquanto vivemos apenas o momento presente, assistimos à presença de qualquer coisa transcendente no plano material. Escovar os dentes não é apenas escovar os dentes: é sentir a escova nas gengivas, o sabor do dentífrico nas papilas gustativas, a mão que segura a escova e os músculos do braço que se contraem para realizar os movimentos necessários à escovagem. Que milagre, existir tal coisa como papilas gustativas, e músculos, e gel dentífrico. E que eficiência todo este ritual demonstra em obter dentes mais limpos. Mais sãos. 

Se o Universo tende a gerar caos (interpretação criativa da 2ª Lei da Termodinâmica ;-), nada existe de banal no acto de criar ordem, muito pelo contrário. Rotina, saúde, organização, trabalho... são tudo expressões de um ritual muito especial, que é o de trazer ao plano material os inspirados impulsos que nos dá a nossa criatividade. Dar-lhes forma, estrutura, ordem. À nossa maneira (leia-se "escala") somos todos como pequenos deuses, intervindo em cada instante para aperfeiçoar aquilo que já existe ao mesmo tempo que criamos algo de novo. 

Experimente então transformar algumas das suas tarefas diárias em momentos solenes. Só por um instante, concentre-se apenas no que está a fazer. Ligue os seus cinco sentidos à finalidade da tarefa (este gesto de escovar os dentes vai tornar o meu corpo mais limpo, mais saudável). E no final, sinta-se grato por ter dedicado o seu esforço a um Universo mais ordenado. O Universo, certamente, agradece-lhe. 

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Entre 8 Paredes: da Privacidade à Intimidade

Há algum tempo assisti a um programa de TV onde se discutia se e quando deve um casal começar a partilhar os seus momentos de... expulsão de gases intestinais (chamemos-lhe assim). Entre muitas e variadas opiniões, algumas pessoas defendiam a inviolabilidade do espaço nasal e auditivo do parceiro, afirmando ser uma questão fundamental de respeito mútuo a não emissão de substâncias gasosas de origem digestiva, com ou sem ruído associado.

Freud teria por certo interessantes bitaites e soundbytes a adicionar a esta questão, que   tem muito mais significado implícito do que meros ditames de boa educação ou regras de etiqueta conjugal. A mim, fez-me reflectir sobre os conceitos de privacidade e intimidade na esfera dos relacionamentos afectivos. 

No mapa astrológico, a casa VIII mostra o tipo de experiência vivemos quando contactamos intimamente com outra pessoa. O que é isso de "contacto íntimo"? É sexo, claro. Mas também o contacto entre vulnerabilidades, traumas passados, tabus. Neste verdadeiro "quarto de cama" astrológico, deitamo-nos com os esqueletos que costumam estar bem escondidos no armário, com toda a privacidade. E se deixámos alguém entrar? Acabamos por partilhar a cama com essa pessoa, mais os seus esqueletos.

E o inevitável acontece. Descobrem que temos rugas ou celulite, roupa interior desinteressante ou pijamas largos demais, que ressonamos, que nunca repomos o rolo de papel higiénico e que deixamos as peúgas sujas espalhadas pelo chão. Ah, e que temos gases mal-cheirosos.

Tudo isto faz parte do que se chama, sucintamente, a "rotina" do casal. Mas de início nada tem de rotineiro! Queremos agradar, queremos ser a melhor versão de nós mesmos. Que fazer então com todo o conteúdo da casa VIII? Foi lá que guardámos as humilhações da infância, a curiosidade sexual proibida na adolescência, tudo o que sempre nos recriminaram e proibiram, nos fizeram crer que era mau, sujo, imoral. Não deixes tudo desarrumado, não sejas gord@, não sejas porc@, não sejas indecente. E de repente está outra pessoa à porta do nosso quarto, espreitando para dentro, e que fazemos nós? Disfarçamos enquanto for humanamente possível, claro! ;-)

Mas não há intimidade sem partilha integral, verdadeira. E partilhar é, antes de mais, mostrarmo-nos vulneráveis. Aqui me tens, sou assim por dentro. Às vezes um espetáculo tristonho, patético, feio e incorrecto. Outras vezes, nem tanto. Ainda me queres? Ainda me achas dign@ de amor?

Claro que sim! A magia da intimidade é encontrarmos na outra pessoa tudo o que de tristonho, patético, feio e incorrecto tentamos esconder em nós. E por isso não posso evitar olhar com desconfiança para essas teorias que defendem uma "heróica contenção anal" para bem do relacionamento. Sem sangue, suor e lágrimas, vísceras e tudo, de que serve um relacionamento? Que desafios coloca? Que parte profunda de nós comove e transforma?

