E-book "Profissão: EU!"

E-book "Profissão: EU!"
Da autora do blog "Nodo Ascendente", já à venda em raquelfialho.com

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Entre 8 Paredes: da Privacidade à Intimidade

Há algum tempo assisti a um programa de TV onde se discutia se e quando deve um casal começar a partilhar os seus momentos de... expulsão de gases intestinais (chamemos-lhe assim). Entre muitas e variadas opiniões, algumas pessoas defendiam a inviolabilidade do espaço nasal e auditivo do parceiro, afirmando ser uma questão fundamental de respeito mútuo a não emissão de substâncias gasosas de origem digestiva, com ou sem ruído associado.

Freud teria por certo interessantes bitaites e soundbytes a adicionar a esta questão, que   tem muito mais significado implícito do que meros ditames de boa educação ou regras de etiqueta conjugal. A mim, fez-me reflectir sobre os conceitos de privacidade e intimidade na esfera dos relacionamentos afectivos. 

No mapa astrológico, a casa VIII mostra o tipo de experiência vivemos quando contactamos intimamente com outra pessoa. O que é isso de "contacto íntimo"? É sexo, claro. Mas também o contacto entre vulnerabilidades, traumas passados, tabus. Neste verdadeiro "quarto de cama" astrológico, deitamo-nos com os esqueletos que costumam estar bem escondidos no armário, com toda a privacidade. E se deixámos alguém entrar? Acabamos por partilhar a cama com essa pessoa, mais os seus esqueletos.

E o inevitável acontece. Descobrem que temos rugas ou celulite, roupa interior desinteressante ou pijamas largos demais, que ressonamos, que nunca repomos o rolo de papel higiénico e que deixamos as peúgas sujas espalhadas pelo chão. Ah, e que temos gases mal-cheirosos.

Tudo isto faz parte do que se chama, sucintamente, a "rotina" do casal. Mas de início nada tem de rotineiro! Queremos agradar, queremos ser a melhor versão de nós mesmos. Que fazer então com todo o conteúdo da casa VIII? Foi lá que guardámos as humilhações da infância, a curiosidade sexual proibida na adolescência, tudo o que sempre nos recriminaram e proibiram, nos fizeram crer que era mau, sujo, imoral. Não deixes tudo desarrumado, não sejas gord@, não sejas porc@, não sejas indecente. E de repente está outra pessoa à porta do nosso quarto, espreitando para dentro, e que fazemos nós? Disfarçamos enquanto for humanamente possível, claro! ;-)

Mas não há intimidade sem partilha integral, verdadeira. E partilhar é, antes de mais, mostrarmo-nos vulneráveis. Aqui me tens, sou assim por dentro. Às vezes um espetáculo tristonho, patético, feio e incorrecto. Outras vezes, nem tanto. Ainda me queres? Ainda me achas dign@ de amor?

Claro que sim! A magia da intimidade é encontrarmos na outra pessoa tudo o que de tristonho, patético, feio e incorrecto tentamos esconder em nós. E por isso não posso evitar olhar com desconfiança para essas teorias que defendem uma "heróica contenção anal" para bem do relacionamento. Sem sangue, suor e lágrimas, vísceras e tudo, de que serve um relacionamento? Que desafios coloca? Que parte profunda de nós comove e transforma?

Desse estimulante tema televisionado, prefiro guardar o exemplo de um casal que celebra toda a demonstração de flatulência com um jocoso comentário humorístico. Estilo "Chiça, que até os sismógrafos em Pequim registaram esse abalo!" É sempre terapêutico usar de um pouco de Ar (leia-se, sentido de humor) para relativizar a importância às vezes exagerada de questões de Água (leia-se, emocionalmente densas). O riso partilhado pode fazer tanto ou mais pela intimidade do casal do que uma tórrida noite de amor. E ajuda a "quebrar o gelo" quando, deitados na cama com os nossos medos, convidamos a entrar o hesitante amante que espreita da porta dizendo-lhe "Queres ser meu cúmplice? Há sempre espaço para mais alguns esqueletos."

