Mostrar mensagens com a etiqueta Personalidades. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Personalidades. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Casimi, planeta em combustão

Um leitor interessado deixou no Consultório Astrológico a seguinte questão:

Oi, gostaria de sugerir uma postagem sobre "casimi": o que é, no que influência, ajuda ou não no nosso mapa (no caso não no meu, não sei se feliz ou infelizmente!), e quando se trata do Sol a Vênus (como li que tem no mapa de Oprah Winfrey), é verdade que essa conjunção faz auxiliar na superação dos obstáculos e dentro da medida do aceitável (conforme empenho e trabalho,claro!) propicia glória e até mesmo fortuna?

O termo Cazimi (ou Casimi, ou ainda Zaminium) é de origem arábica, significa "no coração do Sol" e descreve a conjunção muito próxima de um planeta ao Sol, num intervalo de apenas 17 minutos. O Cazimi será então um tipo especial de combustão, um termo que designa a obscuridade relativa de um planeta quando observado a olho nu, sempre que está suficientemente próximo da luz do Sol. A distância ao Sol (em graus) à qual se inicia o fenómeno visual da combustão de um planeta é variável:

Lua: 12º
Mercúrio: 14º em movimento directo ou 12º em movimento retrógrado
Vénus: 10º em movimento directo ou 8º em movimento retrógrado
Marte: 17º
Júpiter: 11º
Saturno: 16º

Na generalidade dos escritos de Astrologia Medieval que nos chegaram até hoje, um planeta deve ser considerado combusto apenas quando se encontra num intervalo de 5 a 8º do Sol - o que corresponde ao que muitos dos astrólogos modernos consideram ser uma orbe (desvio a um aspecto) aceitável para qualquer conjunção.

É bom ou é mau?

O significado simbólico de um Cazimi - como da combustão - depende da abordagem utilizada. Na astrologia védica, a energia dos planetas em combustão é considerada muito enfraquecida.Já William Lilly (importantíssimo astrólogo medieval da abordagem horária) considerava que um planeta em Cazimi teria uma força espantosa. Para alguns autores modernos de Astrologia Psicológica, a energia solar é entendida como o veículo perfeito para a total expressão do planeta em combustão.

Em meu entender, não há tal coisa como aspectos "bons" ou "maus". Existem recursos e dificuldades, que podem ser vividos de forma mais harmoniosa ou mais turbulenta. Um mapa repleto de coisas "boas" pode tornar a pessoa mais preguiçosa e displicente (pra quê esforçar-se, se consegue tudo facilmente?), e um mapa repleto de coisas "más" pode tornar a pessoa mais perseverante e adaptável às circunstâncias interiores e exteriores. 

Tomemos então o exemplo de Oprah Winfrey. O seu mapa mostra uma conjunção muito próxima entre Sol e Vénus - distam apenas 49', mas pelos critérios já descritos Vénus não está em Cazimi. Ainda assim, vale a pena reflectir sobre esta Vénus em combustão a partir do que sabemos da vida pública e privada de Oprah. Ela nasceu de uma relação ilegítima e sofreu com a negligência da mãe desde muito cedo (Lua em sesquiquadratura a Urano). Foi abusada sexualmente (Plutão na casa 8 em quadratura a Marte em Escorpião, IC em Carneiro) e chegou a ser mãe aos 14 anos, embora o bebé prematuro não tenha sobrevivido além de 2 semanas. Por aqui vemos que o desenvolvimento da sua identidade deve ter evoluído inevitavelmente a partir dos seus relacionamentos (Sol em conjunção a Vénus), e que só com a adopção de valores muito sólidos (Vénus) pode Oprah ultrapassar as relações traumáticas da sua infância e adolescência e progredir na (re)construção da sua vida e na descoberta e consolidação da sua vocação profissional, social e espiritual (Sol). Não lhe chamaria "sorte", porque a sorte somos nós que a fazemos ;-), e todos nós decidimos diariamente que caminho queremos seguir. Qualquer pessoa com uma conjunção (e ainda mais com um casimi) entre Sol e Vénus sentir-se-á compelida a descobrir-se através dos seus relacionamentos. Se isso conduz a uma identidade sólida e independente, ou a um ego frágil e influenciável, não é possível determinar à partida. De que modo esta pessoa utiliza o seu provável charme natural, é questão de livre arbítrio. Para manipular e embarcar em relações co-dependentes, ou para desenvolver verdadeira harmonia e cooperação com os outros? 