Desse estimulante tema televisionado, prefiro guardar o exemplo de um casal que celebra toda a demonstração de flatulência com um jocoso comentário humorístico. Estilo "Chiça, que até os sismógrafos em Pequim registaram esse abalo!" É sempre terapêutico usar de um pouco de Ar (leia-se, sentido de humor) para relativizar a importância às vezes exagerada de questões de Água (leia-se, emocionalmente densas). O riso partilhado pode fazer tanto ou mais pela intimidade do casal do que uma tórrida noite de amor. E ajuda a "quebrar o gelo" quando, deitados na cama com os nossos medos, convidamos a entrar o hesitante amante que espreita da porta dizendo-lhe "Queres ser meu cúmplice? Há sempre espaço para mais alguns esqueletos."

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Irmãos (Gémeos ou de qualquer outro signo)

Quando pensamos nas influências decisivas dos nossos anos de crescimento, e o modo como essas influências moldaram os adultos que somos, muitos de nós concentram as suas atenções na relação que tiveram/têm com os seus pais. A relação entre pais e filhos ganhou tal relevo na Psicologia e saberes afins que acabou por chegar à cultura popular actual, onde referências como "mommy issues" ou "daddy issues" servem de metáfora irónica para homens demasiado nostálgicos da comida da mamã ou mulheres em permanente (leia-se "insaciável") busca por um amante mais velho que as controle/proteja.

Mas há outra relação fundamental na nossa "educação para ser humano": o elo que se estabelece entre irmãos. Esta é, provavelmente, a relação mais duradoura que alguma vez teremos, pois começa por volta com o nosso nascimento (ou alguns anos depois) e termina quando morremos (ou alguns anos antes).

De todos os filhos únicos que já conheci, não me recordo de nenhum que não fale, duma forma ou doutra, na solidão que é viver sem irmãos. Nos primeiros anos de vida, é o idílio: centrar as atenções de papá e mamã, não ter de dividir quarto nem brinquedos nem mimos com ninguém. Até que é chegado o momento de dar um passo para fora da esfera eu-no-ninho-do-papá-e-da-mamã. E é nessa altura que damos de caras (ou não) com alguém parecido connosco: um pouco mais velho ou mais novo, a mesma propensão para a brincadeira e para a birra reivindicativa de tudo o que possa ser conquistado dentro do espaço físico e afectivo da família - desde atenção exclusiva a guloseimas.

Astrologicamente, a etapa de explorar intelectualmente o que está para além das fronteiras do ninho está relacionada com o signo de Gémeos (!) e com o planeta que o rege, Mercúrio. Ambos, signo e planeta, simbolizam a experiência de ter irmãos, quer no sentido restrito do termo (irmãos de sangue e/ou de criação), quer no sentido mais vasto - irmãos de idade, de geração, colegas e pares. 

E Gémeos é o primeiro signo de Ar na roda do Zodíaco. Se Ar é conectar, comunicar e relacionar, então o signo dos irmãos é aquele em que encontramos a nossa primeira parceria com alguém que é como nós. O nosso primeiro relacionamento egalitário, chamemos-lhe assim (com os nossos pais nunca nos chegamos a relacionar "de igual para igual", nem mesmo depois na idade adulta).

Talvez por isso a convivência com irmãos desde que se nasce (ou quase) seja uma experiência que não tem comparação com nenhuma outra. Parece que nascemos já programados para amar pai e mãe, mas com os irmãos o amor é um elo que se constroi todos os dias. À custa de rivalidade e de cooperação, de secretismo mas também de grande cumplicidade. E não raras vezes há irmãos que se unem, reivindicando privilégios como se fossem direitos.

Disputas ou alianças fraternais à parte, é com os irmãos que começamos a ter uma visão multifacetada do mundo. Eles instigam-nos a abrir a mente a coisas diferentes, opiniões diferentes. Desafiam-nos a sair do ninho. A aprender a comunicar (de que outra forma poderíamos gritar "Larga esse brinquedo, é MEU?!?!"...?), a lidar com as nossas inseguranças, a testar os nossos limites (de paciência e não só). 