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Irmãos (Gémeos ou de qualquer outro signo)

Quando pensamos nas influências decisivas dos nossos anos de crescimento, e o modo como essas influências moldaram os adultos que somos, muitos de nós concentram as suas atenções na relação que tiveram/têm com os seus pais. A relação entre pais e filhos ganhou tal relevo na Psicologia e saberes afins que acabou por chegar à cultura popular actual, onde referências como "mommy issues" ou "daddy issues" servem de metáfora irónica para homens demasiado nostálgicos da comida da mamã ou mulheres em permanente (leia-se "insaciável") busca por um amante mais velho que as controle/proteja.

Mas há outra relação fundamental na nossa "educação para ser humano": o elo que se estabelece entre irmãos. Esta é, provavelmente, a relação mais duradoura que alguma vez teremos, pois começa por volta com o nosso nascimento (ou alguns anos depois) e termina quando morremos (ou alguns anos antes).

De todos os filhos únicos que já conheci, não me recordo de nenhum que não fale, duma forma ou doutra, na solidão que é viver sem irmãos. Nos primeiros anos de vida, é o idílio: centrar as atenções de papá e mamã, não ter de dividir quarto nem brinquedos nem mimos com ninguém. Até que é chegado o momento de dar um passo para fora da esfera eu-no-ninho-do-papá-e-da-mamã. E é nessa altura que damos de caras (ou não) com alguém parecido connosco: um pouco mais velho ou mais novo, a mesma propensão para a brincadeira e para a birra reivindicativa de tudo o que possa ser conquistado dentro do espaço físico e afectivo da família - desde atenção exclusiva a guloseimas.

Astrologicamente, a etapa de explorar intelectualmente o que está para além das fronteiras do ninho está relacionada com o signo de Gémeos (!) e com o planeta que o rege, Mercúrio. Ambos, signo e planeta, simbolizam a experiência de ter irmãos, quer no sentido restrito do termo (irmãos de sangue e/ou de criação), quer no sentido mais vasto - irmãos de idade, de geração, colegas e pares. 

E Gémeos é o primeiro signo de Ar na roda do Zodíaco. Se Ar é conectar, comunicar e relacionar, então o signo dos irmãos é aquele em que encontramos a nossa primeira parceria com alguém que é como nós. O nosso primeiro relacionamento egalitário, chamemos-lhe assim (com os nossos pais nunca nos chegamos a relacionar "de igual para igual", nem mesmo depois na idade adulta).

Talvez por isso a convivência com irmãos desde que se nasce (ou quase) seja uma experiência que não tem comparação com nenhuma outra. Parece que nascemos já programados para amar pai e mãe, mas com os irmãos o amor é um elo que se constroi todos os dias. À custa de rivalidade e de cooperação, de secretismo mas também de grande cumplicidade. E não raras vezes há irmãos que se unem, reivindicando privilégios como se fossem direitos.

Disputas ou alianças fraternais à parte, é com os irmãos que começamos a ter uma visão multifacetada do mundo. Eles instigam-nos a abrir a mente a coisas diferentes, opiniões diferentes. Desafiam-nos a sair do ninho. A aprender a comunicar (de que outra forma poderíamos gritar "Larga esse brinquedo, é MEU?!?!"...?), a lidar com as nossas inseguranças, a testar os nossos limites (de paciência e não só). 

Voltando à Astrologia dos Irmãos, podemos encontrar insights sobre o assunto olhando para a posição de Mercúrio no mapa astrológico, para o signo da casa III e qualquer planeta que aí se encontre. Planetas na casa III mostram frequentemente a forma como vivemos a experiência de ter (ou não ter) irmãos, o que isso representa na nossa vida, e que aspectos da nossa personalidade temos tendência a viver através do(s) nosso(s) irmão(s).  

Um irmão é como um reflexo num espelho que nos devolvesse uma imagem diferente daquela que sabemos que é a nossa. Olhamos e... quem é aquele estranho do lado de lá? Queremos conhecê-lo. Observamos como se mexe, como fala, como se comporta. Às vezes idolatramo-lo, queremos ser como ele. Outras vezes estranhamo-lo, tem defeitos e manias que não entendemos nem reconhecemos em nós. E no entanto estamos ligados a este reflexo para toda a vida.

Porque se mãe há só uma, irmãos podem ser muitos (felizmente), e não precisam ser todos geneticamente aparentados. Na essência do relacionamento fraternal está o respeito mútuo pela diferença de cada um, o desejo genuíno de aceitar o outro como ele é, e a certeza inabalável de que ele estará lá para mim, venha o que vier. Isso sim, é um irmão.


