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segunda-feira, 3 de junho de 2013

Rotinas & Rituais

A maior parte dos nossos dias tem uma cadência previsível. Com muitas possíveis variações, essa cadência inclui sono e vigília, comer e tomar banho, trabalho e repouso. A rotina é alvo frequente de queixume geral - diz que abafa a criatividade, mina a espontaneidade, arrefece a paixão e até causa indigestão se ousamos experimentar algum pitéu mais arrojado. 

Mas se o ter rotinas é algo tão vulgar no comportamento humano, é porque elas são absolutamente necessárias. Em primeiro lugar, há algo de profundamente reconfortante em tudo o que é previsível e ritualístico. Por um lado, sabemos quando e como vai ocorrer aquele pedacinho do nosso dia (é previsível). Depois, estamos lá nós a assistir ao pedacinho, ou a fazer acontecê-lo. É uma espécie de ordem premeditada que nos torna produtivos e eficientes.

E não é por acaso. Qualquer organismo vivo se constroi sobre rotinas. A das reacções bioquímicas ao nível da célula, da multiplicação e morte das células, dos órgãos em perfeita sintonia de funções uns com os outros... Pois se até o batimento cardíaco obedece à rotina de um ritmo...! Em termos estritamente biológicos, a vida não é possível sem uma grande dose de previsibilidade - afinal, o que são as células cancerígenas senão entidades demasiado "espontâneas"...? 

Astrologicamente, a nossa relação com a rotina pode ser analisada a partir da casa VI do mapa astrológico. O signo onde começa esta casa e os planetas que aí estão mostram o grau de rigidez das nossas rotinas, de que modo nos organizamos e como funcionamos em organizações hierarquizadas (principalmente o local de trabalho). Com afinidade natural pelo signo de Virgem, a casa VI reflecte também o relacionamento que temos com a saúde, com o bom ritmo das rotinas do nosso organismo. E de uma forma mais abrangente indica como aperfeiçoamos a nossa capacidade de actuar com eficácia e utilidade no mundo real - ou seja, o nosso trabalho.

Foi Carl Jung quem há muito tempo argumento que o mundo da matéria (Terra) estaria naturalmente oposto ao mundo da intuição (Fogo) - ou pelo menos a nossa percepção humana assim os colocaria, em extremos opostos. A velha discussão entre rotina e criatividade é um bom exemplo deste aparente conflito. Afinal, qualquer pessoa sentirá que quanto mais sobrecarregada é a sua rotina, quanto mais se vê forçada a cumprir horários e tarefas, menos disponibilidade mental e emocional tem para expressar o seu lado criativo, intuitivo, espiritual. 

E assim passamos pesados dias a fio, como se o fardo das nossas responsabilidades quase nos enterrasse a cada passo que damos no fiel cumprimento das rotinas que atribuimos a nós mesmos. Alguns sentirão mais do que outros a falta de espaço/tempo para ser espontâneo, para não ter de seguir nenhum roteiro predefinido e obedecer apenas ao impulso do momento. Mas parece-me que, consciente ou inconscientemente, todos sentimos falta disso, nem que seja uma vez por dia.

É nessa altura que, desviando-nos do que quer que estávamos a fazer, acabamos por ir parar ao e-mail, ao Facebook ou ao YouTube, ou em frente à TV a ver uma ficção qualquer. A nossa sede de criatividade leva-nos a fugir de rotinas demasiado sobrecarregadas. Não que os nossos destinos de escape sejam fonte de esfusiante êxtase, antes pelo contrário. Adormecem, anestesiam, fazem com que a rotina se torne um pouco menos penosa, um pouco mais suportável. 

Nada de mal nisso. Mas porque não conciliar rotina e criatividade? Afinal, sem rotina não há como tornar real o impulso criativo, e sem criatividade a rotina torna-se estéril, auto-limitada. Olhando mais profundamente o signo de Virgem, encontramos o conceito de "ritual", e ritual não é apenas uma coisa que se faz repetidamente, previsivelmente. Não é mais uma rotina. Ritual é qualquer coisa de sagrado. São gestos simples que trazem a nossa consciência para o momento presente, resgatando-a de arrependimentos passados (ai que me esqueci de ir à lavandaria!) ou de preocupações futuras (ai que ainda tenho de passar no supermercado!). 

