E-book "Profissão: EU!"

E-book "Profissão: EU!"
Da autora do blog "Nodo Ascendente", já à venda em raquelfialho.com

domingo, 26 de abril de 2009

O que é um Homo sapiens?

O Nodo Ascendente foi recentemente honrado com o Selo Lemniscata. Com essa distinção, que muito me sensibiliza, veio também o desafio de responder à seguinte questão:

O que é para ti ser um Homo sapiens?

Pois bem, cá vão umas ideias sobre o assunto. E, mais uma vez, muito obrigada Shin-Tau!


"A primeira coisa de que me lembro a respeito do mundo... foi a de que nele me sentia um estranho. Este sentimento, que é ao mesmo tempo a glória e a desolação do Homo sapiens, é o único fio de consistência que detecto na minha vida."

Malcolm Muggeridge, Jornalista e Escritor Inglês (1903-1990)


Todos somos Homo sapiens.

E estamos sós no género Homo. Este género terá emergido há cerca de 1,5-2,5 milhões de anos. Desde então, várias espécies foram surgindo, evoluindo, e extinguindo-se. Por motivos que ainda não foram cientificamente esclarecidos, todas elas desapareceram, excepto o Homo sapiens, derradeiro portador de uma longa jornada evolutiva marcada por muitas conquistas, algumas delas sem paralelo em todo o Reino Animal.

Várias características morfológicas, anatómicas e funcionais nos distanciam dos restantes hominídeos (chimpanzés, gorilas e orangotangos) que connosco têm co-existido até hoje. A mais impressionante, dirão muitos, é a inteligência. Mas que é isso de “inteligência”? Como defini-la? Não será um conceito demasiado abrangente e subjectivo para que o possamos atribuir em exclusivo ao Homo sapiens, negando-o a qualquer outro animal?

Observemos então duas manifestações de “inteligência” muito concretas. Qualquer uma delas pode ser encontrada noutros animais. Mas não em simultâneo E com o mesmo grau de desenvolvimento  para o qual evoluíram até ao Homo sapiens. Capacidade técnica e linguagem.

Com a capacidade técnica (e tudo começou com o simples polegar), foi possível utilizar cada vez melhor as circunstâncias do ambiente a favor da própria sobrevivência. Paus que se transformam em lanças ou arados, pedras em armas ou abrigos. Domestique-se o fogo para que seja nosso eterno aliado, os cereais e os herbívoros para que sustentam todas as gerações vindouras!

Com a linguagem, as relações sociais progrediram, ganharam em complexidade, em profundidade, as mensagens outrora directas adquiriram variações de tom e de significado cada vez mais subtis. Conversemos, argumentemos, organizemos a nossa família, a nossa sociedade, façamo-las unidas em torno de propósitos comuns, aprendendo a encontrar na individualidade de cada um a força de todos!

E assim foi. Capacidade técnica e linguagem. Quando pensei nestes dois sinais tão fundamentais da “inteligência” do Homo sapiens, segredos do seu sucesso evolutivo, lembrei-me de Mercúrio. O mensageiro dos deuses é quem rege a capacidade técnica (Virgem) e a linguagem (Gémeos). Observando o Zodíaco, encontramos Caranguejo e Leão entre Gémeos e Virgem. Leão que é regido pelo Sol, o Ego. 

Caranguejo, regido pela Lua, o Inconsciente. Daí que não seja completamente despropositado pensar na evolução do Homem nestes termos, percorrendo o Zodíaco em ambas as direcções (sentido horário e anti-horário) a partir de Leão e Caranguejo. 