Observando esta Vénus em combustão na sua expressão mais construtiva, pode de facto proporcionar uma grande afabilidade no trato com os outros, uma tendência natural para apaziguar e mediar disputas, para exprimir a centelha divina que em cada ser humano habita de uma forma harmoniosa e até artística. Ainda que nem todos possamos ser a Oprah, talvez aqueles que beneficiem deste aspecto possam trazer ao mundo um pouco mais de paz, de beleza e de mútua compreensão.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Os Elementos: Fogo, Optimismo e Pensamento Positivo

Recebi por mail o anúncio de um “curso de pensamento positivo” que será na verdade uma introdução ao Raja Yoga. Bem mais interessante o que realmente é do que pretende ser, não? A expressão “pensamento positivo” deriva do conceito de que o pensamento humano pode alterar a realidade exterior sem recurso à acção directa sobre essa realidade. As origens deste conceito remontam a Platão, e ao longo dos tempos muitos filósofos, escritores e místicos deambularam sobre o tema (aqui fica um link para as obras mais influentes dedicadas ao assunto).

Nietzsche (filósofo alemão, 1844-1900) defendeu ideias muito interessantes a respeito do poder da vontade, e utilizou uma interpretação invulgar (ainda que perfeitamente lógica) do mito de Pandora para ilustrá-las. Na mitologia grega, Pandora foi a primeira mulher, criada em co-autoria por vários deuses. A certa altura, Zeus encarregou-a de um “frasco” (no original não seria uma “caixa”) onde estavam guardados todos os males do mundo e que nunca deveria ser aberto. Mas a curiosidade de Pandora levou a melhor, o jarro foi aberto, e toda a espécie de males libertada sobre a Humanidade. No fundo do jarro terá ficado, apenas, a esperança. Nietzsche defende então que a esperança é uma miragem e o maior problema da Humanidade, e que por isso permaneceu dentro do jarro: é a única desgraça que não se propaga “voando” de pessoa em pessoa, mas insinuando-se e penetrando profundamente na mente humano.


As críticas de Nietzsche ao carácter pernicioso da esperança assumem especial pertinência quando se trata de observar, tão racionalmente quanto possível, o movimento do “pensamento positivo” que está hoje por todo o lado. O problema básico com ambos os conceitos é o mesmo: ao acreditar que algo terá um desfecho positivo, corremos sérios riscos de nos demitirmos da responsabilidade de agir para que esse desfecho positivo de facto se concretize. Nesse sentido, o pensamento positivo é ainda mais tóxico: quando as coisas correm mal, o falhanço é atribuído pelo indivíduo à falta de capacidade para gerar pensamentos positivos eficazes. Saem assim reforçados os sentimentos de inépcia e de fracasso pessoal que deprimem e sustentam a dependência emocional de soluções fáceis para a dificuldade em lidar com a frustração.

A literatura de auto-ajuda à la carte, que teve o seu auge (espero eu!) com a publicação d’O Segredo, mais não fez do que distorcer algumas leis herméticas para dar à generalidade do público (leiam-se “consumidores”) um pacote apetecível de crença na ideia de que tudo lhes é possível, bastando quererem muito muito e colocarem nesse querer todos os seus recursos emocionais/mentais/espirituais. E então porque é que isso não há-de funcionar, se tudo no Universo é Mental (1º Princípio Hermético)?


- Porque para cada coisa há o seu oposto (4ºPrincípio Hermético – não faz muito sentido usar os princípios que nos dão jeito e descartar os que não encaixam assim tão bem na teoria, pois não?). Com cada desejo intenso de ter algo – pessoa, situação, objecto,… - coexiste dentro de nós o medo igualmente intenso de não ter esse algo. Quando afirmamos com todas as forças “Quero isto”, há uma sombra nessa afirmação luminosa que tentamos varrer pra debaixo do tapete da mente consciente: “Receio nunca ter isto”. Ambas as afirmações partem de nós, indissociáveis, e o resultado prático observável será que uma anula a outra. 