P.S. Este post é dedicado à minha irmã, ilustremente representada no meu mapa astrológico por 3 (!) planetas na casa III: Marte que me instiga a lutar pelo que eu quero, Saturno a relembrar-me dos meus limites e responsabilidades, e Júpiter retrógrado incentivando-me a confiar na minha sabedoria interior sempre que parto à descoberta de novos e melhores horizontes.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Mudar de Casa, Transformar a Vida

O anseio por um lar vive em todos nós... 
um lugar seguro onde possamos existir tal como somos sem sermos questionados.

Maya Angelou (Escritora Norte-Americana)

Mudar de casa é uma experiência pela qual a maioria das pessoas acaba por passar, mais cedo ou mais tarde nas suas vidas. 

Enquanto crianças e adolescentes, navegamos na maré profissional e conjugal dos nossos pais. Nessa fase mudar de casa sinaliza uma alteração importante na estrutura familiar (casamentos, divórcios,...) e também, muitas vezes, na escola que se frequenta e nas amizades que se dissolvem para ver nascer afinidades mais favorecidas pela proximidade geográfica. Na adolescência, a nossa verdadeira casa é o nosso quarto, o refúgio que é mesmo só nosso e onde procuramos solitude para enfrentar as questões do crescimento que nos vão desassossegando a cada instante - ou privacidade para estar com os amigos longe de olhares inquisidores.  

Quando nos tornamos adultos independentes, a mudança para a nossa casa é o primeiro passo no sentido de afirmarmos a nossa auto-suficiência para nós mesmos, para a nossa família, para a comunidade inteira. Não se trata apenas de conseguir pagar as contas, mas de ter autonomia suficiente para lidar com todas as responsabilidades inerentes. E, mais do que isso, é aceitar essas responsabilidades de bom grado, não como um fardo desconfortável (ai a roupa suja, que falta faz aqui a mamã...!) mas como um prémio orgulhosamente conquistado com esforço e maturidade.

E o que significa a nossa casa, o nosso lar? Algumas pessoas encontram aí muita da segurança material de que necessitam - uma casa de Terra. 
Este é o fruto do meu trabalho, a fortaleza onde encontro o conforto, a estabilidade e a organização que me ajudam a lidar com as incertezas do mundo lá fora.
Outros vêem a sua casa como um ninho de emoções - uma casa de Água.
Este é o meu porto de abrigo, onde reúno as pessoas que amo e aprofundo os laços que nos unem, onde partilho os meus sentimentos e deixo que me inundem de emoções alheias.
Haverá quem encare a sua casa como um campo de liberdade mental - uma casa de Ar.
Este é o espaço onde sou livre de dizer o que penso, de deixar as minhas ideias fluir para o papel ou para os ouvidos daqueles que me entendem, de procurar respostas para aquilo que não sei e encontrar no que os outros me dizem uma fonte permanente de novas aprendizagens.
E há ainda quem veja na sua casa um centro de inspiração criativa - uma casa de Fogo.
Este é o aconchego que me aquece, que me anima, que me motiva para conquistar o mundo levando comigo aqueles que me inspiram e fazendo-os sentir-se tão especiais como de facto são.

Por isso, o processo psicológico e emocional de mudar de casa pode ter muitos significados diferentes, ser simples ou complicado, rápido ou demorado, libertador ou aterrador (ou um bocadinho de tudo!) Qualquer que seja a razão objectiva por que tomemos essa decisão (alterações financeiras, familiares, profissionais...), ajuda muito pensar no que constitui de facto a nossa casa, do que fugimos quando nela nos refugiamos e de que forma podemos expandir lentamente as suas fronteiras. 

Para deixar entrar novas pessoas e experiências que nos enriqueçam, para aprendermos a sentir-nos mais confortáveis, mais amados, mais compreendidos e mais inspirados. Para que na nossa pequena casa haja lugar para o mundo inteiro.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Herança de Virgem: Humildade e Integridade

"Começam a fazer algum sentido determinadas situações...
A da ovelha negra faz todo o sentido. Não sei se percebi tudo mas gostei, espero que as minhas filhas que também são Virgens como eu não tenham que viver nada por mim, não quero deixar-lhes esse fardo. 
Não quero saber nada em especial, mas tudo o que me possa dizer...faz sentido?"

