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domingo, 29 de abril de 2007

Introdução ao Tarot - Muito mais do que "Ler o Futuro"

O Tarot é um conjunto de cartas que pode ser utilizado em meditação, divinação ou estimulação psíquica. Alguns psicólogos consideram-no a versão medieval das Manchas de Rorshach, na medida em que constituem uma representação do conjunto de símbolos definidos por Jung como arquétipos de um Inconsciente Colectivo.


O Inconsciente Colectivo de C.G.Jung

“Todas as ideias mais poderosas da História podem ser atribuídas aos Arquétipos […], os conceitos de [religião], ciência, filosofia e ética não são excepção a essa regra.”

C.G. Jung



Jung atribuiu a designação “Inconsciente Colectivo” a um conjunto de conceitos fundamentais partilhados por todas as pessoas. Esses conceitos, os Arquétipos, estão intimamente relacionados com os elementos básicos da vida humana. São as formas sobre as quais estamos predispostos a organizar o mundo à nossa volta, conceitos como o de “deus”. Para Jung, o surgimento de imagens simbólicas na mente consciente – como ocorre em sonhos, visões e mitos – revelam a existência destes Arquétipos. Além disso, observa-se que símbolos idênticos apareceram em culturas muito diferentes, distantes no Espaço e no Tempo, o que aponta para uma origem inata dos Arquétipos: um Inconsciente Colectivo.

A este nível inconsciente, os Arquétipos reúnem experiências e encorajam tipos de comportamento adequados para uma determinada situação. Podemos sentir-nos inclinados, por exemplo, a “procurar” provas da existência de um “Deus” no mundo que nos rodeia, devido ao Arquétipo de “Deus” que todos temos inconscientemente presente. Outros exemplos de Arquétipos: Anima (a Mulher, tal como é desejada pelo Homem), Animus (o Homem, tal como é desejado pela Mulher), o Eu, a Criança Divina, o Velho Sábio, o Herói, a “Sombra” (o lado obscuro da natureza humana – inveja, ganância, etc).

Jung via as imagens do Tarot como provenientes dos Arquétipos de Transformação, inerentes ao processo de maturação psicológica do indivíduo. Esses incluem a Sombra, o Animus e a Anima, o Velho Sábio, o Herói, o Sacrifício, o Renascimento, a Mãe e o Eu. Na Psicologia Jungiana, estes arquétipos englobam as componentes dinâmicas mais significativas do Inconsciente, que afectam a psique humana de muitas e diversas formas.


O Tarot

O Tarot tradicional é um baralho de 78 cartas divididas em dois grandes grupos: Arcanos Maiores (Major Arcana) e Arcanos Menores (Minor Arcana) – Arcana é o plural de Arcanum, “segredo” ou “fechado” em latim. Os Arcanos Maiores são um grupo de 22 cartas contendo representações pictóricas de várias forças cósmicas como a Morte, a Justiça, a Força, e outras com simbolismo arquetípico. Os Arcanos Menores consistem em 56 cartas divididas em cartas numeradas e figuras de 4 naipes diferentes, cada um representando um Elemento: Paus/Bastões (Fogo), Copas (Água), Espadas (Ar) e Ouros/Pentáculos (Terra). Cada naipe possui quatro cartas figuradas (Rei, Rainha, Cavaleiro e Pagem) e 10 cartas numeradas (do Ás ao Dez). As cartas figuradas são geralmente utilizadas para representar pessoas, relacionamentos, finanças e energias, enquanto as cartas numeradas constituem oportunidades e lições mais ou menos específicas.