Certas correntes do Ocultismo moderno afirmam que para executar verdadeira Magia (=”a ciência e a arte de causar Mudança em conformidade com a Vontade” – Aleister Crowley) é necessário:

1º Atingir um estado de gnose (leia-se "transe") em que a actividade da mente racional é temporariamente suspensa de modo a que se possa emitir um pensamento único, unidireccional, expressão pura de uma só vontade (“Quero isto!”) sem as dúvidas/medos do seu oposto (geralmente produzidos pela mente racional).
2º Abandonar a necessidade que temos de ver a nossa vontade concretizada. Idealmente, esquecer que alguma dia quisemos aquilo. Porque ao regressar ao estado habitual, a mente racional volta a produzir os mesmos pensamentos polarizados (desejo/medo), e isso acabará por interferir com a concretização do pensamento unidireccional anteriormente expresso.

Outra forma de conseguir as coisas poderá ter um interesse místico-metafísico substancialmente inferior, mas ser muitíssimo mais eficaz do que todo o stock da FNAC em livros de auto-ajuda: AGIR. Nesta era de busca incessante pela espiritualidade, muitos de nós tendem a envolver-se demasiado com o domínio das coisas invisíveis e esquecer que aqui estamos em corpos materiais que interagem com o “mundo real” (as pessoas na nossa vida, as contas para pagar, o trabalho e a falta dele, música e arte para nos elevar o espírito!) Nessa interacção ficamos a conhecer os nossos talentos e enfrentamos as nossas dificuldades. C’est la vie, e ainda bem que assim é (digo eu): vir a este mundo, perceber que temos muito trabalho pela frente e choramingarmos por Deus/Universo para que nos tire da caca será um bocadito imaturo em termos espirituais e muitíssimo improdutivo em termos práticos, não?

E para lidar com o mundo material, há uma coisa óptima chamada “optimismo” (passe o pleonasmo). Ser optimista não é a mesma coisa que ter esperança. O optimismo pode fazer parte daquilo que SOMOS, a esperança é algo que podemos TER ou não, consoante dela sintamos necessidade. O esperançoso espera que tudo aconteça de acordo com a sua vontade, crendo e querendo que a realidade se molde às suas expectativas. O optimista adapta-se à realidade, qualquer que ela seja, imbuído de uma auto-confiança que o torna emocionalmente resiliente perante os altos e baixos da vida. O que quer que aconteça, saberei tirar o melhor partido da situação (ou como dizem os ingleses, “every cloud has a silver lining”).

Astrologicamente, a atitude optimista está associada ao elemento Fogo e aos signos por ele inspirados: Carneiro, Leão e Sagitário. As pessoas que no seu mapa astrológico têm planetas em signos de Fogo (com maior ou menor preponderância atendendo às restantes componentes do mapa) tendem a adoptar uma atitude optimista na definição da sua identidade (Sol), na reacção emocional às circunstâncias (Lua), na forma de agir (Marte) ou de seduzir (Vénus), etc. São os entusiastas, os “go-get-it”, os que encontram motivação extra em cada obstáculo que se lhes apresente, aqueles em quem a chama criativa parece nunca esmorecer (ainda que possa mudar de direcção várias vezes por dia ;-). Estas pessoas são generosas nas suas demonstrações de ânimo, e se souberem dosear tanta enegia (porque demasiado Fogo pode ofuscar todo e qualquer outro ego no raio de vários km), podem desenvolver o extraordinário talento de inspirar os outros, fazendo-os sentir especiais e capazes de agir decididamente sobre as suas próprias vidas.


Nem todos temos uma boa dose de Fogo, e é mesmo assim: só cá está quem cá faz falta. Se no entanto sentir falta de uma fonte extra de motivação, esqueça os livros de auto-ajuda e procure um bom amigo destes. Não terá grande paciência para ouvir os seus problemas, é certo, mas ajudá-l@-á a encontrar as gargalhadas que dentro de si julgava perdidas.


PS- Este post é dedicado a todos carneiros, leões e sagitários, de Sol ou de outro planeta qualquer, declarados ou encapotados, que por este mundo espalham a sua chama interior sem pudor pela(s) crise(s) de dinheiro e de valores e de existência, como se não houvesse amanhã e hoje fôssemos apenas crianças brincando na praia.