Voltando à Astrologia dos Irmãos, podemos encontrar insights sobre o assunto olhando para a posição de Mercúrio no mapa astrológico, para o signo da casa III e qualquer planeta que aí se encontre. Planetas na casa III mostram frequentemente a forma como vivemos a experiência de ter (ou não ter) irmãos, o que isso representa na nossa vida, e que aspectos da nossa personalidade temos tendência a viver através do(s) nosso(s) irmão(s).  

Um irmão é como um reflexo num espelho que nos devolvesse uma imagem diferente daquela que sabemos que é a nossa. Olhamos e... quem é aquele estranho do lado de lá? Queremos conhecê-lo. Observamos como se mexe, como fala, como se comporta. Às vezes idolatramo-lo, queremos ser como ele. Outras vezes estranhamo-lo, tem defeitos e manias que não entendemos nem reconhecemos em nós. E no entanto estamos ligados a este reflexo para toda a vida.

Porque se mãe há só uma, irmãos podem ser muitos (felizmente), e não precisam ser todos geneticamente aparentados. Na essência do relacionamento fraternal está o respeito mútuo pela diferença de cada um, o desejo genuíno de aceitar o outro como ele é, e a certeza inabalável de que ele estará lá para mim, venha o que vier. Isso sim, é um irmão.


P.S. Este post é dedicado à minha irmã, ilustremente representada no meu mapa astrológico por 3 (!) planetas na casa III: Marte que me instiga a lutar pelo que eu quero, Saturno a relembrar-me dos meus limites e responsabilidades, e Júpiter retrógrado incentivando-me a confiar na minha sabedoria interior sempre que parto à descoberta de novos e melhores horizontes.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Na Saúde e na Doença

Todos nós nos preocupamos com a saúde, e com a falta dela. Se é certo que são sobretudo os momentos de crise que nos levam a procurar respostas para além da realidade quotidiano, a doença crónica, prolongada e mais ou menos fatal está entre os maiores catalisadores de crise existencial que o ser humano é forçado a conhecer.

Mas afinal porque tem que sofrer o nosso corpo físico? 

A medicina, a neuroquímica e tantos outros derivados científicos procuram descobrir de como acontece a doença, a dor. Quanto ao porquê, isso já é matéria para religiões e correntes filosóficas tentarem responder. Dizem que sofremos para nos purificarmos, para pagarmos por erros passados. Ou sofremos porque estamos em desequilíbrio interno, compete-nos aprender a reencontrar o equilíbrio.

Em Astrologia, os planetas e os signos representam princípios universais. Quando pensamos em Saturno, não estamos a falar apenas dum planeta. Estamos a falar de coisas que parecem tão diversas como o chumbo, o deus Cronos, o sentido do dever, a noção de limites ou aqueles representam a autoridade e a ordem. Saturno é o nome do princípio que é comum a todas estas coisas, que as une em significado porque existe na essência de todas e de cada uma. 

No corpo humano, encontramos Saturno na pele e no esqueleto, por exemplo. Na pele, porque é o limite visível do nosso organismo, aquilo que separa o Eu físico do mundo exterior. No esqueleto, porque é a nossa estrutura essencial, a matéria rígida que nos dá forma  e organização interna. Saturno é, de certa forma, onde começa e onde termina o nosso corpo físico. 

Do mesmo modo, todos os outros planetas têm correlações com partes do corpo, com órgãos ou sistemas. E tradicionalmente os signos regemm diferentes "secções verticais" do organismo, desde Áries/Carneiro na cabeça até Peixes nos pés. 

Utilizando uma perspectiva astrológica sobre o corpo humano, é possível tentar encontrar no mapa astrológico algum tipo de insight para as doenças que nos vão assaltando ao longo da vida. Se qualquer desequilíbrio emocional que não é reconhecido como tal acaba por se manifestar fisicamente, então podemos encontrar nos nossos sintomas físicos indicações preciosas sobre o modo disfuncional como estamos a expressar certas partes da nossa identidade essencial. 

Será a pessoa com problemas auto-imunes pouco assertiva ou demasiado dominadora nas suas relações com o mundo? 

E os asmáticos, terão dificuldade em comunicar aquilo que realmente pensam e sentem?

Como em tudo o que é Astrologia, não vale a pena colocar a questão em termos de causa-efeito. Não é um ou outro planeta que nos põe doentes. Simplesmente os nossos processos internos são feitos de permanentes adaptações, transições, evoluções. Algumas trazem-nos bem-estar, catalogamo-as de "sorte" ou até "felicidade". Outras causam-nos sofrimento, chamamos-lhe "desgosto" - ou "doença", quando o mal-estar é físico. 