Nestes dois signos reside o cerne de qualquer Homo sapiens, Ego e Inconsciente. Depois, com Mercúrio, linguagem (Gémeos) e capacidade técnica (Virgem) são desenvolvidas como forma de adaptação ao Outro e ao mundo material. Em Vénus, encontramos outra etapa da evolução, o aprender a gerir os recursos naturais ou produzidos (Touro) e os afectos envolvidos nas relações humanas (Balança). Na dupla Marte-Plutão, uma das mais difíceis lições: o impulso para a conquista do novo (Carneiro) traz consigo o imperativo de saber lidar com a Morte, e com isso dominar o medo do Desconhecido (Escorpião). Em Júpiter e Neptuno, a essência da sociedade ganha forma sob as leis morais que aspiram à Utopia (Sagitário), tantas vezes indissociáveis da ligação ao Absoluto que é objectivo último do desenvolvimento da espiritualidade em cada Homo sapiens (Peixes). E, finalmente, eis-nos chegados, seres humanos, a este ano de 2009, que é de Aquário como é de Capricórnio por muitas razões. E por mais uma: a oposição Saturno-Urano que se tem vindo a observar nos céus desde 2008 e até 2010, coloca-nos, Humanidade, perante mais um dilema da etapa evolutiva, talvez o derradeiro dilema. Aquele que opõe a liberdade individual à responsabilidade colectiva. Quantos erros têm sido cometidos em nome de uma e de outra? Quantas pessoas agem irracionalmente para prejuízo de muitos? Quantos governos oprimem os seus cidadãos em nome do “bem comum”? Quantos mais erros serão necessários até que todos nós, Homo sapiens, sejamos capazes de honrar o longo Passado evolutivo que nos trouxe até aqui, reencontrando o equilíbrio que temos vindo a abandonar desde que iniciámos a jornada pela “inteligência”, o equilíbrio que nos é tão essencial como miraculoso… Nas palavras de Nietzsche, o ser humano é uma corda estendida sobre o abismo, entre o Animal e o Divino. A meu ver, isso não significa que estamos predestinados a “dominar o mundo” (que arrogante, essa “inteligência”!), que podemos p.ex. controlar alterações climáticas (que acontecem desde que o mundo é mundo, independentemente das causas ou das consequências… a atmosfera desconhece esta nossa “inteligência”, não lhe presta vassalagem). O Mundo, meus congéneres de espécie, não é o nosso parque de diversões, campo de treino para o constante desenvolvimento desta “inteligência” que tanto veneramos, qual Santo Graal da evolução… O Mundo é um milagre. E cada um de nós, Homo sapiens, fomos convidados a participar, através não tanto da Inteligência como da Consciência da centelha divina que todos temos, e que nos torna parte ínfima mas fundamental desse milagre.

Conheça-se a si próprio, honre a sua espécie, e participe activamente nesta caminhada evolutiva que se iniciou há 200.000 anos. Seja um Homo sapiens.

domingo, 5 de abril de 2009

Comentário a'O Dever de Crowley

"É preciso ter ainda caos dentro de si para poder dar à luz uma estrela dançante." 

Friedrich Nietzsche (filósofo alemão, 1844-1900) 

in Assim Falou Zaratustra


Antes de mais, agradeço ao Léo os comentários (e que venham mais! ;-) Como ambos mereciam uma cuidada resposta, cá vai a primeira.

A palavra “thelema” é de origem grega, e pode ser entendida como um substantivo, “vontade” (=will), ou como um verbo, “querer” (=to will). Nos primeiros escritos cristãos, essa palavra era utilizada como referência à vontade de Deus ou à vontade do ser humano. Na obra Gargantua e Pantagruel, do francês seiscentista François Rabelais, a Abadia de Thelema vive de acordo com uma única regra: “Fay ce que vouldras” (=”Do what thou wilt”, “Faz o que quiserdes”). O mote foi utilizado mais tarde, no séc. XVIII, pelo restrito Hellfire Club, um grupo de espaços exclusivamente frequentados pelas figuras mais destacadas da sociedade londrina.

Em 1904, Aleister Crowley recupera a palavra Thelema como designação para o sistema filosófico e místico que viria a desenvolver em diversas obras (a começar pel’ O Livro da Lei), numa síntese muito personalizada do Ocultismo, Misticismo Oriental e Misticismo Ocidental (sobretudo a Qabalah). Grande parte da obra de Crowley versa sobre temas relacionados com a “sua” Thelema. O “Dever”, como “Liber Oz” e “Liber II”, referem aspectos da conduta individual a seguir por todo o adepto da Thelema, embora o próprio Crowley abominasse qualquer tipo de ética formal:

 

"There are no "standards of Right". Ethics is balderdash. Each Star must go on its own orbit. To hell with "moral principle"; there is no such thing."