Fonte: Astrotheme.com
PS2- Friederich Nietzsche nasceu em 15 de Outubro de 1844, com o Sol em Balança. O trígono da Lua em Sagitário a Urano em Carneiro ajudam a perceber a sua profunda necessidade (Lua) de lutar por uma causa maior (Sagitário) revoltando-se contra a ideologia dominante da época e defendendo que apenas ao ser humano compete assumir as rédeas do seu próprio destino (Urano em Carneiro). Com Marte em conjunção ao Meio-do-Céu (MC) em Virgem no topo de um yod que envolve Plutão e Neptuno, Nietzsche atingiu grande notoriedade pública (MC) ao exercer um sentido crítico implacável (Marte em Virgem) perante aquilo que considerava ser a mediocridade do pensamento dominante das massas, defendendo sem reservas o poder individual (Plutão em Carneiro) e a libertação do ser humano dos dogmas religiosos que o inferiorizavam perante a existência de um Deus caprichoso (Neptuno em Aquário).

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Entrevista com Robert Happe

Este vídeo com Robert Happe veio até mim hoje mesmo (Dank U wel, Mago!), e assim que o vi percebi que devia ser partilhado. Cá vai, espero feedback!


sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Enoquiano - A Linguagem dos Anjos


"A certa altura percebi que só Deus (e através dos seus Anjos) poderia satisfazer o meu desejo, que era o de compreender a natureza de todas as suas criaturas."

John Dee




O inglês John Dee (1529-1609) foi um notável matemático, astrónomo, geógrafo, astrólogo, e ocultista, chegando até a ser conselheiro das cortes da rainha Isabel I. Ao completar 50 anos, e tendo dedicado toda a sua vida ao estudo da Natureza, Dee sentia-se insatisfeito com os seus próprios progressos, e por isso começou a debruçar-se sobre os fenómenos sobrenaturais como meio de compreender melhor o mundo que o rodeava. Dee pretendia, em particular, estabelecer contacto com os anjos: seguindo a fé cristã, Dee acreditava que Deus havia enviado anjos para comunicar com os profetas, no Passado, e que seria possível restabelecer esse contacto e assim voltar a trazer a palavra de Deus à Humanidade. As primeiras tentativas fracassaram, o que levou Dee a contratar Edward Kelly, um místico que muito o havia impressionado com as suas capacidades psíquicas. Os dois homens começaram então a realizar sessões de contacto com “anjos” através de uma bola de cristal, que envolviam preparação meticulosa com orações e jejum, em linha com a tradição cristã. Kelly, fixando a bola de cristal em transe, relatava o que via a Dee, que o anotava escrupulosamente. Os anjos começaram a ensinar a Dee e Kelley a sua própria linguagem, que deveria ser utilizada em invocações especiais no início de cada sessão. Este idioma, até então desconhecido, recebeu mais tarde a designação de “Enoquiano”, numa referência ao profeta Enoque, a única personagem desde Adão a conhecer a “linguagem angélica” (como Dee lhe chamava).


De acordo com os diários de John Dee, o Enoquiano teria sido a linguagem utilizada por Deus para criar o mundo e para falar a Adão e aos anjos. Quando foi expulso do Paraíso, Adão perdeu o conhecimento do Enoquiano, e tentou recriar esta linguagem a partir das vagas memórias que lhe restavam. Começou então a ser utilizado um idioma que viria a ser o percursor do Hebreu, e que foi universalmente utilizado até à queda da Torre de Babel.


Utilizando a linguagem angélica, Dee criou um sistema mágico hoje conhecido por Magia Enoquiana. No entanto, não se sabe até que ponto esse sistema teria sido desenvolvido e utilizado pelo próprio Dee, e foram precisos vários séculos para que os diários de Dee fossem devidamente valorizados pelos estudiosos do ocultismo, o que veio a acontecer pela mão de Samuell McGregor Mathers, fundador da Ordem Hermética da Aurora Dourada. Mais tarde, Aleister Crowley viria a escrever com e sobre o Enoquiano, contribuindo para a sua divulgação entre as diversas correntes ocultistas do séc. XX.