Meditar sobre o esboço destes processos internos que encontramos no mapa astrológico não é nenhuma cura milagrosa. Mas ajuda-nos a dar mais um passo no sentido de nos percebermos um bocadinho melhor, e de encontrarmos a nossa própria resposta ao "Porque é que isto me aconteceu a MIM!?!?" - sem intermediários nem respostas pré-definidas à partida. 

E isso, qual aspirina emocional, faz toda a diferença.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Jung e as Ovelhas Negras

"O maior fardo que uma criança tem de carregar é a vida não vivida dos seus pais".

Carl G. Jung, Psiquiatra e Psicoterapeuta Suiço (1875-1961)


Não sei se existirá alguma família que não tenha pelo menos uma ovelha negra. Em certas famílias, a ovelha negra estará talvez melhor camuflada do que noutras - afinal, o que vão as pessoas pensar....? E no entanto estes rebeldes (com ou sem causa) desempenham um papel essencial no desenvolvimento psicológico e espiritual da sua linhagem. Não são apenas desordeiros gerando o caos na sua família de Hoje, mas sim herdeiros de uma importante tarefa: a de prosseguir, no caminho dos seus antepassados, a busca pela integração plena.

E que é isso de integração plena? É o preenchermos as partes de nós que sentimos incompletas. Numa família, isso significa desenvolver os talentos, as competências, as características que foram sendo negligenciadas ao longo do tempo, às vezes durante muitas gerações.

Será ovelha negra o contabilista que nasce no seio de uma família de músicos, ou o jardineiro numa família de advogados. A expressão de uma vocação profissional é talvez a forma mais visível que uma ovelha negra tem de se manifestar. Mas há muito mais em jogo do que isso. 

Astrologicamente, observa-se com facilidade a transmissão de certos padrões astrológicos dentro da mesma família. Certos signos que se repetem, ou certos aspectos (sobretudo entre planetas pessoais e um dos mais lentos). Estes padrões mostram recursos preciosos para o desenvolvimento individual e familiar, permitem que cada pessoa construa algo de significativo durante a sua vida e que esse "algo" se torna numa parte importante do legado da sua família. Um elo precioso numa longa cadeia de elos, geração após geração.

Mas por mais "afortunado" que possa parecer um legado astrológico, há sempre uma sombra que aprendemos, com a nossa família, a ignorar. A família de músicos pode ter uma dificuldade tremenda em gerir os seus bens (dirão "mas que importa o dinheiro, se acima de tudo está a arte...?"); a família de advogados despreza todo e qualquer tipo de trabalho manual ("sujar as mãos, eu? nem pensar nisso!"). 


Música exige técnica, técnica exige dedicação, esforço e dextreza. E o despertar dos sentidos, claro. Tudo isto são dons de Terra, tal como o é a capacidade para lidar com questões materiais. Posses, objectos, dinheiro. Terra plenamente integrada é tudo isto, desde o belíssimo timbre de um Stradivarius ao barulhinho dos trocos que levamos no bolso. E depois de muitas gerações de músicos brilhantes de inspiração, eis que surge um contabilista nato. O que ele gosta mesmo é dos números, das contas, do dever e do haver. 

A família horroriza-se, ou talvez fique apenas decepcionada. Na melhor das hipóteses, encara este inédito talento como uma lufada de ar fresco. Um astrólogo traça o seu mapa et voilà, nada de extraordinariamente diferente do resto da família. Este poderia até ser o mais artístico dos filhos, o mais famoso dos netos. E no entanto algo nele o fez seguir o seu percurso astrológico de um modo inteiramente diferente dos seus familiares, desenvolvendo os seus talentos terrenos de forma inédita. 

O quê? Não sei, precisaria dar uma olhadela mais atenta ao mapa fictício deste contabilista imaginário. Mas, como defendia jung, é provável que nada tenha um efeito tão significativo no desenvolvimento de uma pessoa do que a vida não vivida dos seus pais. E nesta "vida não vivida" cabem muitas coisas. Desde logo os sonhos deixados para trás, por se terem revelado "irrealistas" ou "perigosos". Os relacionamentos não vividos, os talentos por explorar, tudo isto é esqueleto no armário dos nossos pais. Alguns esqueletos serão mais ao menos conscientes, talvez até olhados com uma certa nostalgia conformada (ah, o que eu queria mesmo ter sido era piloto/actor/político....). Outros esqueletos vivem sempre na obscuridade do Inconsciente. Reflectirão não tanto as vocações não seguidas mas as necessidades profundas que estão na origem de qualquer vocação. O desejo de ser amado, odiado ou invejado, de inspirar multidões, de viver saltitando entre continentes, de traçar novos caminhos em território inexplorado, ou teorias pioneiras que domestiquem o medo racionalizando o caos....