Enquanto vivemos apenas o momento presente, assistimos à presença de qualquer coisa transcendente no plano material. Escovar os dentes não é apenas escovar os dentes: é sentir a escova nas gengivas, o sabor do dentífrico nas papilas gustativas, a mão que segura a escova e os músculos do braço que se contraem para realizar os movimentos necessários à escovagem. Que milagre, existir tal coisa como papilas gustativas, e músculos, e gel dentífrico. E que eficiência todo este ritual demonstra em obter dentes mais limpos. Mais sãos. 

Se o Universo tende a gerar caos (interpretação criativa da 2ª Lei da Termodinâmica ;-), nada existe de banal no acto de criar ordem, muito pelo contrário. Rotina, saúde, organização, trabalho... são tudo expressões de um ritual muito especial, que é o de trazer ao plano material os inspirados impulsos que nos dá a nossa criatividade. Dar-lhes forma, estrutura, ordem. À nossa maneira (leia-se "escala") somos todos como pequenos deuses, intervindo em cada instante para aperfeiçoar aquilo que já existe ao mesmo tempo que criamos algo de novo. 

Experimente então transformar algumas das suas tarefas diárias em momentos solenes. Só por um instante, concentre-se apenas no que está a fazer. Ligue os seus cinco sentidos à finalidade da tarefa (este gesto de escovar os dentes vai tornar o meu corpo mais limpo, mais saudável). E no final, sinta-se grato por ter dedicado o seu esforço a um Universo mais ordenado. O Universo, certamente, agradece-lhe. 

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Entre 8 Paredes: da Privacidade à Intimidade

Há algum tempo assisti a um programa de TV onde se discutia se e quando deve um casal começar a partilhar os seus momentos de... expulsão de gases intestinais (chamemos-lhe assim). Entre muitas e variadas opiniões, algumas pessoas defendiam a inviolabilidade do espaço nasal e auditivo do parceiro, afirmando ser uma questão fundamental de respeito mútuo a não emissão de substâncias gasosas de origem digestiva, com ou sem ruído associado.

Freud teria por certo interessantes bitaites e soundbytes a adicionar a esta questão, que   tem muito mais significado implícito do que meros ditames de boa educação ou regras de etiqueta conjugal. A mim, fez-me reflectir sobre os conceitos de privacidade e intimidade na esfera dos relacionamentos afectivos. 

No mapa astrológico, a casa VIII mostra o tipo de experiência vivemos quando contactamos intimamente com outra pessoa. O que é isso de "contacto íntimo"? É sexo, claro. Mas também o contacto entre vulnerabilidades, traumas passados, tabus. Neste verdadeiro "quarto de cama" astrológico, deitamo-nos com os esqueletos que costumam estar bem escondidos no armário, com toda a privacidade. E se deixámos alguém entrar? Acabamos por partilhar a cama com essa pessoa, mais os seus esqueletos.

E o inevitável acontece. Descobrem que temos rugas ou celulite, roupa interior desinteressante ou pijamas largos demais, que ressonamos, que nunca repomos o rolo de papel higiénico e que deixamos as peúgas sujas espalhadas pelo chão. Ah, e que temos gases mal-cheirosos.

Tudo isto faz parte do que se chama, sucintamente, a "rotina" do casal. Mas de início nada tem de rotineiro! Queremos agradar, queremos ser a melhor versão de nós mesmos. Que fazer então com todo o conteúdo da casa VIII? Foi lá que guardámos as humilhações da infância, a curiosidade sexual proibida na adolescência, tudo o que sempre nos recriminaram e proibiram, nos fizeram crer que era mau, sujo, imoral. Não deixes tudo desarrumado, não sejas gord@, não sejas porc@, não sejas indecente. E de repente está outra pessoa à porta do nosso quarto, espreitando para dentro, e que fazemos nós? Disfarçamos enquanto for humanamente possível, claro! ;-)

Mas não há intimidade sem partilha integral, verdadeira. E partilhar é, antes de mais, mostrarmo-nos vulneráveis. Aqui me tens, sou assim por dentro. Às vezes um espetáculo tristonho, patético, feio e incorrecto. Outras vezes, nem tanto. Ainda me queres? Ainda me achas dign@ de amor?