(in Liber AL vel Legis)


Não existem “padrões do Bem”. Ética é non-sense. Cada Estrela deve seguir a sua própria órbita. Para o diabo com o “princípio moral”; não existe tal coisa.


O Dever divide-se em quatro grandes temas: O Dever para consigo próprio; O Dever para com os Outros; O Dever para com a Humanidade; e O Dever para com todos os Seres e Coisas.

E agora os comentários:

A. O Dever para consigo próprio

Crowley defende que cada indivíduo se coloque no centro do seu próprio Universo. Pode parecer egomania, mas não é. Na ausência de uma verdade absoluta na qual possamos acreditar sem qualquer margem para dúvidas, aquilo com que cada um de nós conta é consigo próprio. Cada um de nós é um milagre que merece ser descoberto, cujas qualidades devem ser exploradas e desenvolvidas, criteriosamente analisadas e equilibradas umas em relação às outras. Não faz isto todo o sentido? Como podemos aspirar a ser pessoas válidas e felizes se vivemos na ignorância do nosso próprio Eu? A maior viagem de todas é a da auto-descoberta, e por isso o seu objectivo deve ser colocado acima de tudo, no centro do Universo, quer chamemos esse objectivo de “Eu”, ou de “Alma”, ou de qualquer outra coisa. “Contempla a tua própria Natureza”, prossegue Crowley. “Encontra o teu propósito, estende o domínio da tua consciência”: consequências naturais do auto-conhecimento. E finalmente, “não permitas que o propósito de outro Ser interfira com o teu, não reprimas os verdadeiros instintos da tua Natureza, e rejubila!” Confia em ti próprio, aceita-te como és, e admira o milagre que és tu e a tua vida. “Remember all ye that existence is pure joy”. Há como contrariar isto? 

B. O Dever para com os Outros

Se dúvidas houvesse quanto ao “egoísmo” hipoteticamente manifestado na parte A, aqui Crowley desfaz as dúvidas. O Amor acima de tudo, o Amor que destrói a ilusão da separação entre nós e os outros, entre nós e tudo o resto. “Se preciso for, lutai como irmãos, provai o mérito das vossas posições pelo confronto de energias criativas.” Que mal há num pouco de “competição saudável”? Muito se pode aprender com a discussão de argumentos, muito mais haverá para encontrar naqueles que discordam de nós do que naqueles que a tudo dizem “sim”. Não interferir com o propósito dos Outros: porque seguir a própria Vontade não implica fazer TUDO, mas ser livre respeitando a liberdade alheia. Se outra pessoa sentir dificuldades em compreender-se, pode ser ajudada, especialmente se a sua ignorância a impede de compreender o seu verdadeiro propósito. Mas com cuidado, usando de bom senso e muita experiência. “To influence another is to leave one's citadel unguarded; and the attempt commonly ends in losing one's own self-supremacy.” E finalmente, como antes reconhecemos a nossa perfeição individual, devemos também reconhecer a perfeição do Outro. Cada homem e cada mulher são uma Estrela. Cada pessoa é o centro de um Universo, cada um desses Universos absolutamente único e nada comparáveis entre si.