Algures no Tempo estas necessidades tornaram-se tabu. "Sim, que nesta família não se fala em tontices dessas, isso é para os parvos que perdem tempo acreditando que tais coisas são aceitáveis/possíveis/úteis, não é para nós". E o tabu vai criando raízes, geração após geração. Já ninguém o questiona. Nascem músicos, vivem músicos, morrem músicos. Até ao dia em que aquele que nasceu músico decide que afinal gosta mesmo mesmo é de contabilidade.



Ninguém escolhe ser ovelha negra só pra chatear, ou porque sim, ou porque faz-parte-da-juventude-o-ser-rebelde-e-isso-depois-acaba-por-passar-com-o-tempo. Todos temos o primordial dever de sermos autênticos. E acredito que só assim conseguiremos de facto, com a nossa vida inteira, honrar o legado dos nossos antepassados e dar um passo em frente no sentido da integração plena, do completo usufruto de todos os recursos e talentos intrínsecos à nossa linhagem. 

Talvez os espíritos dos que já partiram e dos que ainda nos hão-de suceder - onde quer que eles estejam - olhem com um misto de admiração e benevolência as bravas ovelhas negras que diariamente se recusam a ser só mais um entre a carneirada. Somos muito mais do que a mera soma das expectativas dos nossos antepassados, o balanço dos seus sucessos e fracassos. E continuamos a prová-lo! - mesmo que isso implique estudar Contabilidade ;-)

P.S. As profissões mencionadas neste post são apenas exemplos utilizados para efeito metafórico, não sugerem qualquer tipo de preconceito nem pretendem reflectir qualquer situação ou pessoa em concreto.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Astrologia do Coração Partido: Trânsitos de Júpiter

Os mais atentos a questões astrológicas perguntar-se-ão como pode Júpiter partir corações. Afinal, este é o planeta das oportunidades, grandes e pequenas, do impulso para ir mais além, expandido conhecimentos e crenças, abrindo a mente a horizontes mais vastos e despertando-a para a espiritualidade. 

Muitos relacionamentos vivem numa falsa auto-suficiência, como se nada exterior ao relacionamento fosse necessário (eu vivo pra ti, tu vives pra mim). As pessoas acomodam-se ao que lhes é familiar, rotineiro, e assim se dizem "satisfeitas". Mas quando um trânsito de Júpiter afecta um relacionamento, é bem provável que surjam então boas oportunidades. E para aproveitá-las é preciso movimento, acção, se não de corpo pelo menos de mentalidade.  Pode acontecer que uma das pessoas esteja atenta a essas oportunidades, ou disponível para segui-las onde quer que possam levar... Como Alice, seguindo o Coelho Branco até ao País das Maravilhas. Mas nem todos os parceiros se querem dar a tal trabalho, e armam-se em Velhos do Restelo (ou em Saturnos, dependendo da mitologia ;-) apontando um dedo acusador às dádivas que Júpiter traz como se de castelos de areia se tratassem. Bem, nunca saberá onde o caminho do Coelho Branco termina se não estiveres disposto a segui-lo, diria Alice.

Nesse sentido, os trânsitos de Jupiter podem trazer grandes mudanças a um relacionamento. Quando uma das pessoas está pronta para novos desafios, Jupiter sinaliza a sua chegada: um nova situação profissional, uma viagem estimulante, uma oportunidade de formação, ou até novos contactos e novos amigos. Claro que nada nos cai no colo sem um mínimo de esforço (diz-me o meu Saturnozinho), ou pelo menos sem que estejamos minimamente atentos ao que se passa à nossa volta. Algumas pessoas estarão mais naturalmente predispostas para entender e seguir as dicas de sorte que Júpiter vai deixando no nosso caminho, outras nem tanto. Mas em teoria qualquer mortal pode (e deve) abrir-se a novas experiências.