A Magia Enoquiana reveste-se de uma complexidade muito superior à de outras teorias mágicas. A sua interpretação requer profundos conhecimentos de numerologia, e o facto de a maioria dos manuscritos originais de John Dee ter sido destruída pouco depois da sua morte leva a que muitas das chaves indispensáveis à interpretação e utilização do Enoquiano se tenham perdido irremediavelmente. Contudo, várias escolas de pensamento utilizam hoje a linguagem angélica, estudando-a à luz das suas convicções e ensinamentos, sem nunca subestimar o imenso poder que muitos acreditam estar por detrás da linguagem dos anjos.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Aleister Crowley


"Uma rosa vermelha absorve todas as cores,
menos a vermelha;
Vermelha, portanto, é a única cor que ela não é.
Essa Lei, Razão, Tempo, Espaço,
toda Limitação, cega-nos à Verdade
Tudo o que sabemos sobre o Homem, Natureza, Deus,
é apenas aquilo que eles não são;
é aquilo que rejeitam como repugnante."

Aleister Crowley, in Liber CCCXXXIII, Cap. 40


Aleister Crowley nasceu Edward Alexander Crowley, a 12 de Outubro de 1875, em Warwickshire, Inglaterra. O seu pai, fervoroso crente dos Brethren de Plymouth (movimento cristão evangélico), falece quando Crowley tinha apenas 12 anos. As tentativas de sua mãe para tomar as rédeas da sua educação religiosa não têm sucesso, e contribuem apenas para criar um crescente cepticismo na mente do jovem Aleister. Em 1895, ingressa no Trinity College de Cambridge, onde estudou Literatura Inglesa durante 3 anos. Nesse período, Aleister corta definitivamente todos os laços que o ligam à religião convencional, mantendo porém uma aparência de crente empenhado.

O final de 1896 fica marcado por um acontecimento que Crowley descreve apenas por meias-palavras, e que o terá levado a ingressar definitivamente nos caminhos do ocultismo e do misticismo. As suas leituras passam a incluir obras sobre alquimia e magia, e levam-no a encarar as ambições mundanas como fúteis e sem sentido – a carreira diplomática que tinha pensado seguir fica definitivamente posta de lado. Um ano mais tarde, Crowley publica o seu primeiro livro de poesia ("Aceldama"), e adere àquela que é provavelmente a mais conhecida ordem mágica de sempre: a Ordem Hermética da Aurora Dourada (Hermetic Order of the Golden Dawn). A ascensão de Crowley na hierarquia da Ordem é relativamente rápida, passando de Neófito (o primeiro grau) a Adeptus Minor (o sétimo grau) em apenas 2 anos.

Em 1900 a Aurora Dourada é destruída por querelas internas, e Crowley prossegue os seus estudos mágicos viajando sozinho pelo México. Desenvolveu um especial interesse pelo Budismo e começou a praticar Raja Yoga. Escreve o ensaio "Berashith" (a primeira palavra do Génesis), onde defende a meditação como meio de atingir o estado mental necessário à realização de magia cerimonial, uma forma de treinar a vontade e de dirigir o pensamento para um único objecto.

Em 1904, uma experiência mística mudaria o rumo da sua vida. Durante umas férias no Egipto, o comportamento estranho da sua esposa Rose leva Crowley a pensar que esta tinha sido contactada por alguma entidade sobrenatural. Seguindo as instruções de Rose, Crowley invoca o deus Horus, que lhe terá dito que um novo Aeon (ou Era) mágico estaria a começar, e que ele seria o seu profeta. Alguns dias mais tarde, Crowley ouve uma voz que lhe dita o texto publicado mais tarde como “O Livro da Lei” (Liber AL vel Legis, ou abreviadamente “AL”). A voz diz ser Aiwass, ministro de Horus, filho de Isis e Osiris, conquistador do novo Aeon, e proclama Crowley como o “príncipe-sacerdote”. O conteúdo do Livro da Lei é críptico, de difícil leitura, dado a várias interpretações. Crowley escreveu sobre ele durante o resto da sua vida, tentando decifrar os seus mistérios, convicto de que se tratava de uma espécie de “tratado espiritual” comparável aos ensinamentos de Buda, Jesus e Maomé, e que deveria ser o fundamento de toda a religião moderna. O método utilizado por Crowley para interpretar AL é eminentemente cabalístico, servindo-se da gematria, técnica que atribui um significado numerológico às palavras em hebraico. A verdadeira origem do livro parece envolta em mistério até para o próprio Crowley. Embora nos primeiros tempos tenha colocado a “improvável” hipótese de Aiwass ser na realidade uma manifestação do seu próprio inconsciente, acaba por reconhecer ao “ministro de Horus” um conhecimento muito superior àquele que o próprio Aleister Crowley poderia alguma vez ter acesso, consciente ou inconscientemente. No livro “Magick Without Tears” (Magia sem Lágrimas), escreve:


“Na altura [da escrita do Livro da Lei], compreendia o suficiente para me assegurar de que o Autor do Livro sabia, pelo menos, tanto da Cabala como eu. Subsequentemente descobri mais do que o suficiente para ter a certeza de que ele sabia muito mais, e de uma ordem muito mais elevada, do que eu. Finalmente, o tempo e o estudo desesperado vieram iluminar muitas passagens obscuras, não deixando quaisquer dúvidas na minha mente de que ele é certamente o supremo Cabalista de todos os tempos.”