Malibu, Coimbra

Adaptado de Astrodienst
Nem todas as heranças familiares são bem-vindas... Mas quer sejamos ou não as ovelhas negras do nosso rebanho familiar, não há como escapar ao legado psicológico e emocional que os nossos pais nos transmitem tal como os seus pais já lho haviam transmitido. E de geração em geração esse legado vai-se transformando lentamente, adquirindo novas características e ultrapassando lições já interiorizadas. 

Quer tomemos essa herança com orgulho ou desdém, certo é que ela está lá, todos os dias. Impossível não vê-la, pois se até quando nos olhamos ao espelho ele nos devolve o cabelo dourado da nossa avó materna, o olhar acutilante do nosso pai ou os lábios finos de um tio distante. 

No mapa astrológico encontramos algumas dicas importantes sobre a relação que desenvolmemos com o nosso legado familiar. Nada nos diz se é bom ou mau: afinal, herdar pomares a perder de vista pode ser a fortuna de um filho e o fardo amaldiçoado de outro. Como sempre, o mapa astrológico mostra o ponto de vista do seu dono (ou dona).

Neste caso, encontramos uma herança emocional em que as capacidades intelectuais são importantes, assim como a comunicação, a permanente aprendizagem. Há um certo desejo de notoriedade social, mas também a necessidade de ser sábio (Sagitário) e não apenas "espertinho" (Gémeos). Talvez esta seja uma família de pessoas inteligentes - sem dúvida que sim -, de pessoas com o desejo de ir mais longe, de expandir os horizontes das suas raízes em busca de um conhecimento mais vasto. Terão tido oportunidade de fazer um curso superior? De viajar, ou até emigrar?

Estas são necessidades importantes, que você absorveu e tomou como suas ainda na infância. Podem reflectir desejos insatisfeitos do seu pai ou da sua mãe, ou podem traduzir sonhos que eles conseguiram mesmo concretizar. Em qualquer dos casos, a busca pelo conhecimento dá sentido à sua vida e ao papel que desempenha no seio da sua família, e deve tentar lembrar-se disso mesmo quando outras preocupações mais mundanas a afastem desta "missão".

Por outro lado, o seu mapa mostra um enorme impulso para se relacionar com as outras pessoas (6 planetas na casa VII, a dos relacionamentos!), e que esses relacionamentos se traduzam em algo de útil, algo que a melhore a si enquanto pessoa capaz de dedicar amor, atenção e cuidado aos outros (porque Sol, Lua, Vénus e Mercúrio estão em Virgem). Há aqui um forte espírito de querer servir, não no sentido depreciativo da palavra mas no seu sentido maior. 
Servir (com S grande) a quem está ao meu lado, tornar a sua vida mais fácil, mais confortável, mas eficiente, mais saudável. Servir com dedicação, com abnegaçao, com humildade. Servir sabendo que isso me torna numa pessoa melhor, mais integrada e sintonizada com a ordem natural das coisas. 

Este espírito de missão está profundamente entrosado com os seus valores morais mas também com valores mais amplos, com causas que importam à sociedade e ao bem comum (porque a confiante Lua Nova está em aspecto a Júpiter, a Neptuno e a Urano). Pode por vezes sentir que os seus sonhos e ideais a distraem de aplicar o seu grande sentido prático. Mas este conflito interior pode ser superado à medida que for interiorizando que são os sonhos e os ideais que nos movem a todos, e que a organização do dia-a-dia se torna perfeitamente estéril quando não há uma causa maior a qual se dedique de corpo e alma.

Quanto às suas filhas, o melhor que lhes pode dar é um bom exemplo. Mostre-lhes como a energia de Virgem faz falta ao mundo, como é necessária para impôr ordem ao caos, para corrigir o que não funciona, para trazer um pouco mais de saúde e pureza à sua realidade e à das pessoas que ama. Viva a sua vida como ela lhe foi destinada, e as suas filhas decerto encontrarão em si um modelo inspirador quando for tempo de tomarem responsabilidade pelas suas próprias escolhas.