Ora por vezes o relacionamento reage mal a tanta "sorte". A pessoa "bafejada pela fortuna" pode sentir que a outra a limita, que não entende os seus sonhos, que não apoia os seus projectos. E para quem assiste ao trânsito de Júpiter do lado de fora, tudo aquilo pode despertar as suas próprias inseguranças e sensação de limitação: "Ele tem tanto potencial, tantas coisas boas a acontecer, e eu nunca saio da cepa-torta..." Muita frustração pode acumular-se de parte a parte, minando lentamente o relacionamento que pode até terminar no momento em que ambos constatarem que acabaram por seguir caminhos completamente diferentes: afinal, o País das Maravilhas está tão distante do parque infantil lá do bairro...


Quando há verdadeira comunicação dentro da relação, os trânsitos de Júpiter podem trazer óptimas notícias para ambos. Necessário é que um saiba estimular o crescimento do outro, sem cobrar e sem invejar, ciente de que todos temos períodos de expansão e períodos de limitação, das nossas capacidades e dos nossos recursos. Júpiter, o grande benéfico, consegue sempre surpreender-nos com novas perspectivas para o nosso desenvolvimento pessoal e para a prosperidade dos nossos relacionamentos: se nisso vemos oportunidades de ouro ou desaires de chumbo, depende apenas de nós.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Astrologia do Coração Partido: Trânsitos de Neptuno

Os trânsitos de Neptuno são, por definição... confusos. Qualquer que seja o planeta natal ou a casa astrológica "afectados", Neptuno traz uma grande indefinição até mesmo ao mais resoluto dos mortais. 

Na esfera dos relacionamentos, Neptuno pode ser responsável por etapas de grande inspiração: ... e de repente vemos noutra pessoa a nossa Alma Gémea! Pode ser alguém com quem nos relacionamos há muito tempo, ou pode ser um desconhecido com quem trocámos olhares no autocarro. O que acontece é que o contacto de Neptuno com um dos nossos planetas pessoais vem trazer à nossa humilde condição humana um pouco do amor divino, aquele sentimento sobrenatural de total imersão no Amor Absoluto do Cosmos. Este é o êxtase que tantos religiosos procuram em longas horas de meditação, em laboriosos períodos de jejum e penitência. E no entanto aqui está ele, perfeitamente focalizado noutro ser humano, como se esse outro ser humano fosse capaz de nos conduzir à salvação da alma (ou à condenação eterna).

Por mais irresistível que pareça a promessa romântica de muitos trânsitos de Neptuno, cedo ou tarde ela se revela impossível. Não porque a outra pessoa seja comprometida, ou porque vá em breve partir definitivamente para longe, por exemplo. Podem ser estas as circunstâncias, mas os motivos do impossível neptuniano são mais profundos. É que o êxtase da comunhão espiritual não cabe num relacionamento a dois. Não por muito tempo, pelo menos. Confundir amor divino com amor humano é o drama de todo o romântico incurável, um drama que artistas de todas as épocas bem souberam retratar nas suas obras. Romeu e Julieta, Tristão e Isolda. Amores demasiado grandes para serem vividos por meros mortais. Que teria acontecido a estes famosos pares românticos se não fosse a Morte? O tédio? Talvez não. Mas a magia do amor romântico, o amor das ilusões, não é compatível com a rotina diária, com o confronto de egos, desejos e necessidades que está sempre presente numa relação, por mais harmoniosa que seja. 

Nesse sentido, e voltando a Neptuno, os seus trânsitos vêm muitas vezes trazer ilusão e desilusão. A miragem do amor perfeito que depois se esfuma, mais cedo ou mais tarde, por conta de um qualquer motivo racionalmente plausível mas emocionalmente devastador. Algumas pessoas tentarão (re)encontrar uma e outra vez a mesma sensação de união a algo maior. Talvez no sexo, nas drogas, ou noutra qualquer forma de escape. Porque Neptuno é isso, é querer que a nossa pele se dissolva para nos tornarmos um só com tudo o resto, escapando à nossa condição humana de inevitável solidão. 

Noutros casos, os trânsitos de Neptuno mergulham-nos em situações dúbias, difíceis de entender, em que algo inevitavelmente nos escapa - ainda que não saibamos explicar o quê. Ou somos nós que nos colocamos no papel de ilusionista, dissimulando a verdade para servir propósitos menos honrosos. Mas como diz o velho ditado (?):

Podes enganar algumas pessoas o tempo toda, e todas as pessoas durante algum tempo, mas não podes enganar todas as pessoas o tempo todo.