Em 1907, Crowley recupera a filosofia da Thelema, utilizando-a como a teoria fundamental por detrás de duas novas ordens: a Ordem da Estrela Prateada, Argenteum Astrum (A∴A∴), e a Ordem do Templo do Oriente, Ordo Templi Orientis (O.T.O.). A palavra Thelema remonta à Grécia Antiga, ao termo que designava vontade, desejo, objectivo. Nos primeiros escritos cristãos era uma referência à vontade de Deus, do Homem, e até do Demónio. A Thelema de Crowley ressuscita a filosofia ficcional de François Rabelais (séc.XVI), e pode resumir-se numa única frase:


“Faz o que quiseres. Que esta seja a totalidade da Lei.”


Na obra de Crowley, esta ideia surge pela primeira vez no Livro da Lei. Com o tempo, acaba por construir em torno deste mote todo um sistema filosófico, místico e religioso, com influências do ocultismo, do yoga e dos misticismos oriental e ocidental (especialmente a Cabala). Em 1920, é fundada a Abadia da Thelema em Cefalù, Sicília: uma espécie de “anti-mosteiro”, cujos habitantes se dedicavam não ao cumprimento de leis, estatutos ou regras, mas sim à vivência plena da sua livre Vontade. Esta ideia utópica serviria de modelo à comuna de Crowley, constituindo por outro lado uma espécie de escola de magia, “Collegiu ad Spiritum Santum” (Colégio do Espírito Santo). O programa do curso aí ministrado é semelhante ao da iniciação na A∴A∴, e inclui adorações diárias do Sol, estudo das obras de Crowley, yoga, rituais variados, e trabalhos domésticos. O objectivo final seria que o estudante se dedicasse ao Grande Trabalho de descobrir e manifestar a sua Verdadeira Vontade.

Entre 1909 e 1913, Crowley edita os 10 primeiros números do Equinox, uma publicação bianual que funcionava como “a voz oficial” da A∴A∴. A sua política editorial tem como objectivo a observação das experiências místicas à luz da crítica científica. Crowley está determinado em divulgar a sua visão do ocultismo, a de que o progresso espiritual não depende dos códigos morais ou religiosos, mas antes funciona como qualquer ciência.


“A Magia pode mostrar os seus segredos ao infiel e ao libertino, da mesma forma que não é preciso ser um sacristão para descobrir um novo tipo de orquídea. Existem, obviamente, certas virtudes necessárias ao Mago; mas são da mesma natureza daquelas que fazem um bom Químico.”
In Magick, Book 4

Com a chegada dos fascistas de Mussolini ao poder, em 1923, Crowley é banido de Itália, mais tarde de França, e na sua Inglaterra natal há muito que os meios de comunicação haviam movido uma autêntica guerra, considerando-o “o homem mais perverso do mundo”. O sistema iniciatório da A∴A∴ incluía magia sexual, e muitas das suas opiniões sobre esse assunto são absolutamente radicais naquela época. Grande parte dos seus poemas e tratados combinam temas pagãos com imagens sexuais homo- e heterossexuais, um verdadeiro atentado à ordem moral e religiosa estabelecidas, e a conservadora sociedade europeia está longe de conseguir tolerá-lo. Felizmente, isso não impede Crowley de continuar a estabelecer bons contactos, entre eles Israel Regardie, outro importante vulto do ocultismo do séc.XX, e um dos principais responsáveis pela preservação do legado da Ordem da Aurora Dourada, após a sua extinção. Em 1928, Regardie torna-se secretário de Crowley, que inicia um período mais introspectivo da sua obra com a publicação dos dois primeiros volumes de “As Confissões”. A colaboração com Regardie termina em 1932, e dois anos mais tarde Crowley é obrigado a declarar falência. Nesse ano de 1934 o seu nome volta às luzes da ribalta, quando perde em tribunal um importante processo que havia movido contra a artista Nina Hamnett, por tê-lo chamado de “mago negro” numa das suas obras. Tornaram-se célebres as alegações finais do advogado de Hamnett, Justice Swift:

“Estou envolvido na administração da Lei há 40 anos […]. Pensei que já tinha visto toda a forma concebível de malvadez. Pensei que tudo o que era vil e mau já me havia sido mostrado, numa ou noutra vez. Aprendi neste caso que podemos sempre aprender algo mais se vivermos o tempo suficiente. Nunca ouvi nada tão horrível, blasfemo e abominável como aquilo que foi dito pelo homem [Crowley] que se auto-intitula ‘o maior poeta vivo’.”


Nos anos seguintes, e apesar das dificuldades “mundanas”, Crowley permanece activo enquanto autor, publicando “O Equinócio dos Deuses” (1937), “Oito Lições de Yoga” (1939), “O Livro de Thoth” e respectivo baralho de Tarot (1944) – uma das suas obras mais reconhecidas actualmente. O seu último trabalho escrito, “Magick without Tears”, constituído por 80 cartas para vários estudantes de Magia, só seria publicado em 1954, a título póstumo.


Aleister Crowley deixa este Mundo em 1 de Dezembro de 1947, com 72 anos, vítima de infecção respiratória. A morte do seu médico acompanha a sua, num intervalo de menos de 24 horas, coincidência que os jornais da altura atribuíram a uma maldição do próprio Crowley, pelo facto de o médico se ter recusado a prescrever-lhe opiáceos. Para a História fica a obra de um dos homens mais odiados do seu tempo, figura enigmática e polémica, cujo legado continua e continuará sempre a influenciar a Magia e o Ocultismo Ocidentais.

“Consigo imaginar-me no meu leito de morte, pleno de luxúria para tocar o outro Mundo, como um rapaz que pede a uma mulher o seu primeiro beijo”.
Aleister Crowley
Fontes:
O Mago das Mil Faces, por Carlos Raposo

domingo, 17 de junho de 2007

Edgar Cayce, o Profeta Adormecido

"Os sonhos são as respostas de Hoje
para as questões de Amanhã."

Edgar Cayce


Edgar Cayce nasceu a 18 de Março de 1877, próximo da localidade de Beverly, no estado norte-americano do Kentucky. Proveniente de uma família da classe trabalhadora, cedo se sentiu atraído pela igreja, aderindo aos Discípulos de Cristo (ramo dissidente do Presbiterianismo) e participando activamente no recrutamento no recrutamento de missionários e no ensinamento da catequese.

Em 1901, Cayce contraiu uma grave laringite, que o deixou afónico durante quase um ano. Nesse período, Cayce procurou vários médicos, mas nenhum foi capaz de curar o problema que o afligia. Nessa época, o hipnotismo começava a ganhar uma enorme popularidade em por todos os Estados Unidos, e Cayce convenceu-se a procurar um hipnotizador para tentar recuperar a voz. Sob transe, Cayce recuperou instantaneamente a voz, e foi capaz de descrever o problema que afectava as suas cordas vocais. Mais surpreendente do que isso, descreveu também a sugestão que lhe deveria ser feita para curar a afonia: um aumento do fluxo sanguíneo nas áreas afectadas. Quando acordou do transe, e embora não se recordasse de nada do que havia dito, Cayce estava totalmente recuperado.

A notícia deste extraordinário acontecimento depressa se espalhou, e muitas pessoas procuraram Cayce em busca de solução para os mais variados problemas, de saúde e não só. De início, Cayce mostrou-se muito relutante: Como aceitar este “dom” que nem sabia de onde vinha, ou sequer se era aceitável à luz das suas convicções religiosas? Como confiar num processo que decorria sem que tivesse qualquer controlo consciente, ou sequer recordação do que se passava durante o transe? Por fim, acabou por ceder aos insistentes pedidos de ajuda, e iniciou uma nova vida.

Com o passar do tempo, as sessões de Cayce abordavam cada vez mais temas do oculto e do esotérico. Falando sempre no plural, “nós”, Cayce respondia a tudo o que lhe fosse perguntado, e Arthur Lammers, teósofo e empresário abastado, tornou-se o seu principal interlocutor nas sessões que tinham um carácter mais filosófico do que prático.