O Tarot foi em tempos considerado “o mais antigo Livro do Homem”. De acordo com a lenda, as cartas originais compreendiam capítulos de um livro conhecido pel’ “O Livro de Toth”. No Antigo Egipto, Toth era o Deus da Sabedoria e do Conhecimento, responsável pela transmissão ao Homem da Medicina, Astrologia, Linguagem, Arte, e várias ciências como a Matemática e a Engenharia. Os capítulos originais d’O Livro dos Mortos são atribuídos ao próprio Toth. Vários milhares de anos depois, o império Egípcio começou a ruir, altura em que Toth voltou a intervir: com o desejo de manter vivo o conhecimento que há milénios havia concedido ao seu povo, reuniu toda a sabedoria da civilização Egípcia numa série de 22 Tábuas, usando símbolos e imagens em vez de palavras. Estas Tábuas tornaram-se conhecidas como O Livro de Toth. À medida que o império ruía na decadência e na ignorância, as Tábuas terão sido levadas por um grupo de nómadas mais tarde conhecidos por “Ciganos”. Os Ciganos terão copiado os símbolos das Tábuas para cartas, produzindo assim os primeiros Arcanos Maiores do baralho de Tarot (Crowley, 1944; Papus, 1970; Schueler & Schueler, 1989).

Mitos aparte, o primeiro relato histórico de um baralho divinatório remonta aos escritos de um monge suíço do século XIV. O mais antigo baralho que se conhece é o baralho de Visconti, desenhado c.1441 por Filippo Visconti, Duque de Milão. De Itália, o conhecimento do Tarot foi depois levado para França e Suiça. O período de domínio da Inquisição no Sul da Europa foi particularmente difícil para aqueles que se dedicavam à divinação pelas cartas: o Tarot era considerado obra do Diabo, um acto de paganismo, e muitos baralhos foram destruídos. Só no séc. XVIII o Tarot foi elevado de vulgar atracção de feira a verdadeiro método divinatório, pela mão do ocultista francês Etteila, que desenho o primeiro baralho esotérico, adicionando símbolos astrológicos a cada uma das cartas. (Uma “súmula” dos baralhos franceses viria a ser publicada em 1930, por Paul Marteau, com a designação de Tarot de Marselha). Mais tarde, em meados do séc XIX, este interesse de Etteila pelo Tarot foi finalmente partilhado por outros ocultistas, sobretudo Eliphas Levi, que desenvolveu a ideia
das cartas enquanto “chaves místicas”, estabelecendo uma ponte entre o Tarot e a Árvore da Vida da Cabala (com a correspondência entre os 22 Arcanos Maiores e as 22 letras do alfabeto hebraico). Foi Levi quem introduziu o Tarot em Inglaterra, onde, até então, não havia qualquer tradição ou interesse a respeito do tema. A Ordem Hermética da Aurora Dourada (Golden Dawn), fundada em Inglaterra em 1888, criou o seu próprio baralho e colocou-o no centro de muitos dos seus rituais. O conhecimento adquirido e partilhado na Golden Dawn viria a dar origem a dois dos baralhos mais influentes do nosso tempo: o baralho Raider-Waite e o baralho Toth.

Em 1909, Arthur E. Waite, membro da Golden Dawn, publicou aquele que viria a tornar-se num dos baralhos mais populares no Ocidente. Com ilustrações de Pamela Coleman Smith, o baralho Raider-Waite foi o primeiro a incluir ilustrações completas em todas as cartas, incluindo os Arcanos Menores numerados. O seu simbolismo veio na linha do baralho da Golden Dawn, mas as imagens utilizadas são mais apelativas, facilitando o acesso ao significado mais profundo de cada carta.

Carta 0 - O Louco, no Baralho Rider-Waite


Aleister Crowley, um dos mais proeminentes membros da Golden Dawn, abandonou-a em 1907 para formar a sua própria organização. Em 1944, publicou uma versão muito própria do baralho de Tarot, em conjunto com uma espécie de manual intitulado O Livro de Toth. O baralho de Tarot de Toth, concebido por Crowley, reúne a simbologia das tradições Egípcia, Grega, Cristã e Oriental, sendo por isso, de acordo com alguns especialistas, muito mais útil do que outros baralhos contemporâneos que exploram um só ponto de vista cultural ou filosófico.



Carta 0 - O Louco, no baralho Toth



No início do terceiro milénio, existem centenas de baralhos de Tarot diferentes: cada um traduz a sensibilidade, a filosofia de vida, a visão mística do artista que o produziu. Independentemente da estética, o Tarot continua a ser muito mais do que um "meio" para "prever o Futuro": para quem estiver disposto a estudar o seu significado mais profundo, o Tarot pode tornar-se numa janela aberta para o Universo e para o interior nós próprios.