Olhando Neptuno de uma forma mais construtiva, os seus trânsitos podem servir para honrar um ideal maior que nós, e assim tornamo-nos capazes de co-criar melhores relacionamentos. Quem foi que disse que duas pessoas que se amam não devem olhar uma para a outra, mas olhar na mesma direcção? Talvez Neptuno possa ajudar a apontar essa direcção, estimulando a imaginação e a vontade de dar corpo e voz a uma causa maior. Porque não envolverem-se nessa causa maior, a dois? Arte, filantropia, assistência humanitária... Não ficará mais rica a vossa relação se dela forem capazes de extrair algo mais do que apenas o vosso bem-estar? 


Porque não dar amor ao mundo, tal como dão um ao outro? Pois que essa é talvez uma das maiores lições de Neptuno: Amor é Amor, e não vale a pena centrá-lo apenas numa outra pessoa - e dar-lhe o pomposo título de "Alma Gémea" - pois que o verdadeiro Amor está em todos e em toda a parte. Basta saber olhar.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Astrologia do Coração Partido: Trânsitos de Urano

Há relacionamentos que vão terminando lentamente. São as discussões cada vez mais frequentes ou o desgaste silencioso da rotina diária que transformam um casal outrora cúmplice numa dupla de perfeitos desconhecidos. A certa altura, já a situação está tão degradada que ambos têm noção de que o final está perto. Outras vezes, tudo parece quase perfeito até que uma das pessoas termina tudo abruptamente, para choque do outro e espanto geral.

Nestes casos estão normalmente envolvidos trânsitos de Urano, especialmente a Vénus ou ao eixo Ascendente/Descendente. Urano traz consigo a ruptura com o que está desactualizado, em nome de um ideal de vida e de relacionamento em maior sintonia com os nossos desejos presentes. Enquanto os trânsitos de Saturno inspiram muitas vezes a solidificação do relacionamento (através do casamento, ou do início informal de uma vida em comum), os trânsitos de Urano exigem mudança radical. Quem nunca teve uma relação séria deseja subitamente comprometer-se com alguém, mas a manifestação mais comum da influência de Urano é a ânsia por algum tipo de libertação. Livremo-nos da responsabilidade, do compromisso, das expectativas bolorentas da sociedade, até da monogamia! 

Urano exige espaço para respirar, e muitos relacionamentos não conseguem adaptar-se a tamanha mudança. Para que um sentimento de união sobreviva a isso, é necessária grande flexibilidade de parte a parte, pois que nesta etapa não há cedências à nostalgia dos bons tempos vividos no Passado. Apenas o Aqui e o Agora interessam.

Como em tudo o que é Astrologia, muitas vezes compete ao Outro realizar aquilo que não somos capazes de fazer, ou que não temos consciência de que tem que ser feito para nosso próprio bem. Aquelas pessoas que mais resistem à mudança terão grande dificuldade em lidar com um trânsito de Urano, e por isso sucede muitas vezes sucede que seja a outra pessoa a terminar inesperadamente o relacionamento. "Ah, aquele canalha insensível, como pode ele terminar assim uma relação de tanto tempo...?" Por mais difícil que seja de entendê-lo (sobretudo quando as emoções estão ainda à flor da pele), importa adquirir distanciamento suficiente para perceber que, tratando-se de um trânsito de Urano NOSSO, é nosso o desejo de libertação - o "canalha insensível" apenas agiu como uma parte de nós gostaria de ter agido, se lhe tivéssemos dado ouvidos.

Ai, a projecção, a projecção. Nunca deixa de me surpreender, o modo como as pessoas da nossa vida nos devolvem, com o seu comportamento, aquilo que não estamos dispostos a reconhecer em nós mesmos. Para quê enredarmo-nos na habitual teia de culpas mútuas, se com um bocadinho de honestidade conseguimos ir muito mais longe no porquê do fim de um relacionamento?

E é isso mesmo que Urano vem propôr, quando transita em algum ponto sensível do nosso mapa astrológico. Sejamos mais autênticos connosco mesmos e com os outros, pois qualquer que seja o preço emocional a pagar valerá a pena se servir para nos tornarmos mais NÓS MESMOS e menos aquilo que os outros esperam que sejamos.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Astrologia do Coração Partido: Trânsitos de Saturno

A esfera dos relacionamentos é talvez o conjunto das experiências mais marcantes na vida de qualquer pessoa. E relacionamentos existem em todos os formatos e conteúdos: a família que não se escolhe, os amigos que se vai (des)fazendo pelo caminho, os amores platónicos e atómicos, possíveis e impossíveis, tépidos e escaldantes... Todo o tipo de emoções nasce e morre à medida que vamos encontrando e conectando com novas pessoas enquanto outras vão desaparecendo do nosso percurso de vida.