Claro que sim! A magia da intimidade é encontrarmos na outra pessoa tudo o que de tristonho, patético, feio e incorrecto tentamos esconder em nós. E por isso não posso evitar olhar com desconfiança para essas teorias que defendem uma "heróica contenção anal" para bem do relacionamento. Sem sangue, suor e lágrimas, vísceras e tudo, de que serve um relacionamento? Que desafios coloca? Que parte profunda de nós comove e transforma?

Desse estimulante tema televisionado, prefiro guardar o exemplo de um casal que celebra toda a demonstração de flatulência com um jocoso comentário humorístico. Estilo "Chiça, que até os sismógrafos em Pequim registaram esse abalo!" É sempre terapêutico usar de um pouco de Ar (leia-se, sentido de humor) para relativizar a importância às vezes exagerada de questões de Água (leia-se, emocionalmente densas). O riso partilhado pode fazer tanto ou mais pela intimidade do casal do que uma tórrida noite de amor. E ajuda a "quebrar o gelo" quando, deitados na cama com os nossos medos, convidamos a entrar o hesitante amante que espreita da porta dizendo-lhe "Queres ser meu cúmplice? Há sempre espaço para mais alguns esqueletos."

terça-feira, 28 de maio de 2013

Mudar de Casa, Transformar a Vida

O anseio por um lar vive em todos nós... 
um lugar seguro onde possamos existir tal como somos sem sermos questionados.

Maya Angelou (Escritora Norte-Americana)

Mudar de casa é uma experiência pela qual a maioria das pessoas acaba por passar, mais cedo ou mais tarde nas suas vidas. 

Enquanto crianças e adolescentes, navegamos na maré profissional e conjugal dos nossos pais. Nessa fase mudar de casa sinaliza uma alteração importante na estrutura familiar (casamentos, divórcios,...) e também, muitas vezes, na escola que se frequenta e nas amizades que se dissolvem para ver nascer afinidades mais favorecidas pela proximidade geográfica. Na adolescência, a nossa verdadeira casa é o nosso quarto, o refúgio que é mesmo só nosso e onde procuramos solitude para enfrentar as questões do crescimento que nos vão desassossegando a cada instante - ou privacidade para estar com os amigos longe de olhares inquisidores.  

Quando nos tornamos adultos independentes, a mudança para a nossa casa é o primeiro passo no sentido de afirmarmos a nossa auto-suficiência para nós mesmos, para a nossa família, para a comunidade inteira. Não se trata apenas de conseguir pagar as contas, mas de ter autonomia suficiente para lidar com todas as responsabilidades inerentes. E, mais do que isso, é aceitar essas responsabilidades de bom grado, não como um fardo desconfortável (ai a roupa suja, que falta faz aqui a mamã...!) mas como um prémio orgulhosamente conquistado com esforço e maturidade.

E o que significa a nossa casa, o nosso lar? Algumas pessoas encontram aí muita da segurança material de que necessitam - uma casa de Terra. 
Este é o fruto do meu trabalho, a fortaleza onde encontro o conforto, a estabilidade e a organização que me ajudam a lidar com as incertezas do mundo lá fora.
Outros vêem a sua casa como um ninho de emoções - uma casa de Água.
Este é o meu porto de abrigo, onde reúno as pessoas que amo e aprofundo os laços que nos unem, onde partilho os meus sentimentos e deixo que me inundem de emoções alheias.
Haverá quem encare a sua casa como um campo de liberdade mental - uma casa de Ar.
Este é o espaço onde sou livre de dizer o que penso, de deixar as minhas ideias fluir para o papel ou para os ouvidos daqueles que me entendem, de procurar respostas para aquilo que não sei e encontrar no que os outros me dizem uma fonte permanente de novas aprendizagens.
E há ainda quem veja na sua casa um centro de inspiração criativa - uma casa de Fogo.
Este é o aconchego que me aquece, que me anima, que me motiva para conquistar o mundo levando comigo aqueles que me inspiram e fazendo-os sentir-se tão especiais como de facto são.

Por isso, o processo psicológico e emocional de mudar de casa pode ter muitos significados diferentes, ser simples ou complicado, rápido ou demorado, libertador ou aterrador (ou um bocadinho de tudo!) Qualquer que seja a razão objectiva por que tomemos essa decisão (alterações financeiras, familiares, profissionais...), ajuda muito pensar no que constitui de facto a nossa casa, do que fugimos quando nela nos refugiamos e de que forma podemos expandir lentamente as suas fronteiras. 