Faz sentido? ;-)

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Os Elementos: Terra que dá Frutos

Tudo tem o seu tempo determinado,
e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.
Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou;


A vantagem dos homens sobre os animais não é nenhuma,
porque todos são vaidade.
Todos vão para um lugar;
todos foram feitos do pó, e todos voltarão ao pó.
Assim que tenho visto que não há coisa melhor do que alegrar-se o homem nas suas obras, porque essa é a sua porção;
pois quem o fará voltar para ver o que será depois dele? 
Eclesiastes 3:1-22 (excertos)

Somos muitas vezes bombardeados com o "cliché" de estarmos todos cada vez mais materialistas. É o dinheiro que move o mundo... ou talvez a mais recente versão do iPhone, sei lá. Comprar, gastar, ter, parecem verbos prioritários para muita gente, enquanto outros pretensos "iluminados" negam qualquer ambição terrena e se entregam a promessas vãs de como-ser-espiritual-em-10-passos.

O elemento Terra é talvez aquele que mais se encontra polarizado nos tempos actuais. É o ter tudo o que dá conforto e status, ou não ter nada desses vícios que corrompem pela ganância e pela avareza. É saturar o organismo com "paletes" de calorias, ou matá-lo lentamente através de distúrbios alimentares (que os há para todos os gostos). 

São os cientistas que nos impingem uma visão mecanicista da realidade em que o ser humano é rei e senhor de todo o planeta (veja-se o fundamentalismo por detrás do Aquecimento Global, como se por modelos e teorias nos tornássemos micro-deuses de ventos e monções). São os fanáticos que proibem o ensino da Teoria da Evolução pois a Bíblia é para ser entendida li-te-ral-men-te (dai-lhes alguma imaginaçãozita, Senhor...!)

A maioria das manifestações de Terra reveste-se de uma profunda aversão à mudança. Terra pressupõe estabilidade, e ninguém quer assistir ao próprio envelhecimento, encarar a sua mortalidade ou a daqueles que ama. Queremos o nosso dinheiro seguro no banco, o tecto de nossa casa protegendo as nossas cabeças dia após dia. Queremos ordem, organização, saber com o que contamos amanhã e daqui a um ano. E nada há de errado com isso: só lutando por construir algo sólido podemos aspirar a deixar marcas permanentes no mundo. De que serve ter ideias brilhantes se não as concretizamos em algo palpável...?

Nesta dualidade reside a essência do elemento Terra, e a razão pela qual continuamos a debater-nos para encontrar o equilíbrio no plano material. Ter tudo porque só assim estamos seguros, ou não ter nada porque na realidade nada nos protege do que está para vir?

Não é fácil encontrar um meio termo. Gosto de imaginar que todo o mundo material é como um pomar. Há que saber semear no tempo certo, colher no tempo certo. Ultrapassar períodos de seca e períodos de cheia com paciência e determinação. Conhecer profundamente aquilo que se planta, respeitar a essência da semente (a de maçã nunca vai gerar um limoeiro!) Prever atempadamente as etapas de florescimento, polinização, maturação do fruto, adequando o adubo e a rega às necessidades de cada etapa. Acima de tudo, há que respeitar a sabedoria infinita da Natureza. E saber esperar.

É isto que fazem os empresários bem sucedidos, não? Em vez de frutos, colhem dinheiro, sucesso profissional e material. Para tal usam do mesmo sentido de responsabilidade para com os seus deveres, da mesma dedicação aos seus projectos, da mesma sensatez na gestão de imprevistos e contratempos. Menos poético falar de dinheiro do que de frutos? Talvez, mas na realidade é tudo o mesmo: dádivas de Terra, da Terra, pequenos pacotes de energia em formato matéria

Não é o dinheiro em si que nos torna materialistas. É o não entendermos que o dinheiro não é em si mesmo um objectivo final, mas apenas um instrumento através do qual honramos a Terra que há em nós e aplicamos os nossos melhores talentos e saberes para construir algo que dure. Que seja útil para as outras pessoas. Que valha o nosso maior e melhor esforço.

Na Saúde e na Doença

Todos nós nos preocupamos com a saúde, e com a falta dela. Se é certo que são sobretudo os momentos de crise que nos levam a procurar respostas para além da realidade quotidiano, a doença crónica, prolongada e mais ou menos fatal está entre os maiores catalisadores de crise existencial que o ser humano é forçado a conhecer.