O estudo astrológico pode ser especialmente útil quando tentamos compreender os relacionamentos, sobretudo os de natureza romântica - por serem muitas vezes inesperados, por ocuparem tanto tempo do nosso foco mental e emocional, por povoarem o imaginário colectivo actual como condição essencial à felicidade de cada um de nós. Afinal, o que determina o nível de atracção entre duas pessoas? A sua compatibilidade intelectual, cultural...? A "química" inexplicável que as torna irresistivelmente inseparáveis...? Estes são temas complexos que merecem muitos muitos posts, mas desta vez analisemos o final de um relacionamento amoroso.

Toda a gente passa por diferentes fases na sua vida. Algumas fases serão consideradas "boas" (sucesso profissional, estabilidade familiar, boa energia física e mental,...), outras nem tanto. Porque são feitos de pessoas, os relacionamentos também passam por fases, mudam, evoluem. Mas se nem sempre estamos conscientes das alterações que sucedem dentro de nós próprios, muito menos conscientes estamos de como isso vai afectado os nossos relacionamentos. É que uma só pessoa já é suficientemente difícil de entender (mesmo para si própria), quanto mais duas pessoas + toda a bagagem emocional que transportam para dentro do seu relacionamento.

Em termos astrológicos, as grandes mudanças nos relacionamentos são muitas vezes assinaladas por trânsitos de Saturno, Urano, Neptuno e Plutão aos planetas pessoais natais de uma ou ambas as pessoas, sobretudo ao Sol, à Lua, a Vénus ou a Marte. Trânsitos aos ângulos (Ascendente/Descendente e MC/IC) podem também ter importantes consequências em qualquer relacionamento, pois produzem uma transformação significativa no modo como cada pessoa se relaciona com o mundo no geral.

Os trânsitos de Saturno forçam-nos a assumir responsabilidades por escolhas passadas, por compromissos assumidos perante nós mesmos e perante os outros. Saturno convida (com grande insistência :-) a que reconheçamos e aceitamos os nossos limites, não com um atitude de derrota perante as circunstâncias mas com um espírito de persistência e dedicação àquilo que são os nossos objectivos de vida. Quando os trânsitos de Saturno afectam um relacionamento, é posta em causa a nossa capacidade para nos comprometermos com o Outro, e somos questionados sobre as limitações associadas ao estar com o Outro. 

Muitas vezes a relação "passa" no teste saturnino e sentimos então a necessidade de formalizá-la, de torná-la mais sólida e estruturada aos nossos olhos e aos olhos da sociedade: é por isso que muitos trânsitos de Saturno (sobretudo a Vénus natal ou ao Descendente) estão associados à decisão ou ao acto de casar. Por outro lado, os relacionamentos que se tornaram estáticos e demasiado restritivos acabam por terminar durante um trânsito de Saturno: chega o momento em que somos forçados a admitir que aquela relação que durante algum tempo nos serviu de suporte já não pode mais apoiar o nosso pleno desenvolvimento individual.

Como em qualquer outro trânsito, acontece frequentemente que uma das pessoas não está consciente das forças interiores que apelam a uma mudança concreta, e quando assim é acaba por ser o Outro a agir. Como defendia Jung, aquilo de que não estamos conscientes em nós chega-nos do exterior como se fosse "destino". Por muito doloroso que seja admiti-lo, a separação é tão essencial a quem é "abandonado" como a quem "abandona", pois toda a relação funciona apenas enquanto AMBOS encontram aí uma fonte de desafios positivos para a sua aprendizagem individual. 

Os trânsitos de Saturno podem por isso trazer o final não desejado de uma relação, muitas vezes com um sentimento de grande solidão e a sensação de se não ter sido suficientemente "bom" para a pessoa que nos deixou. Este duro golpe na auto-estima demora tempo a ser ultrapassado - não fosse Saturno o deus do Tempo :-) - mas com um pouco de distanciamento e auto-análise aquilo que parecia uma catástrofe amorosa acaba por se revelar numa oportunidade preciosa para desenvolvermos um sentido de amor próprio mais auto-suficiente, que não depende tanto da validação de quem está ao nosso lado mais mais daquilo que de valioso reconhecemos em nós próprios.

E Urano, que efeitos terá num relacionamento amoroso?... Até ao próximo post!