Para deixar entrar novas pessoas e experiências que nos enriqueçam, para aprendermos a sentir-nos mais confortáveis, mais amados, mais compreendidos e mais inspirados. Para que na nossa pequena casa haja lugar para o mundo inteiro.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Os Elementos: Terra que dá Frutos

Tudo tem o seu tempo determinado,
e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.
Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou;


A vantagem dos homens sobre os animais não é nenhuma,
porque todos são vaidade.
Todos vão para um lugar;
todos foram feitos do pó, e todos voltarão ao pó.
Assim que tenho visto que não há coisa melhor do que alegrar-se o homem nas suas obras, porque essa é a sua porção;
pois quem o fará voltar para ver o que será depois dele? 
Eclesiastes 3:1-22 (excertos)

Somos muitas vezes bombardeados com o "cliché" de estarmos todos cada vez mais materialistas. É o dinheiro que move o mundo... ou talvez a mais recente versão do iPhone, sei lá. Comprar, gastar, ter, parecem verbos prioritários para muita gente, enquanto outros pretensos "iluminados" negam qualquer ambição terrena e se entregam a promessas vãs de como-ser-espiritual-em-10-passos.

O elemento Terra é talvez aquele que mais se encontra polarizado nos tempos actuais. É o ter tudo o que dá conforto e status, ou não ter nada desses vícios que corrompem pela ganância e pela avareza. É saturar o organismo com "paletes" de calorias, ou matá-lo lentamente através de distúrbios alimentares (que os há para todos os gostos). 

São os cientistas que nos impingem uma visão mecanicista da realidade em que o ser humano é rei e senhor de todo o planeta (veja-se o fundamentalismo por detrás do Aquecimento Global, como se por modelos e teorias nos tornássemos micro-deuses de ventos e monções). São os fanáticos que proibem o ensino da Teoria da Evolução pois a Bíblia é para ser entendida li-te-ral-men-te (dai-lhes alguma imaginaçãozita, Senhor...!)

A maioria das manifestações de Terra reveste-se de uma profunda aversão à mudança. Terra pressupõe estabilidade, e ninguém quer assistir ao próprio envelhecimento, encarar a sua mortalidade ou a daqueles que ama. Queremos o nosso dinheiro seguro no banco, o tecto de nossa casa protegendo as nossas cabeças dia após dia. Queremos ordem, organização, saber com o que contamos amanhã e daqui a um ano. E nada há de errado com isso: só lutando por construir algo sólido podemos aspirar a deixar marcas permanentes no mundo. De que serve ter ideias brilhantes se não as concretizamos em algo palpável...?

Nesta dualidade reside a essência do elemento Terra, e a razão pela qual continuamos a debater-nos para encontrar o equilíbrio no plano material. Ter tudo porque só assim estamos seguros, ou não ter nada porque na realidade nada nos protege do que está para vir?

Não é fácil encontrar um meio termo. Gosto de imaginar que todo o mundo material é como um pomar. Há que saber semear no tempo certo, colher no tempo certo. Ultrapassar períodos de seca e períodos de cheia com paciência e determinação. Conhecer profundamente aquilo que se planta, respeitar a essência da semente (a de maçã nunca vai gerar um limoeiro!) Prever atempadamente as etapas de florescimento, polinização, maturação do fruto, adequando o adubo e a rega às necessidades de cada etapa. Acima de tudo, há que respeitar a sabedoria infinita da Natureza. E saber esperar.

É isto que fazem os empresários bem sucedidos, não? Em vez de frutos, colhem dinheiro, sucesso profissional e material. Para tal usam do mesmo sentido de responsabilidade para com os seus deveres, da mesma dedicação aos seus projectos, da mesma sensatez na gestão de imprevistos e contratempos. Menos poético falar de dinheiro do que de frutos? Talvez, mas na realidade é tudo o mesmo: dádivas de Terra, da Terra, pequenos pacotes de energia em formato matéria

Não é o dinheiro em si que nos torna materialistas. É o não entendermos que o dinheiro não é em si mesmo um objectivo final, mas apenas um instrumento através do qual honramos a Terra que há em nós e aplicamos os nossos melhores talentos e saberes para construir algo que dure. Que seja útil para as outras pessoas. Que valha o nosso maior e melhor esforço.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Os Elementos: Fogo, Optimismo e Pensamento Positivo

Recebi por mail o anúncio de um “curso de pensamento positivo” que será na verdade uma introdução ao Raja Yoga. Bem mais interessante o que realmente é do que pretende ser, não? A expressão “pensamento positivo” deriva do conceito de que o pensamento humano pode alterar a realidade exterior sem recurso à acção directa sobre essa realidade. As origens deste conceito remontam a Platão, e ao longo dos tempos muitos filósofos, escritores e místicos deambularam sobre o tema (aqui fica um link para as obras mais influentes dedicadas ao assunto).