Mas afinal porque tem que sofrer o nosso corpo físico? 

A medicina, a neuroquímica e tantos outros derivados científicos procuram descobrir de como acontece a doença, a dor. Quanto ao porquê, isso já é matéria para religiões e correntes filosóficas tentarem responder. Dizem que sofremos para nos purificarmos, para pagarmos por erros passados. Ou sofremos porque estamos em desequilíbrio interno, compete-nos aprender a reencontrar o equilíbrio.

Em Astrologia, os planetas e os signos representam princípios universais. Quando pensamos em Saturno, não estamos a falar apenas dum planeta. Estamos a falar de coisas que parecem tão diversas como o chumbo, o deus Cronos, o sentido do dever, a noção de limites ou aqueles representam a autoridade e a ordem. Saturno é o nome do princípio que é comum a todas estas coisas, que as une em significado porque existe na essência de todas e de cada uma. 

No corpo humano, encontramos Saturno na pele e no esqueleto, por exemplo. Na pele, porque é o limite visível do nosso organismo, aquilo que separa o Eu físico do mundo exterior. No esqueleto, porque é a nossa estrutura essencial, a matéria rígida que nos dá forma  e organização interna. Saturno é, de certa forma, onde começa e onde termina o nosso corpo físico. 

Do mesmo modo, todos os outros planetas têm correlações com partes do corpo, com órgãos ou sistemas. E tradicionalmente os signos regemm diferentes "secções verticais" do organismo, desde Áries/Carneiro na cabeça até Peixes nos pés. 

Utilizando uma perspectiva astrológica sobre o corpo humano, é possível tentar encontrar no mapa astrológico algum tipo de insight para as doenças que nos vão assaltando ao longo da vida. Se qualquer desequilíbrio emocional que não é reconhecido como tal acaba por se manifestar fisicamente, então podemos encontrar nos nossos sintomas físicos indicações preciosas sobre o modo disfuncional como estamos a expressar certas partes da nossa identidade essencial. 

Será a pessoa com problemas auto-imunes pouco assertiva ou demasiado dominadora nas suas relações com o mundo? 

E os asmáticos, terão dificuldade em comunicar aquilo que realmente pensam e sentem?

Como em tudo o que é Astrologia, não vale a pena colocar a questão em termos de causa-efeito. Não é um ou outro planeta que nos põe doentes. Simplesmente os nossos processos internos são feitos de permanentes adaptações, transições, evoluções. Algumas trazem-nos bem-estar, catalogamo-as de "sorte" ou até "felicidade". Outras causam-nos sofrimento, chamamos-lhe "desgosto" - ou "doença", quando o mal-estar é físico. 

Meditar sobre o esboço destes processos internos que encontramos no mapa astrológico não é nenhuma cura milagrosa. Mas ajuda-nos a dar mais um passo no sentido de nos percebermos um bocadinho melhor, e de encontrarmos a nossa própria resposta ao "Porque é que isto me aconteceu a MIM!?!?" - sem intermediários nem respostas pré-definidas à partida. 

E isso, qual aspirina emocional, faz toda a diferença.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Jung e as Ovelhas Negras

"O maior fardo que uma criança tem de carregar é a vida não vivida dos seus pais".

Carl G. Jung, Psiquiatra e Psicoterapeuta Suiço (1875-1961)


Não sei se existirá alguma família que não tenha pelo menos uma ovelha negra. Em certas famílias, a ovelha negra estará talvez melhor camuflada do que noutras - afinal, o que vão as pessoas pensar....? E no entanto estes rebeldes (com ou sem causa) desempenham um papel essencial no desenvolvimento psicológico e espiritual da sua linhagem. Não são apenas desordeiros gerando o caos na sua família de Hoje, mas sim herdeiros de uma importante tarefa: a de prosseguir, no caminho dos seus antepassados, a busca pela integração plena.

E que é isso de integração plena? É o preenchermos as partes de nós que sentimos incompletas. Numa família, isso significa desenvolver os talentos, as competências, as características que foram sendo negligenciadas ao longo do tempo, às vezes durante muitas gerações.

Será ovelha negra o contabilista que nasce no seio de uma família de músicos, ou o jardineiro numa família de advogados. A expressão de uma vocação profissional é talvez a forma mais visível que uma ovelha negra tem de se manifestar. Mas há muito mais em jogo do que isso. 