C. O Dever para com a Humanidade

D. O Dever para com todos os Seres e Coisas

Aqui é que a aplicação da Thelema se começa a complicar… Não me parece que se trate de Anarquia per si, porque seria sempre necessário algum tipo de organização para que as coisas práticas funcionassem. Mas se um Governo funcionar de forma tão racional como pretende Crowley que todos nos “funcionemos”, o que pode correr mal? Não sei, mas vou continuar a pensar nisso… mesmo que nada de significativo pudesse correr mal, para lá chegarmos seria preciso uma emissão “thelemática” em simultâneo para “sintonizar” as cabeças de muitos seres humanos. Parece lavagem cerebral? Sinceramente, e dum ponto de vista estritamente prático, não vejo outra solução ;-) Ainda assim, e num exercício de pura especulação utópica, seria interessante viver numa sociedade de homens e mulheres livres, genuinamente empenhados no seu “dever crowliano”, para consigo próprios e para com os outros. Seria de facto extraordinário viver num espaço com tantos graus de liberdade, em que cada indivíduo fosse suficientemente racional para escolher os seus próprios “dogmas”, sabendo que de verdades relativas se tratam e nada mais… Viver observando cada milagre da existência, e tendo a oportunidade de partilhar todas essas experiências únicas com outros indivíduos, também eles entusiasticamente empenhados na sua própria viagem.


Do what thou wilt shall be the whole of the Law.


PS- Aguardo os vossos comentários ;-) 

sexta-feira, 3 de abril de 2009

A propósito do Twitter

A aplicação electrónica de que se fala nos dias que correm é o Twitter. A sua odisseia é única e, em grande medida, não tão extraordinária no mundo da cultura online. O Twitter começou por ser uma aplicação que permitia a podcasters comunicarem através de podcast. Esta primeira utilização não teve grande aderência, mas alguém percebeu que havia ali um enorme potencial inexplorado. O Twitter pretende revolucionar a Internet como uma forma ultra-rápida de comunicar e, mais importante que isso, de agregar utilizadores e as suas opiniões em torno de emissores de informação já implementados, desde os blogs mais radicais aos meios de comunicação mainstream. Para o típico “velho do Restelo” às apalpadelas neste séc.XXI, este distanciamento da intimidade via Internet com tecnologias como o Twitter (no qual pensamentos e acções são reduzidos a meros 140 caracteres) não é nada reconfortante. No entanto, em termos de puro marketing e considerando uma perspectiva estritamente direccionada para a acção, o Twitter é pura dinamite. 

Muitos estudiosos de Astrologia consideram 2009 o Ano de Aquário, e nesse contexto as tecnologias que, como o Twitter, permitem a construção de complexas interacções omni-dimensionais entre uma infinidade de indivíduos, vão tomar de assalto o palco principal da sociedade. A premissa básica do Twitter é a de que as pessoas seguem o quotidiano umas das outras, através de mensagens curtas com actualização regular (os chamados “Tweets”). Um tweet serve para dizer o que estamos a fazer, a pensar, que vídeo, música, blog nos chamou à atenção recentemente, etc etc ETC. O poder do tweet reside na sua brevidade. Directo ao assunto. Permite divulgar conteúdos com uma rapidez muito maior: quanto mais pessoas seguirem os tweets de um determinado utilizador, maior é a influência desse utilizador a larga escala como publicitador de conteúdos. Se uma pessoa estiver ligada a um grupo de Tweeters apropriado àquilo que quer divulgar (p.ex. pessoas que se interessam por Astrologia), basta acender com um tweet o rastilho do interesse por um determinado site de Astrologia para que as visitas a esse site aumentem exponencialmente. Que extraordinariamente Aquariano, não? No mundo Twitter, não existe qualquer hierarquia, e parece reinar um código informal: deves simultaneamente ser seguidor e líder. No universo Twitter perfeito, existem tantos seguidores quantos líderes. 

Isto suscita uma questão interessante: Será a emergência do Twitter o prenúncio de uma mudança social de maior magnitude? Será esta uma tecnologia verdadeiramente democratizante, que aponta para o reconhecimento colectivo do Eu? Ou será apenas mais um passo no processo de erosão da nossa capacidade de nos relacionarmos uns com os outros, uma vício sedutor porém redutor que reflecte o aprofundar da alienação e da solidão que afectam a nossa cultura? Poderá ser ambos? E isto pode bem ser apenas o começo. Observem atentamente o surgimento de novas tecnologias que nos ajudarão a conectar, à velocidade da luz, ondas de complexidade e novidade, neste Ano de Aquário.


Adaptado de: Is Twitter The Killer App For Jupiter In Aquarius? por Robert Phoenix