Nietzsche (filósofo alemão, 1844-1900) defendeu ideias muito interessantes a respeito do poder da vontade, e utilizou uma interpretação invulgar (ainda que perfeitamente lógica) do mito de Pandora para ilustrá-las. Na mitologia grega, Pandora foi a primeira mulher, criada em co-autoria por vários deuses. A certa altura, Zeus encarregou-a de um “frasco” (no original não seria uma “caixa”) onde estavam guardados todos os males do mundo e que nunca deveria ser aberto. Mas a curiosidade de Pandora levou a melhor, o jarro foi aberto, e toda a espécie de males libertada sobre a Humanidade. No fundo do jarro terá ficado, apenas, a esperança. Nietzsche defende então que a esperança é uma miragem e o maior problema da Humanidade, e que por isso permaneceu dentro do jarro: é a única desgraça que não se propaga “voando” de pessoa em pessoa, mas insinuando-se e penetrando profundamente na mente humano.


As críticas de Nietzsche ao carácter pernicioso da esperança assumem especial pertinência quando se trata de observar, tão racionalmente quanto possível, o movimento do “pensamento positivo” que está hoje por todo o lado. O problema básico com ambos os conceitos é o mesmo: ao acreditar que algo terá um desfecho positivo, corremos sérios riscos de nos demitirmos da responsabilidade de agir para que esse desfecho positivo de facto se concretize. Nesse sentido, o pensamento positivo é ainda mais tóxico: quando as coisas correm mal, o falhanço é atribuído pelo indivíduo à falta de capacidade para gerar pensamentos positivos eficazes. Saem assim reforçados os sentimentos de inépcia e de fracasso pessoal que deprimem e sustentam a dependência emocional de soluções fáceis para a dificuldade em lidar com a frustração.

A literatura de auto-ajuda à la carte, que teve o seu auge (espero eu!) com a publicação d’O Segredo, mais não fez do que distorcer algumas leis herméticas para dar à generalidade do público (leiam-se “consumidores”) um pacote apetecível de crença na ideia de que tudo lhes é possível, bastando quererem muito muito e colocarem nesse querer todos os seus recursos emocionais/mentais/espirituais. E então porque é que isso não há-de funcionar, se tudo no Universo é Mental (1º Princípio Hermético)?


- Porque para cada coisa há o seu oposto (4ºPrincípio Hermético – não faz muito sentido usar os princípios que nos dão jeito e descartar os que não encaixam assim tão bem na teoria, pois não?). Com cada desejo intenso de ter algo – pessoa, situação, objecto,… - coexiste dentro de nós o medo igualmente intenso de não ter esse algo. Quando afirmamos com todas as forças “Quero isto”, há uma sombra nessa afirmação luminosa que tentamos varrer pra debaixo do tapete da mente consciente: “Receio nunca ter isto”. Ambas as afirmações partem de nós, indissociáveis, e o resultado prático observável será que uma anula a outra. 

Certas correntes do Ocultismo moderno afirmam que para executar verdadeira Magia (=”a ciência e a arte de causar Mudança em conformidade com a Vontade” – Aleister Crowley) é necessário:

1º Atingir um estado de gnose (leia-se "transe") em que a actividade da mente racional é temporariamente suspensa de modo a que se possa emitir um pensamento único, unidireccional, expressão pura de uma só vontade (“Quero isto!”) sem as dúvidas/medos do seu oposto (geralmente produzidos pela mente racional).
2º Abandonar a necessidade que temos de ver a nossa vontade concretizada. Idealmente, esquecer que alguma dia quisemos aquilo. Porque ao regressar ao estado habitual, a mente racional volta a produzir os mesmos pensamentos polarizados (desejo/medo), e isso acabará por interferir com a concretização do pensamento unidireccional anteriormente expresso.