Astrologicamente, observa-se com facilidade a transmissão de certos padrões astrológicos dentro da mesma família. Certos signos que se repetem, ou certos aspectos (sobretudo entre planetas pessoais e um dos mais lentos). Estes padrões mostram recursos preciosos para o desenvolvimento individual e familiar, permitem que cada pessoa construa algo de significativo durante a sua vida e que esse "algo" se torna numa parte importante do legado da sua família. Um elo precioso numa longa cadeia de elos, geração após geração.

Mas por mais "afortunado" que possa parecer um legado astrológico, há sempre uma sombra que aprendemos, com a nossa família, a ignorar. A família de músicos pode ter uma dificuldade tremenda em gerir os seus bens (dirão "mas que importa o dinheiro, se acima de tudo está a arte...?"); a família de advogados despreza todo e qualquer tipo de trabalho manual ("sujar as mãos, eu? nem pensar nisso!"). 


Música exige técnica, técnica exige dedicação, esforço e dextreza. E o despertar dos sentidos, claro. Tudo isto são dons de Terra, tal como o é a capacidade para lidar com questões materiais. Posses, objectos, dinheiro. Terra plenamente integrada é tudo isto, desde o belíssimo timbre de um Stradivarius ao barulhinho dos trocos que levamos no bolso. E depois de muitas gerações de músicos brilhantes de inspiração, eis que surge um contabilista nato. O que ele gosta mesmo é dos números, das contas, do dever e do haver. 

A família horroriza-se, ou talvez fique apenas decepcionada. Na melhor das hipóteses, encara este inédito talento como uma lufada de ar fresco. Um astrólogo traça o seu mapa et voilà, nada de extraordinariamente diferente do resto da família. Este poderia até ser o mais artístico dos filhos, o mais famoso dos netos. E no entanto algo nele o fez seguir o seu percurso astrológico de um modo inteiramente diferente dos seus familiares, desenvolvendo os seus talentos terrenos de forma inédita. 

O quê? Não sei, precisaria dar uma olhadela mais atenta ao mapa fictício deste contabilista imaginário. Mas, como defendia jung, é provável que nada tenha um efeito tão significativo no desenvolvimento de uma pessoa do que a vida não vivida dos seus pais. E nesta "vida não vivida" cabem muitas coisas. Desde logo os sonhos deixados para trás, por se terem revelado "irrealistas" ou "perigosos". Os relacionamentos não vividos, os talentos por explorar, tudo isto é esqueleto no armário dos nossos pais. Alguns esqueletos serão mais ao menos conscientes, talvez até olhados com uma certa nostalgia conformada (ah, o que eu queria mesmo ter sido era piloto/actor/político....). Outros esqueletos vivem sempre na obscuridade do Inconsciente. Reflectirão não tanto as vocações não seguidas mas as necessidades profundas que estão na origem de qualquer vocação. O desejo de ser amado, odiado ou invejado, de inspirar multidões, de viver saltitando entre continentes, de traçar novos caminhos em território inexplorado, ou teorias pioneiras que domestiquem o medo racionalizando o caos....

Algures no Tempo estas necessidades tornaram-se tabu. "Sim, que nesta família não se fala em tontices dessas, isso é para os parvos que perdem tempo acreditando que tais coisas são aceitáveis/possíveis/úteis, não é para nós". E o tabu vai criando raízes, geração após geração. Já ninguém o questiona. Nascem músicos, vivem músicos, morrem músicos. Até ao dia em que aquele que nasceu músico decide que afinal gosta mesmo mesmo é de contabilidade.



Ninguém escolhe ser ovelha negra só pra chatear, ou porque sim, ou porque faz-parte-da-juventude-o-ser-rebelde-e-isso-depois-acaba-por-passar-com-o-tempo. Todos temos o primordial dever de sermos autênticos. E acredito que só assim conseguiremos de facto, com a nossa vida inteira, honrar o legado dos nossos antepassados e dar um passo em frente no sentido da integração plena, do completo usufruto de todos os recursos e talentos intrínsecos à nossa linhagem. 