"O verdadeiro Tarot é Simbolismo; ele não fala outra linguagem, nem oferece outros sinais."

Arthur E. Waite


Fontes:

Chaos and the Psychological Symbolism of the Tarot, Gerald Schueler, Ph.D. (1997)
The Hermetic Order of the Golden Dawn

quinta-feira, 19 de abril de 2007

Cartomancia…


Poucos sabem mas as cartas normais que são usadas nos jogos populares, como a “sueca”, também são usadas para práticas divinatórias.



As 52 cartas, análogas aos arcanos menores do Tarot, são utilizadas em artes divinatórias há muitos séculos, desconhecendo-se a sua origem. No entanto, parece consensual que a Cartomancia que utiliza o baralho normal é posterior ao Tarot clássico como o dos Egípcios, Indianos e dos povos do Extremo Oriente.

Nas últimas décadas, o seu “mau uso” fez cair a Cartomancia num descrédito quase absoluto. Devido ao abuso de conhecimentos que muitos não possuíam, ocorreram muitas ramificações da Cartomancia, tendo sido esquecida a mais importante, a corrente mais popular/tradicional. A transmissão oral dos conhecimentos da Cartomancia também contribuiu para que os ensinamentos mais puros se perdessem, para além do fundamentalismo religioso que fez com que esta arte passasse a ser praticada em segredo para pequenos grupos (parentes e familiares próximos), por pessoas que passaram a ser conhecidas como “bruxas”, “feiticeiras” ou “curandeiras”.

Um dos povos que mais preservou esta prática foi o povo cigano, daí que a Cartomancia que não utiliza os baralhos de Tarot seja geralmente conhecida por Cartomancia Cigana ou Espanhola. Tal facto deve-se à cultura muito particular e genuína deste povo que luta por preservar os seus hábitos e costumes mais tradicionais.

Alguns estudiosos do tema afirmam que a Cartomancia com o baralho cigano não é mais do que uma representação simbólica da Astrologia tradicional. As cores predominantes, vermelho e preto, representam os dois pólos da energia: vermelho como sendo o pólo positivo, masculino, activo e quente como o Fogo e, em parte, o Ar; enquanto que o preto representa o pólo negativo, feminino, passivo e frio como a Água e a Terra. As 52 cartas correspondem às 52 semanas do ano, que numerologicamente conduzem ao número 7 (5 + 2 = 7), os dias da semana. O Sete também está ligado aos astros "principais" da Astrologia tradicional: Mercúrio, Vénus, Marte, Júpiter, Saturno, Lua e Sol. Por sua vez, as doze cartas com figuras (reis, damas e valetes) correspondem aos doze meses do ano solar e aos doze signos zodiacais. Já as treze cartas de cada naipe equivalem às treze lunações do ano. Além disso, os quatros naipes (Copas, Paus, Ouros e Epadas) estão associados aos Quatro Elementos da Natureza e às quatro Estações do Ano: as Copas correspondem ao elemento Água e à Primavera, os Paus correspondem ao elemento Fogo e ao Verão, os Ouros correspondem ao elemento Terra e ao Outono e as Espadas correspondem ao elemento Ar e ao Inverno.

Algumas novas correntes apenas utilizam 32 cartas ou 36, afirmando diminuir a redundância de informação que se repete na combinação do significado de algumas cartas. São então eliminados os 2, 3, 4, 5 e/ou os 6. No entanto, nesta versão simplificada os períodos de tempo retratados nas cartas são ciclos curtos de tempo, de aproximadamente um ano. Facto que não acontece na versão mais completa, segundo a maioria dos cartomantes mais tradicionais.

No entanto, há um aspecto unânime entre os seus praticantes: esta arte utiliza uma linguagem muito clara, precisa e directa, tornando-a num poderoso instrumento que não deve ser utilizado de ânimo leve. Convém não esquecer a “lei do retorno”…

quarta-feira, 18 de abril de 2007

Runas...

“Sussurro secreto” é a tradução mais fiel atribuída às Runas. São um alfabeto (o FUTHARK) que guardam os mistérios do Universo, tradicionalmente resgatadas pelo deus nórdico Odin, pai de todos os deuses do panteão nórdico.