Outra forma de conseguir as coisas poderá ter um interesse místico-metafísico substancialmente inferior, mas ser muitíssimo mais eficaz do que todo o stock da FNAC em livros de auto-ajuda: AGIR. Nesta era de busca incessante pela espiritualidade, muitos de nós tendem a envolver-se demasiado com o domínio das coisas invisíveis e esquecer que aqui estamos em corpos materiais que interagem com o “mundo real” (as pessoas na nossa vida, as contas para pagar, o trabalho e a falta dele, música e arte para nos elevar o espírito!) Nessa interacção ficamos a conhecer os nossos talentos e enfrentamos as nossas dificuldades. C’est la vie, e ainda bem que assim é (digo eu): vir a este mundo, perceber que temos muito trabalho pela frente e choramingarmos por Deus/Universo para que nos tire da caca será um bocadito imaturo em termos espirituais e muitíssimo improdutivo em termos práticos, não?

E para lidar com o mundo material, há uma coisa óptima chamada “optimismo” (passe o pleonasmo). Ser optimista não é a mesma coisa que ter esperança. O optimismo pode fazer parte daquilo que SOMOS, a esperança é algo que podemos TER ou não, consoante dela sintamos necessidade. O esperançoso espera que tudo aconteça de acordo com a sua vontade, crendo e querendo que a realidade se molde às suas expectativas. O optimista adapta-se à realidade, qualquer que ela seja, imbuído de uma auto-confiança que o torna emocionalmente resiliente perante os altos e baixos da vida. O que quer que aconteça, saberei tirar o melhor partido da situação (ou como dizem os ingleses, “every cloud has a silver lining”).

Astrologicamente, a atitude optimista está associada ao elemento Fogo e aos signos por ele inspirados: Carneiro, Leão e Sagitário. As pessoas que no seu mapa astrológico têm planetas em signos de Fogo (com maior ou menor preponderância atendendo às restantes componentes do mapa) tendem a adoptar uma atitude optimista na definição da sua identidade (Sol), na reacção emocional às circunstâncias (Lua), na forma de agir (Marte) ou de seduzir (Vénus), etc. São os entusiastas, os “go-get-it”, os que encontram motivação extra em cada obstáculo que se lhes apresente, aqueles em quem a chama criativa parece nunca esmorecer (ainda que possa mudar de direcção várias vezes por dia ;-). Estas pessoas são generosas nas suas demonstrações de ânimo, e se souberem dosear tanta enegia (porque demasiado Fogo pode ofuscar todo e qualquer outro ego no raio de vários km), podem desenvolver o extraordinário talento de inspirar os outros, fazendo-os sentir especiais e capazes de agir decididamente sobre as suas próprias vidas.


Nem todos temos uma boa dose de Fogo, e é mesmo assim: só cá está quem cá faz falta. Se no entanto sentir falta de uma fonte extra de motivação, esqueça os livros de auto-ajuda e procure um bom amigo destes. Não terá grande paciência para ouvir os seus problemas, é certo, mas ajudá-l@-á a encontrar as gargalhadas que dentro de si julgava perdidas.


PS- Este post é dedicado a todos carneiros, leões e sagitários, de Sol ou de outro planeta qualquer, declarados ou encapotados, que por este mundo espalham a sua chama interior sem pudor pela(s) crise(s) de dinheiro e de valores e de existência, como se não houvesse amanhã e hoje fôssemos apenas crianças brincando na praia.



Fonte: Astrotheme.com
PS2- Friederich Nietzsche nasceu em 15 de Outubro de 1844, com o Sol em Balança. O trígono da Lua em Sagitário a Urano em Carneiro ajudam a perceber a sua profunda necessidade (Lua) de lutar por uma causa maior (Sagitário) revoltando-se contra a ideologia dominante da época e defendendo que apenas ao ser humano compete assumir as rédeas do seu próprio destino (Urano em Carneiro). Com Marte em conjunção ao Meio-do-Céu (MC) em Virgem no topo de um yod que envolve Plutão e Neptuno, Nietzsche atingiu grande notoriedade pública (MC) ao exercer um sentido crítico implacável (Marte em Virgem) perante aquilo que considerava ser a mediocridade do pensamento dominante das massas, defendendo sem reservas o poder individual (Plutão em Carneiro) e a libertação do ser humano dos dogmas religiosos que o inferiorizavam perante a existência de um Deus caprichoso (Neptuno em Aquário).