Talvez os espíritos dos que já partiram e dos que ainda nos hão-de suceder - onde quer que eles estejam - olhem com um misto de admiração e benevolência as bravas ovelhas negras que diariamente se recusam a ser só mais um entre a carneirada. Somos muito mais do que a mera soma das expectativas dos nossos antepassados, o balanço dos seus sucessos e fracassos. E continuamos a prová-lo! - mesmo que isso implique estudar Contabilidade ;-)

P.S. As profissões mencionadas neste post são apenas exemplos utilizados para efeito metafórico, não sugerem qualquer tipo de preconceito nem pretendem reflectir qualquer situação ou pessoa em concreto.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Astrologia do Coração Partido: Trânsitos de Plutão

Indiferente às discussões sobre o seu estatuto astronómico (planeta? planetóide? ...), Plutão mantém a sua enorme influência astrológica. A morada de Plutão no nosso mapa natal é a sede dos nossos medos mais recônditos, dos esqueletos há muito guardados no armário do Inconsciente, fonte de traumas, vergonhas, mas também de imenso poder e resiliência.

Quando Plutão transita afectando um dos nossos planetas pessoais, nada fica como dantes. Não dentro de nós, e certamente que não nos nossos relacionamentos. Plutão força-nos a confrontar o nosso lado mais sombrio, os nossos pesadelos mais antigos, as nossas obsessõezinhas inconfessáveis. Traz à tona as feridas do Passado que nunca chegaram a cicatrizar (por mais que tenhamos tentado "perdoar & esquecer"). Torna-nos mais possessivos que o habitual, mais desconfiados, mais esquivos. Ou então confronta-nos com pessoas dominadoras, que tentam esmagar-nos a vontade própria para que tenhamos a oportunidade de descobrir de que matéria somos realmente feitos, onde reside o nosso maior poder e como utilizá-lo para nos preservarmos. 

Porque Plutão é também sentido de preservação, de sobrevivência. O instinto animal partilhado por todos os seres vivos, e que tem como único objectivo prevalecer sobre tudo o resto a qualquer preço - e que se danem as obrigações morais ou as conveniências sociais. Durante um trânsito de Plutão, há uma sensação de ameaça eminente. Podemos projectá-la no nosso chefe (que nos quer tramar...!), nos nossos colegas de trabalho (que se querem safar às nossas custas...!), no nosso companheiro ou companheira (que anda a esconder qualquer coisa...!), no governo (que só sabe lixar-nos a vida e os bolsos...!) Todos os sentidos (incluindo o da intuição) entram em alerta máximo, atentos ao mínimo sinal de perigo. 

Por mais paranóicos que nos tornemos, há sempre qualquer fogueirazita a alimentar a fumaça dessa paranóia. Sim, há mesmo alguém a tentar tramar-nos - conseguimos senti-lo mesmo que não saibamos explicar como. A questão é perceber quem. E se no comportamento suspeito/condenável dessa pessoa não estará reflectido algum aspecto mais sombrio que em nós próprios tentamos negar. Pois que se as circunstâncias da nossa vida reflectem o nosso estado de Alma, quanto mais negra for a situação maior é a sombra inconsciente que nos compete confrontar. 

As intensas experiências com Plutão deixam-nos mental e emocionalmente exaustos, pedindo mais isolamento, mais privacidade. Mas no processo reaprendemos algo de valioso sobre a capacidade de resistir à adversidade, purgando males antigos e renascendo das suas cinzas. Se para isso tivermos de investigar a fundo os reais sentimentos e motivações daqueles que nos são mais próximos, que seja. Talvez tenhamos a lucidez de ir mais longe e perceber que muita do que sucede numa relação é bagagem emocional do Passado - e como podemos culpar quem hoje está ao nosso lado pelas nossas feridas mal curadas? 

Um relacionamento que sobreviva ao impacto tremendo de um trânsito de Plutão tornar-se-á ainda mais sólido, mais profundo, muito mais íntimo e cúmplice. Ultrapassadas as desconfianças, os segredos e os ciúmes, atingimos uma consciência maior das nossas verdadeiras motivações e tornamo-nos mais capazes de aceitar a sombra de quem está do nosso lado. Com toda a sua escuridão, Plutão encerra no submundo dos tabus os incalculáveis tesouros do Inconsciente. Tenhamos pois a coragem de os resgatar.