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quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Tarot - XV. O Diabo

"E às vezes somos diabos para nós próprios, quando tentamos a fragilidade dos nossos poderes presumindo a sua potência volátil."

William Shakespeare (Dramaturgo inglês, 1564-1616)


"Mas é bem melhor ousar coisas grandiosas, obter triunfos gloriosos ainda que alternados com o fracasso, do que permanecer com os pobres espíritos que não gozam nem sofrem muito, porque estes vivem uma existência cinzenta que não conhece vitória nem derrota."

Theodore Roosevelt (Estadista e presidente norte-americano, 1858-1919)


Símbolos Básicos
Um demónio alado sobre um pedestal negro, duas figuras nuas (mulher e homem) presas por correntes, um pentagrama. Em alguns baralhos, uma montanha surge ao fundo.

A Viagem do Louco
O Louco segue o seu caminho após o encontro com um Anjo e a sua alquimia dos opostos (Ver Temperança). Surge no horizonte uma enorme montanha negra, governada por uma criatura meio-bode meio-deus. Junto aos seus cascos estão pessoas nuas, presas por correntes ao trono do estranho regente enquanto desfrutam de todos os prazeres terrenos: comida, bebida, sexo, drogas, ouro... A cena ameaça apoderar-se do Louco, que à medida que se aproxima do sopé da montanha sente crescer em si os seus desejos mais mundanos. Luxúria, obsessão, ganância. "Recuso submeter-me a ti!" grita ele para o Deus-Bode, que lhe devolve um olhar curioso respondendo "Limito-me a trazer à superfície aquilo que já existia dentro de ti. Não precisas temer os teus desejos, nem evitá-los ou sentir vergonha deles." O Louco fica ainda mais indignado, e apontando zangado para as pessoas acorrentadas, pergunta: "Como podes dizer isso, quando estes que aí se banqueteiam aos teus pés foram por ti escravizados?" O Deus-Bode imita o gesto do Louco, respondendo-lhe "Observa com mais atenção."


O Louco assim faz, e percebe então que as algemas que prendem homens e mulheres são suficientemente largas para serem removidas sem esforço. "Eles podem ser livres se o desejarem", diz o Deus-Bode. "Mas tens razão. Eu sou o deus dos teus maiores desejos. Estas pessoas foram escravizadas apenas porque se deixaram controlar pelos seus desejos mais básicos." E o Deus-Bode continua, apontando para o cume da montanha: "Não vês aqui aqueles que permitiram que as suas aspirações os levassem ao topo desta montanha. As inibições podem ser tão limitadoras como os excessos. Podem impedir-te de seguir a tua paixão até aos mais elevados objectivos. "


O Louco compreende a verdade das palavras do Deus-Bode, e também o erro de julgamento que cometeu. Esta não é uma criatura maligna, mas um ser com grande poder, do mais elevado e do mais subterrâneo, simultaneamente besta e deus. Como todo o poder, este é assustador, perigoso... mas se bem compreendido e utilizado, pode ser a chave para a liberdade e a transcendência. 



Notas interpretativas

A carta do Diabo é uma das mais incompreendidas entre os Arcanos Maiores do Tarot. Aqui, o “Diabo” não é o Satanás das religiões monoteístas, mas sim os deuses Pã ou Dionísius, com meio corpo de bode, que na Mitologia Antiga brincavam despreocupadamente por entre bosques e riachos, promovendo orgias de sexo e vinho entre humanos e seres mágicos. Pã ou Dionísius são a personificação do abandono aos prazeres da vida, do comportamento selvagem que busca exclusivamente a satisfação dos desejos imediatos. Não é por acaso que um dos símbolos do Diabo é o Pentagrama invertido: a submissão do espírito ao mundo material.

Regida por Capricórnio, a carta do Diabo fala-nos de ambição, mas também de tentação e dependência. A maior parte de nós aprende desde muito cedo que estes são temas a abordar com desconfiança. Ceder à tentação do sexo ou da comida é "mau", depender de álcool ou drogas é "mau", ser demasiado ambicioso é "mau" (“quem tudo quer tudo perde”, etc). A carta do Diabo alerta-nos para tudo isso: em todo o excesso que nos leva a perder o controlo há o risco de nos tornarmos dependentes de algo ou de alguém, de nos tornarmos escravos daquilo que mais desejamos. Ora o excesso de controlo pode também ser fonte de limitação, e por isso este Diabo capricorniano exorta-nos, paradoxalmente, a ceder aos nossos impulsos mais elevados, a não ter receio de investir numa ambição maior que nos leve a escalar montanhas em busca de algo tão extraordinário que não está acessível aos “esforçozinhos de média intensidade”, mas apenas às grandes conquistas.

Quando o Diabo surge numa leitura, o Querente pode estar a personificar um dos extremos do signo de Capricórnio: excessivamente ambicioso (do tipo que não olha a meios para atingir fins), ou excessivamente controlado (do tipo que não se permite viver nada demasiado intenso, demasiado apaixonante… demasiado ambicioso). O Diabo pode também referir-se a uma figura masculina com grande poder financeiro e/ou magnetismo sexual, alguém que é agressivo, controlador, ou simplesmente persuasivo. Não se trata de uma pessoa necessariamente “má”, apenas de alguém a quem é muito difícil resistir... Como na história do Louco, o mais importante com a carta do Diabo é compreender que, se existe algo que nos domina – um chefe, uma ambição, uma obsessão –, fomos nós que consentimos esse domínio. As algemas são suficientemente largas para nos libertarmos. Permanecemos aprisionados enquanto, consciente ou inconscientemente, assim o permitirmos. 

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