Cada vez mais empenhado em responder aos inúmeros pedidos de ajuda provenientes de todo o país, Cayce foi aumentando a frequência das sessões, chegando a realizar 8 por dia, o que constituía um tremendo esforço físico e emocional. Em transe, Cayce chegou a tentar avisar-se a si próprio dos perigos que corria ao impôr a si próprio um ritmo tão extenuante, mas de nada serviu: morreu 3 de Janeiro de 1945, aos 67 anos, vítima de acidente vascular cerebral. Deixou ao mundo cerca de 22 mil leituras, sobre temas tão variados como terapias naturais, interpretação de sonhos ou reencarnação. A sua regra dourada: As leituras devem ser utilizadas apenas se tal servir para melhorar a vida de quem as procura. Eis um pouco do seu legado:

O que dizia Edgar Cayce sobre…

… a origem e o destino da Humanidade?

“Todas as almas foram criadas no início, e estão à procura do caminho de volta para donde vieram”. (leitura 3744-5) As almas humanas foram criadas com a consciência de que são um só com Deus. Algumas perderam essa consciência; outras, como a de Jesus, tentaram salvá-las. A Terra, com todas as suas limitações, foi criada para servir de ambiente propício ao crescimento espiritual.

… Reencarnação?

A Reencarnação e o Karma são reais, enquanto instrumentos de um Deus generoso, e não apenas leis naturais. O seu propósito é ensinar determinadas lições espirituais. Ao contrário dos animais, cujas almas são indiferenciadas, os seres humanos provêm de um grupo de almas que se viu “aprisionada” na Terra, e que acompanhou a evolução dos primatas para que um deles se tornasse no veículo ideal para a alma humana.

… Astrologia?

Cayce aceita a Astrologia na medida em que as almas passam algum tempo noutros planetas (ou nos seus correspondentes espirituais), entre encarnações: a posição dos planetas no momento do nascimento regista essas influências.

… as Leis Universais?

As almas encarnam na Terra para se sujeitarem a várias leis espirituais, incluindo “Cada um colhe aquilo que plantou (Karma)” e “Serás julgado pelos outros do mesmo modo que os julgares”. Estas leis representam um aspecto da misericórdia divina: independentemente das circunstâncias, Deus guiar-nos-á no caminho espiritual.

… o Corpo, a Mente e o Espírito?

Cayce invocou muitas vezes estes três termos para descrever a condição humana: “O Espírito é a vida. A Mente é o construtor. O Corpo é o Resultado”.

… Meditação?

O elemento principal da Meditação é a abertura à influência divina: “Através da oração, falamos com Deus. Na meditação, Deus fala connosco”. O conceito de Meditação, para Cayce, envolve aspectos comuns ao Hinduísmo e ao Budismo (os chacras, o kundalini), mas assemelha-se mais às versões cristãs do Movimento Novo Pensamento.

… Percepção Extra-Sensorial (PES)?

As experiências psíquicas e a PES são produtos secundários naturais do desenvolvimento espiritual: Deus pode falar-nos através de sonhos ou intuições.

… Atlântida?

As leituras de Cayce afirmam a existência da Atlântida, um vasto continente com tecnologia avançada, cuja população era proveniente de refugiados quer do Egipto quer da América pré-colombiana. A sociedade Atlante dividia-se em duas facções políticas: os “bons”, chamados “Filhos da Lei de Um”, e os “maus”, “Filhos de Belial”. Muitas pessoas que hoje estão vivas são reencarnações de almas Atlantes, que devem enfrentar as mesmas tentações de antes. Cayce previu que uma pedra azul de origem Atlante seria descoberta nas Caraíbas: na realidade, em 1974, foi descoberto um pectolito azul de origem vulcânica na República Dominicana, ao qual certas sociedades esotéricas atribuem poderes curativos.

E mais, muito mais, em:

- "The Sleeping Prophet", de Jess Stearn (1967)
- "The Edgar Cayce Primer: Discovering the Path to Self Transformation", de Herbert Puryear (1985)
- "Edgar Cayce: An American Prophet", de S.D. Kirkpatrick (2001)
- Outros Livros sobre Edgar Cayce na Amazon
- Edgar Cayce's Association for Research and Enlightment (A.R.E.)
- Mais leituras de Cayce