Provavelmente de origem escandinava e germânica, as runas constituem um dos oráculos mais antigos do mundo, datado de, aproximadamente, 1300 antes de Cristo. Dado à sua antiguidade, o conhecimento das runas era passado oralmente pelos “mestres” aos seus seguidores, pelo que na ausência de documentos o seu conhecimento se foi perdendo. Na Idade Média o conhecimento das runas foi reduzido quase à extinção, tal como muitas outras práticas esotéricas.

Alguns autores atribuem o significado/interpretação das 24 runas ao modo da expressão da energia básica dos 7 principais corpos celestes e dos Nodos Norte e Sul da Lua, com as afinidades e repulsões que essas energias criam. Esta ideia foi igualmente partilhada pelos egípcios. Estes tipos de energia básica universal são de número limitado, poderosas, inteligentes e muito úteis ao Homem. Daí terem sido mais tarde também interpretadas, transcritas e classificadas em algumas religiões como “Arcanjos”.

Odin é vulgarmente associado ao deus da guerra. O seu nome é associado a termos como “tempestuoso” ou “violento” devido ao esforço dos cristãos em depreciar a figura deste deus pagão ao longo da história. No entanto, a raiz do seu nome está ligado às palavras vada e od, no nórdico arcaico, e, no antigo alto alemão, a Watan e Wuot, que significavam no início “razão”, “memória” ou “sabedoria”. Odin é o deus da sabedoria e do conhecimento, é o criador da humanidade, senhor da ciência e das fórmulas mágicas e das runas, deus da agricultura, invocado por ocasião das batalhas, durante os naufrágios e as doenças, na defesa contra o inimigo, e afinal em qualquer situação desesperadora.

Na mão, Odin leva a sua lança Gungnir, forjada pelos anões, que tem uma característica peculiar: nunca erra o alvo. Com Odin, estão sempre dois corvos, Huginn (Pensamento, Entendimento) e Muninn (Memória) e dois lobos, Geri e Freki, símbolo da gulodice. O seu cavalo é Sleipnir, que tem oito pernas, capaz de andar pelo ar e pela água e de passar deste mundo para o outro. O seu trono em Valaskjalf chama-se Hlidskjalf; quando sentado nele, Odin pode ver tudo o que acontece nos nove mundos. Odin é conhecido por vários nomes, entre eles, Todo-pai, O Terrível, Pai da Batalha. Do nome de Odin/Wotan/Woden vem o nome do dia da semana em inglês Wednesday (Quarta-feira) - Dia de Woden, isto é, Dia de Odin.

Conta a lenda nórdica que Odin vai buscar a Sabedoria a uma fonte (Mimir) que está na base da raiz de Yggdrasil, a Árvore ou o Freixo do Mundo. Para beber dessa fonte o preço é perder um olho. Yggdrasil é uma árvore de raízes desconhecidas que funciona como um veículo de comunicação entre o planeta habitado pelos Homens e o “Éden”.

Preso ou por auto-sacrifício, Odin ficou dependurado na Árvore da Vida (Yggdrasil) para obter a Sabedoria. Nela se flagelou com a própria lança (Gungnir), durante nove dias e nove noites permaneceu sangrando com fome e com sede. Ao término desse período, avistou no chão as Runas e adquiriu o conhecimento secreto.

Muitos autores acreditam que os Oráculos não adivinham o futuro... Apenas nos orientam para que prestemos atenção ao que se passa dentro de nós, materializando respostas que estão no nosso subconsciente. O lema das Runas deveria ser: “Conhece-te a ti mesmo”. Pois elas permitem um auto-conhecimento, estabelecem um elo entre o Eu e o Divino. Num breve período de interacção com as Runas, estabelecemos uma zona livre onde a nossa vida se torna maleável, vulnerável e aberta às mudanças. As Runas são símbolos que contêm a sabedoria do deus nórdico Odin, são benéficas e tolerantes; nunca prejudicarão o querente, o quesito ou o “intérprete”. Aprenda a sua linguagem e deixe que elas lhe falem. Elas o ajudarão a conhecer-se melhor, mostrando caminhos e alertando para os perigos, levando-o à escolha de uma melhor posição perante as situações.
EL LIBRO DE LAS RUNAS de RALPH BLUM